Livro do Desassossego

O que é a vida senão um desassossego constante? O que seria da literatura portuguesa sem Fernando Pessoa?

Este mês sugerimos um dos livros mais conceituados do autor, como se todos não o fossem. Ao contrário do que os leitores poderão estar habituados, não se conta uma história com princípio, meio e fim. Aliás, é até discutível e susceptível a diferentes interpretações a ordem pela qual os textos são apresentados. Foi em 1982 publicado pela primeira vez, quase meio século após a morte do poeta.

Uma obra fragmentada, alvo de estudo constante sobre como deve ser organizada. Precisamente uma das condicionantes pelas quais sempre me fascinou, a mim, apaixonada desde que me lembro por Pessoa e seus heterónimos; pela sua escrita, ideias e disparidades. Uma publicação, assinada pelo semi-heterónimo Bernardo Soares, que me acompanha há anos. Li e reli vezes sem conta. Há livros que carrego comigo numa viagem, podem até durar ida e volta, mas este já me acompanhou em várias.

O que tenho é a versão integral, como na imagem. Contudo, existem outras. Nesta edição, para além do que se pensa ser a visão do autor para esta publicação, estão ainda incluídos textos adicionais que se acredita que também lhe pertencem. Embora Pessoa tenha dedicado mais de vinte anos à sua escrita, em parte alguma que se conheça deixou esclarecida a organização que lhe pretendia dar.

Há quem considere que existem dois Livros do Desassossego: uma primeira edição onde são dois os autores, nomeadamente Vicente Guedes, numa primeira fase (anos 10 e 20), e Bernardo Soares (final dos anos 20 e 30), e ainda outra em que a primeira fase pertence a Pessoa e a segunda então a Bernardo Soares.

Desassossego, algo que todos sentimos. Talvez de maneiras diferentes ou por motivos distintos, mas, de forma geral, é uma palavra que remete para a recusa em ficar parado e em aceitar o que incomoda. No fundo, um desconsolo, uma busca contínua pelo que ainda não foi alcançado. Fernando Pessoa partilhou muitas vezes a sua angústia existencial, as suas dúvidas e apreensões, de forma espontânea, íntima e reveladora.

Como noutras obras, nesta o narrador não precisou de sair de Lisboa para viajar pelo seu ser, pela maneira dissemelhante com que encarava a vida, lidava com o pensamento e utilizava as palavras. A emoção não é posta de parte, pelo contrário, é exposta através de inúmeros cenários e sentimentos; observações do narrador que nos transportam para a sua mente.

«Pensar, ainda assim, é agir. (…) Não querer compreender, não analisar… Ver-se como à natureza; olhar para as suas impressões como para um campo – a sabedoria é isto.»

Beatriz Maio