Irritações gastronómicas

Irritações gastronómicas

Num ou noutro momento das nossas vidas, todos nós temos as nossas «irritações», pequenas ou grandes, seja quando confrontados com algo com que embirramos solenemente, ou quando percebemos claramente que nos estão a tentar enganar de forma deliberada. Em termos gastronómicos, e usando-se linguagem popular, dir-se-ia que não é de todo inteligente convencerem-nos a «comer-se gato por lebre», principalmente quando se conhece um e o outro.

Na despedida desta rubrica de «Gastronomias», que foi criada pelo saudoso amigo Mário Helder, irei falar de algumas situações que me irritam sobremaneira, no que se refere à gastronomia:

1ª - A Dieta Mediterrânica: de há algum tempo a esta parte, um grupo de «iluminados gastronómicos» tem sugerido que a dieta (entenda-se por «dieta» o que consumimos, os produtos e a sua confecção) é Mediterrânica. Ora, da última vez que olhei para um mapa, constatei que Portugal ainda é banhado pelo Oceano Atlântico e não pelo Mar Mediterrâneo. Dizer-se que a «dieta» do nosso país é a do Mediterrâneo não só revela profunda ignorância, como é de profundo desrespeito para com os nossos concidadãos das Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira, que cozinham e comem em pleno Atlântico. Para mais, pergunto: quem no seu perfeito juízo quereria associar a soberba qualidade dos nossos produtos e optar por comer «algo» vindo do Mediterrâneo, que «detém o nada honroso posto de mar mais poluído do planeta. Por volta de 15 milhões de toneladas de detritos são despejados por ano nas outrora límpidas águas que banham o sul da Europa e norte da África» (fonte: Águas do Algarve).

2ª - O «conceito»: Irrita-me profundamente entrar num restaurante, sentar--me onde me indicaram e o funcionário, solícito e quase sempre aos saltinhos, perguntar-me se já conheço o «conceito» do restaurante. Quê? «Conceito»? Que raio é o «Conceito»? Quando entro num restaurante só espero que na confecção da refeição tenham sido usados produtos frescos, que estes tenham sido «honrados» com os «cortes» certos e que os tempos de cocção tenham sido os correctos. Antes que me perguntem, saibam que o «conceito» só pode ser o de vir a desfrutar de uma boa refeição. Certo?

3 - Não saber «Pôr a mesa»: Entro num restaurante, peço um prato de peixe, qualquer peixe que seja. Passado algum tempo sou atenciosamente e «profissionalmente» servido. É então que reparo que, para comer o meu peixe-espada grelhado, só disponho de talheres de carne... A sério? Mas o que é que se passa nesta «tasca» rasca? Esperam que coma a sopa com a colher do café, ou a mousse de chocolate de faca e garfo?

À mesa e na vida, melhores dias virão, certamente...

Epicuro