À conversa com o arquitecto José Veloso

Até à edição de 01 de Outubro deste ano, em que assinalaremos o 26ª aniversário da nossa revista Nova Costa de Oiro, iremos publicar em exclusivo uma entrevista da autoria de Armando Amaro, Mestre em Arquitectura e Licenciado em Cultura Arquitectónica, pela Universidade de Évora, ao cidadão e arquitecto lacobrigense José Veloso.

Não é apenas pela nossa relação de longa amizade e de camaradagem que nos ligam que este trabalho virá às nossas páginas. É, acima de tudo, porque considero essencial que este e outros nossos concidadãos, as suas vidas e o seu trabalho fiquem e sejam perpetuados no tempo, que não se percam na espuma da nossa memória colectiva. É por isto e o muito mais que é «isto», que é a nossa vida.

Carlos Mesquita

José Paulo Velho Geraldo de Albuquerque Veloso nasceu na freguesia de Santa Maria, Lagos, a 09 de Junho de 1930. Licenciou-se em Arquitectura pela Escola Superior de Belas Artes de Lisboa e passou a exercer a sua profissão em Lagos, onde abriu o seu próprio «atelier».

Em 1969, participou activamente no Movimento CDE (Centro Democrático Eleitoral). Foi candidato da CDE, por Faro, à Assembleia Nacional e, em 1975, foi candidato à Assembleia Constituinte, pelo MDP-CDE. Foi candidato do PCP, em diversas eleições para a Assembleia da República, pelo círculo de Faro.

Entre 1974 e 1976, trabalhou para o Fundo de Fomento da Habitação, como coordenador de equipas de projecto do Serviço de Apoio Ambulatório Local (SAAL), com projectos construídos em diversos concelhos algarvios, entre os quais o bairro que é conhecido como o dos «Índios da Meia Praia».

Armando Amaro: O arquitecto nasceu em 1930, quais são as suas primeiras memórias da vivência na cidade de Lagos?

José Veloso: A minha infância e juventude, foi passada em Lagos, até aos 10 anos de idade. Feita a instrução primária, em Lagos, numa escola particular porque a minha família pertencia aqui ao escalão… A sociedade de Lagos, estava escalonada, e esse escalonamento, traduzia-se depois nas associações. De tal maneira, que havia grupos de associações, esse escalonamento era de carácter social e, portanto, o seu reflexo em termos económicos. E a minha família pertencia ao escalão mais alto, que eram aqueles que eram associados então à Sociedade Filarmónica Lacobrigense, que já não tinha filarmónica nenhuma, terá tido na origem. E que, sem nada de depreciativo, nem de valorização de qualquer espécie era conhecido pela alcunha, era “O Ricos”, ninguém conhecia já o nome, era “O Ricos”, pronto. E a seguir, se vamos escalonar, a seguir havia o Grémio. O Grémio, que já representava o sector do comércio abastado ou então proprietários rurais, mas abastados. Depois havia Os Artistas, mas que tinha o significado de mestres, e que eram os mestres pedreiros, os mestres serralheiros, os mestres do mar, enfim, professores ao nível de auxiliares, porque os professores estavam n’O Ricos, na maioria. E depois a seguir, O Metalúrgico, que era a Sociedade Metalúrgico que era os operários. E ao lado, paralelamente, havia, O Marítimo que era, portanto, os homens do mar. Aqui em Lagos não se chamava os pescadores, chamava-se os homens do mar, para se distinguir, porque o sector rural era os homens do campo. Isto era na linguagem corrente, nos termos coloquiais. E tudo isto estava fixado, e esta estratificação repetia-se em tudo, em todas as manifestações da cidade, a não ser as religiosas. E mesmo essas tinham lugares especiais nas primeiras filas da igreja, porque havia grandes diferenças nas duas freguesias da cidade, a freguesia de S. Sebastião e Sta. Maria. Sta. Maria era das classes dominantes que moravam ali na sua maioria. Tudo isto estava fixado e não bulia, esta sociedade estava imóvel no tempo e no espaço, completamente. O sector dominante, esse dividia-se entre os industriais e os proprietários rurais mais abastados, onde estava a minha família. Por isso fiz a instrução primária na escola do Sr. Professor Taquelim, que hoje tem o nome numa rua, que era muito considerado porque os seus alunos eram sempre classificados e eram considerados, e era de facto, um privilégio. Que resultava, nas notícias que chegavam dos alunos, do professor Taquelim, eram sempre alunos que se distinguiam depois no liceu. Fosse no liceu em Faro, fosse no liceu em Lisboa. E agora, entram aqui algumas questões, é bom referir, que nessa época, eu estou a falar da década de 30, que foi a década da minha instrução primaria só em 40 é que fui para Lisboa, com a família, a família mudou-se toda para Lisboa. Onde a família alugou lá um andar e lá vivemos até o meu pai falecer, já nos anos 50, exactamente em 53 estava eu já na tropa. E então a propósito de uma questão que é quente em Lagos, nunca, não tenho memória nenhuma de alguma vez ouvi dizer que aquele edifício era mercado dos escravos, aquele edifício era conhecido como “A Principal” a referência que havia na cidade de Lagos, para toda a gente, não era só alguns sectores, era para toda a gente era “A Principal”. E essa “A Principal” o que era, não faço ideia porque talvez algum investigador consiga saber, era o nome que era dado à polícia municipal. Que nesses tempos da monarquia havia, havia a polícia municipal que tinha ali o quartel, e era conhecida como a principal, e eu nunca consegui perceber que ligação havia entres essa função de polícia municipal e que justificasse o título “A Principal”.

AA: Nos anos 30, começa-se a desenhar a Avenida da Guiné e gostaria de lhe perguntar se tem memória e se assistiu a esse processo da construção da avenida?

JV: Sim, sim. Lembro-me perfeitamente da inauguração, mas perfeitamente, quem fez a alocução da inauguração foi o Coronel Rato. Nessa altura ainda não era coronel, suponho eu… Ele era avô do Eduardo Zúquete, do engenheiro… Tenho ideia de que ele nessa altura já estava inválido, a certa altura ele terá tido, não sei, se um enfarte, se uma comoção cerebral, um AVC qualquer, ou coisa do género não sei o que foi, que ele ficou paralítico das pernas e das mãos. Fazia me uma impressão a mim que era garoto, apertar-lhe a mão porque era uma mão quase morta, que ele não fazia quase força com a mão. E eu lembro-me perfeitamente dele falar, e tenho impressão que já nessas condições. A imagem que eu tenho, embora eu posso confundir com a imagem mais geral dele como inválido, mas enfim, de toda a forma foi ele que fez a alocução, lembro--me perfeitamente disso, armaram um palanco, aquilo tudo enfim. Lembro-me perfeitamente da Avenida da Guiné, e lembro-me da construção.

AA: Mudou-se para Lisboa com idade para frequentar o liceu, como foi essa mudança?

JV: Aos 10 anos de idade fui para Lisboa, para um colégio particular, outra vez. Eu não fui para o Liceu…

AA: Era então o equivalente ao liceu?

JV: Sim, sim, mas era em colégio particular. Andei em dois, primeiro no Colégio Infante Sagres, que era considerado o melhor colégio de Lisboa e depois no Colégio Manuel Bernardes que era da viúva do João de Deus.

AA: Queria perguntar-lhe como foi esta mudança, porque quando estava em Lagos estava habituado a estar junto ao mar e da praia e se calhar sentiu diferença de ir viver para Lisboa.

JV: É claro que o ir viver para Lisboa, foi sempre uma grande promoção. Porque repara bem, Lagos estava completamente isolada. Eu não me lembro em rapazinho de ir a Faro, Faro era longíssimo, não se ia a Faro, ninguém ia fazer nada a Faro. Não havia ligação nenhuma com Faro, e com Portimão que era a cidade mais próxima, havia uma rivalidade terrível. Eram insultos permanentes, que depois se reflectiram no futebol. Aquele jogo entre o Esperança de Lagos e o Glória ou Morte, suponho que era como se chamava o de Portimão, aquilo dava sempre pancada, sempre. Ou então com Silves, também havia essa grande rivalidade com Lagos, que tinha sido a capital do Algarve, mas tinha perdido esse título de nobreza com o terramoto (1755), e as pessoas de Lagos nunca perdoaram. Então não podiam ver, Portimão que era uma cidade cheia de energia e de gente nova, inovações e tudo aquilo. E que aparece muito bem reflectido no livro da Maria João, das elites conserveiras. Mas aqui em Lagos nunca se perdoou, e chamavam os carecas de Portimão e os de Silves eram… já não me lembro, mas havia essa rivalidade.

AA: Então havia essa diferença entre esse isolamento que existia aqui, essas rivalidades e, se calhar, uma mentalidade mais aberta em Lisboa…

JV: Era uma mentalidade completamente diferente. Mas Lagos, aliás, não era só Lagos, o Algarve estava tão isolado no país que em Lisboa, eu lembro-me disto perfeitamente, no meu primeiro ano do colégio que foi no Infante Sagres, perguntarem onde é que fica o Algarve. “Tu és do Algarve? Onde é que é o Algarve?”. Em Lisboa, miúdos, garotos, com 10,11 anos de idade, tinham essa ideia do Algarve como uma coisa longínqua. Ainda heranças com certeza do Reino do Algarve.

AA: A ideia do Reino do Algarve uma coisa diferente e separada do resto do pais…

JV: Completamente separada. O isolamento do Algarve era de tal maneira que a melhor estrada que havia para ir era a estrada por Aljezur. Entre Odeceixe e o Cercal, portanto 60km, eram em terra batida, nem sequer mau asfalto, era terra batida, com pedras e buracos. Havia uma carreira diária de Lagos para Lisboa, mas que só ia quem não tinha mais nenhuma alternativa.

AA: Então as pessoas iam mais de comboio?

JV: Iam de comboio que eram 8 horas à tabela! Era o dia todo, ou a noite toda. Eram dois comboios por dia um de dia e um de noite. O de noite era chamado o comboio correio, que levava as mercadorias e levava o correio, e que ia pelo Vale do Sado. E o do dia que ia por Beja, que era chamado o rápido, que levava as mesmas 8 horas e que nunca cumpria as horas, nunca.

AA: Curioso… E nessa altura já não havia as ligações de barco a Lisboa? Porque antes de você nascer era o mais usual.

JV: Já não, já não. Havia memória, mas não.

AA: Havia pouca comunicação…

JV: Havia muito pouca. Durante a guerra foram buscar outra vez a diligência para Sagres. Há uma fotografia até que diz lá “Lagos-Sagres”, que era uma diligência que foi do Abel Luís, que era de Sagres. Tinha lá uma pensão, a Pensão Luís. Que depois foi o primeiro concessionário da primeira carreira de camionetas de Lagos para Sagres. Repara que eu fui à inauguração da primeira estrada pavimentada / alcatroada da Vila do Bispo para Sagres. Tinha para ali 9 anos ou coisa do género já não me lembro.

AA: As ligações viárias demoraram imenso tempo a serem concretizadas, com alguma qualidade…

JV: Eram péssimas! E agravadas pela Guerra…

AA: A instabilidade governativa no século XX também contribui para isso: Monarquia, República, Ditadura Militar e Estado Novo…

JV: Claro, mas uma coisa se manteve sempre: o isolamento! AA: E acha que esse isolamento era marcado também na visão e mentalidade das pessoas? JV: Claro que era. Repara bem, em Lagos eu era um dos dois assinantes do Jornal Diário. Vinham dois Jornais Diários para Lagos, desses que era na República. Por exemplos os vespertinos, não vinham para Lagos. Como havia os matutinos em Lisboa, Diário de Notícias e O Século, e no Porto, o Primeiro de Janeiro e o Jornal de Notícias. Os matutinos não vinham a Lagos. O Jornal de Notícias chegava com um dia de atraso, mas em 1950 ainda chegava com um dia de atraso…

AA: Já em Lisboa matriculou-se na Escola de Belas Artes em 1946/1947, o que o levou a escolher o curso de Arquitectura?

JV: Aos 16 anos, acabei o Liceu… Tinha completa falta de informação sobre o curso, mas tinha uma grande vontade de fazer casas, e pronto. Foi só assim. Sem mais informação nenhuma, nenhuma, nenhuma. Não tinha nenhuma informação do que era ser arquitecto a não ser que podia ir fazer casas. Desenhar e fazer casas. E foi isso que motivou um rapazito de 16 anos.

AA: E como era o ambiente universitário que encontrou nesse período na Escola de Belas Artes?

JV: Era um ambiente magnífico! Magnífico e ao mesmo tempo opressivo, também. Foi magnífico para mim porque, repara, eu vinha de um colégio de padres… A bagagem que eu carregava era primeiro Lagos, completamente isolado onde nada acontecia, perturbação nenhuma acontecia. E depois o Liceu foi num colégio de padres, onde a pressão religiosa era muito grande, era um padre o Director, onde eu tive algum tempo interno. Primeiro tinha estado interno no Infante Sagres e depois já fomos como semi-internos, portanto era o dia todo até ao fim da tarde, lá para as 6 ou 7 horas é que chegava a casa, portanto eu não tinha tido contacto fora da família. Nenhum contacto, nada, nada. Era a família de Lagos e familiares que moravam ou trabalhavam em Lisboa, havia bastantes e essas eram as relações que eu tinha. Portanto não sofria influência mais nenhuma, a não ser, estas que acabei de dizer: a cidade isolada e imóvel e da pressão religiosa. De forma que para mim aquilo foi um mundo completamente novo, um mundo onde se falava, onde se discutia. E ainda para cima em Belas Artes, que era conhecida nessa época das universidades mais rebeldes, onde se discutia. AA: Havia essa efervescência da altura? JV: E além disso era o final da (II) Guerra (Mundial). Não esquecer que estamos em 46 e a Guerra tinha acabado em 45. Praticamente tinha acabado a guerra. Portanto na universidade, os jovens universitários já discutiam aquilo que era proibido discutir. E aí fui começando a perceber que o mundo não era, como aquele mundo que eu conhecia… sem problemas nenhuns, tudo doce, tudo sem perturbações, que era a formação que eu tinha. E de repente desabei no final daquela coisa terrível que foi a guerra… E no meio estudantil onde se discutia tudo, não se discutia só as questões propriamente do curso ou da escola, nessa altura nem se chamava Escola Superior era Escola. Foi no meu tempo que passou a chamar-se Escola Superior de Belas Artes. Portanto, onde se discutia tudo, se discutia política. E repara o mundo onde eu vinha dizia-se, e não se dizia a boca pequena, dizia se à boa grande: “Não te metas em política!” E ali não, naquele meio universitário das Belas Artes, das coisas que mais se discutiam era exactamente a política. E esse choque foi progressivo…

AA: Foi acontecendo à medida que ia criando as suas relações?

JV: Claro. No meu primeiro ano, agora calcula, um puto de 16 anos que se apanha à solta em Lisboa, autónomo durante todo dia, enfim, vim do colégio de padres onde passava lá todo o dia fechado, e alem disso só tinha relações de carácter familiar ou próximo, e que de repente me apanhei à solta em Lisboa…. Chumbei! Quando chegou à Páscoa suponho que, não me lembro bem, já que isto foi há tantos anos, mas tenho a impressão que por alturas da Páscoa já eu estava chumbado a todas por faltas (risos) se não era a todas, era quase a todas. E depois nunca mais chumbei. Mas aquele primeiro ano foi, esse ano de conhecer a vida nocturna. Já metia golpes em casa para sair à noite… E além disso o centro de Lisboa era exactamente onde era a Escola de Belas Artes, ali no Chiado, ao lado da (antiga) Biblioteca Nacional. Ali era o centro de Lisboa e logo pegado, era a boémia do Bairro Alto. O Bairro Alto era a boémia total de Lisboa, em todos os aspectos e para toda a gente. E foi neste mundo que eu de repente caí, num mundo efervescente. Por isso é que eu digo, extraordinário para mim, não é magnífico é extraordinário, porque era um mundo novo! Um mundo para mim completamente desconhecido.

AA: Mas além desta descoberta e deste mundo novo, depois havia também a opressão e condicionamento?

JV: Claro.

AA: Como é que funcionava um local como as universidades que hoje vemos como um espaço aberto e livre e de grande discussão, mas como era nesse período?

JV: Tudo isto era à boca pequena, em segredo e em pequenos grupos. Porque evidentemente que havia (opressão)… embora o meu curso fosse muito pequeno, o meu primeiro ano eram para aí 35/36 já contando com os repetentes. Porque o primeiro ano era difícil de passar por causa da geometria descritiva, que era muitíssimo exigente, era a geometria descritiva mais difícil de todas as universidades de Lisboa, era a de Belas Artes. O meu irmão Luís que era um ano mais novo que eu, que frequentou o técnico. Na Descritiva 2, ele não resolvia os problemas do primeiro ano, do primeiro trimestre de Belas Artes… era extremamente exigente. E por isso chumbava- -se muito. E ainda para cima, o primeiro ano era conjunto às três disciplinas de Belas Artes: Arquitectura, Pintura e Escultura. Não havia mais nenhuma, não havia cá gravura, nem nada disso…. Eram só estas três e o primeiro ano era comum, de forma que ali conheci muita gente e fiquei muito amigo desses conhecidos, embora de áreas diferentes: o escultor Jorge Vieira, por exemplo fiquei muito, muito amigo dele, éramos mesmo muito amigos ele já morreu ele era um bocadinho mais velho. O António Sena da Silva, o Fernando Torres, o Mário Bruxelas, o Maurício Vasconcelos, todos esses nomes… o Rui Paula! E além disso, conheci melhor, porque já a conhecia aqui de Portimão, a Margarida Tengarrinha e o Dias Coelho, eram desse primeiro ano. Embora eles, a Margarida estivesse em Pintura e o Dias Coelho estivesse em Escultura, era tudo junto, eu era o mais novo do curso, claro era o único aluno que tinha entrado com 16 anos. E, portanto, tudo isso me deu entrada num mundo completamente diferente, e começar a perceber o mundo. Mas essa opressão era de tal ordem que, tenho a impressão que não foi logo no primeiro ano, mas no meu segundo ano. Segundo ano na escola, primeiro ano do curso de facto, que o outro nada foi primeiro ano não foi nada foi coboiada desnorteada todo o tempo. Houve um movimento na escola para formação de uma Associação de Estudantes. Sim, senhor. E eu fui um dos 80 que assinaram, que assinou o requerimento ao ministro para se fazer. E era tão opressivo, essa vida extracurricular, que para formar uma Associação de Estudantes era preciso pedir licença ao ministro. Que não deu licença, não só não deu licença como a P.I.D.E. foi fazer interrogatório aos que tinham subscrito o requerimento, que éramos cerca de 80. Esse 80, ficou me esse número na cabeça. E há tempos falando com a Margarida Tengarrinha, que ficamos muito amigos também, acho que ela também me citou isso, que éramos cerca de 80. Mas que fomos todos interrogados pela P.I.D.E., um por um. Numa sala sozinhos, sim senhora, só com uma secretária e um senhor atrás, e que resultou em expulsões, em gente que teve que mudar para a escola do Porto, gente que já não conseguiu acabar o curso. Isto foi aí a meio do ano, já não me lembro quando, mas houve expulsões, houve quem não conseguisse acabar…

AA: Houve várias represálias…

JV: Mas duríssimas! Duríssimas! Depois, não me lembro quando foi a morte do Bento Jesus Caraça, que era daqueles nomes que a Universidade conhecia e respeitava muito, falava-se do mestre, sábio. Era o mestre porque era o homem que tinha lançado a Biblioteca Cosmos… Que foi a brutal e violentíssima pressão à cacetada de toda a maneira no funeral do Bento Jesus Caraça e aí eu fui lá. Toda a gente: “epá temos que ir ao funeral do Bento Jesus Caraça”, do sábio. Embora já tivesse sido expulso da Faculdade de Ciências onde ele tinha sido professor, mas, no entanto, era um nome respeitadíssimo em Lisboa nos meios universitários. E no funeral houve carga policial à bruta e indiscriminada. Foi a minha primeira, foi logo essa. Portanto em paralelo com toda essa discussão que havia sobre a democracia, sobre as novas tendências da arquitectura, sobre as novas experiências que se estavam a fazer pelo mundo todo, da arquitectura racionalista, do modernismo e tudo isso. Todas essas discussões da Carta de Atenas, e isso, que algumas já vinham de antes da Guerra, em paralelo com isso havia essa repressão terrível, de ter de ser interrogado. Eu fui interrogado pela PIDE, ali aos 17 anos, percebes, estás a ver.

AA: Pouco tempo depois de ter saído desta zona em que estava mais ou menos protegido, depois tem um ano em que se abre ao mundo e de repente esta experiência de interrogatório. Foram uns anos para si de grande intensidade.

JV: Que estava tudo protegidíssimo, de grandes perturbações e de perceber… De uma intensidade, porque as discussões com esses nomes que ainda agora te citei, que eram do meu primeiro ano do curso, imaginas, o interesse que havia era permanente. Por exemplo, eu recordo-me de me ter admirado que um dos alunos de arquitectura, chamava-se Cardoso, nunca soube do que foi feito dele, nunca mais soube. E durante muito tempo, não percebi porque é que o Cardoso não fazia parte dos grupos a quem eu comecei a estar mais ligado e de muitas dessas discussões e dessas conversas, havia assim um ambiente, umas reticências…. É que ele era irmão de um grande inspector da P.I.D.E. Depois é que soube disso. Mais tarde ainda no curso, é que vim a saber que ele era, pensava e actuava como o irmão. Portanto foi nesta mescla toda e com esta misturada toda, de todos os aspectos sociais, económico. Havia no curso, muitos alunos, colegas meus como o Justino de Morais, por exemplo, que eu fiquei muito amigo e que veio a ser mais tarde presidente da Ordem dos Arquitectos. Portanto o Justino era do grupo, a que eu não podia pertencer, que eram os alunos vindos da Escola António Arroio, que era uma escola de artes e ofícios que eu suponho que ainda existe, mas com outro nome. A que tinham acesso um sector economicamente com maiores limitações e mais baixo, em resumo. E, portanto, comecei a ver que haviam essa diferenças, e esse mundo todo foi uma revelação do que era de facto uma sociedade urbana e tudo isso.

AA: E na altura havia a percepção da diferença entre a forma como se ensinava arquitectura em Lisboa e no Porto?

JV: Sim. Invejava-se o Porto. Porque em Lisboa não se ensinava arquitectura, preparavam-se arquitectos para fazer uma grande obra. (risos) Aliás isso hoje também já renasceu, essa visão da arquitectura. Principalmente depois com a passagem da Associação a Ordem, nessa altura nem sequer havia associação era o sindicato, obrigatoriamente o Sindicato Nacional dos Arquitectos, e depois é que foi a Associação, mas a Associação só foi depois do 25 de Abril. Até lá era o Sindicato.

AA: Havia essa diferença, mas existia alguma troca de informação às vezes de algum colega?

JV: Não, não era um grande isolamento.

AA: Então havia apenas a ideia que a forma de ensinar era claramente diferente?

JV: Era e havia essa informação, de que no Porto é que era bom! A informação geral, a sensação geral era “No Porto é que é bom”. “A Escola do Porto é que é boa e isto é uma merda”.

Bibliografia de interesse:

Nuno Arenga (2018) - Um Edifício Singular: José Veloso, LUZTUR 1970-1978. ISMAT (2019) – José Veloso: A arquitetura, uma causa. José Veloso - (2009) – Houve Fascismo em Portugal: testemunhos de um cidadão.