À conversa com o arquitecto José Veloso

Até à edição de 01 de Outubro deste ano, em que assinalaremos o 26ª aniversário da nossa revista Nova Costa de Oiro, iremos publicar em exclusivo a trasncrição de uma entrevista da autoria de Armando Amaro, Mestre em Arquitectura e Licenciado em Cultura Arquitectónica, pela Universidade de Évora, ao cidadão e arquitecto lacobrigense José Veloso.

Não é apenas pela nossa relação de longa amizade e de camaradagem que nos ligam que este trabalho virá às nossas páginas. É, acima de tudo, porque considero essencial que este e outros nossos concidadãos, as suas vidas e o seu trabalho fiquem e sejam perpetuados no tempo, que não se percam na espuma da nossa memória colectiva. É por isto e o muito mais que é «isto», que é a nossa vida.

Carlos Mesquita

José Paulo Velho Geraldo de Albuquerque Veloso nasceu na freguesia de Santa Maria, Lagos, a 09 de Junho de 1930. Licenciou-se em Arquitectura pela Escola Superior de Belas Artes de Lisboa e passou a exercer a sua profissão em Lagos, onde abriu o seu próprio «atelier».

Em 1969, participou activamente no Movimento CDE (Centro Democrático Eleitoral). Foi candidato da CDE, por Faro, à Assembleia Nacional e, em 1975, foi candidato à Assembleia Constituinte, pelo MDP-CDE. Foi candidato do PCP, em diversas eleições para a Assembleia da República, pelo círculo de Faro.

Entre 1974 e 1976, trabalhou para o Fundo de Fomento da Habitação, como coordenador de equipas de projecto do Serviço de Apoio Ambulatório Local (SAAL), com projectos construídos em diversos concelhos algarvios, entre os quais o bairro que é conhecido como o dos «Índios da Meia Praia».

Armando Amaro: O arquitecto nasceu em 1930, quais são as suas primeiras memórias da vivência na cidade de Lagos?

José Veloso: A minha infância e juventude, foi passada em Lagos, até aos 10 anos de idade. Feita a instrução primária, em Lagos, numa escola particular porque a minha família pertencia aqui ao escalão… A sociedade de Lagos, estava escalonada, e esse escalonamento, traduzia-se depois nas associações. De tal maneira, que havia grupos de associações, esse escalonamento era de carácter social e, portanto, o seu reflexo em termos económicos. E a minha família pertencia ao escalão mais alto, que eram aqueles que eram associados então à Sociedade Filarmónica Lacobrigense, que já não tinha filarmónica nenhuma, terá tido na origem. E que, sem nada de depreciativo, nem de valorização de qualquer espécie era conhecido pela alcunha, era “O Ricos”, ninguém conhecia já o nome, era “O Ricos”, pronto. E a seguir, se vamos escalonar, a seguir havia o Grémio. O Grémio, que já representava o sector do comércio abastado ou então proprietários rurais, mas abastados. Depois havia Os Artistas, mas que tinha o significado de mestres, e que eram os mestres pedreiros, os mestres serralheiros, os mestres do mar, enfim, professores ao nível de auxiliares, porque os professores estavam n’O Ricos, na maioria. E depois a seguir, O Metalúrgico, que era a Sociedade Metalúrgico que era os operários. E ao lado, paralelamente, havia, O Marítimo que era, portanto, os homens do mar. Aqui em Lagos não se chamava os pescadores, chamava-se os homens do mar, para se distinguir, porque o sector rural era os homens do campo. Isto era na linguagem corrente, nos termos coloquiais. E tudo isto estava fixado, e esta estratificação repetia-se em tudo, em todas as manifestações da cidade, a não ser as religiosas. E mesmo essas tinham lugares especiais nas primeiras filas da igreja, porque havia grandes diferenças nas duas freguesias da cidade, a freguesia de S. Sebastião e Sta. Maria. Sta. Maria era das classes dominantes que moravam ali na sua maioria. Tudo isto estava fixado e não bulia, esta sociedade estava imóvel no tempo e no espaço, completamente. O sector dominante, esse dividia-se entre os industriais e os proprietários rurais mais abastados, onde estava a minha família. Por isso fiz a instrução primária na escola do Sr. Professor Taquelim, que hoje tem o nome numa rua, que era muito considerado porque os seus alunos eram sempre classificados e eram considerados, e era de facto, um privilégio. Que resultava, nas notícias que chegavam dos alunos, do professor Taquelim, eram sempre alunos que se distinguiam depois no liceu. Fosse no liceu em Faro, fosse no liceu em Lisboa. E agora, entram aqui algumas questões, é bom referir, que nessa época, eu estou a falar da década de 30, que foi a década da minha instrução primaria só em 40 é que fui para Lisboa, com a família, a família mudou-se toda para Lisboa. Onde a família alugou lá um andar e lá vivemos até o meu pai falecer, já nos anos 50, exactamente em 53 estava eu já na tropa. E então a propósito de uma questão que é quente em Lagos, nunca, não tenho memória nenhuma de alguma vez ouvi dizer que aquele edifício era mercado dos escravos, aquele edifício era conhecido como “A Principal” a referência que havia na cidade de Lagos, para toda a gente, não era só alguns sectores, era para toda a gente era “A Principal”. E essa “A Principal” o que era, não faço ideia porque talvez algum investigador consiga saber, era o nome que era dado à polícia municipal. Que nesses tempos da monarquia havia, havia a polícia municipal que tinha ali o quartel, e era conhecida como a principal, e eu nunca consegui perceber que ligação havia entres essa função de polícia municipal e que justificasse o título “A Principal”.

AA: Nos anos 30, começa-se a desenhar a Avenida da Guiné e gostaria de lhe perguntar se tem memória e se assistiu a esse processo da construção da avenida?

JV: Sim, sim. Lembro-me perfeitamente da inauguração, mas perfeitamente, quem fez a alocução da inauguração foi o Coronel Rato. Nessa altura ainda não era coronel, suponho eu… Ele era avô do Eduardo Zúquete, do engenheiro… Tenho ideia de que ele nessa altura já estava inválido, a certa altura ele terá tido, não sei, se um enfarte, se uma comoção cerebral, um AVC qualquer, ou coisa do género não sei o que foi, que ele ficou paralítico das pernas e das mãos. Fazia me uma impressão a mim que era garoto, apertar-lhe a mão porque era uma mão quase morta, que ele não fazia quase força com a mão. E eu lembro-me perfeitamente dele falar, e tenho impressão que já nessas condições. A imagem que eu tenho, embora eu posso confundir com a imagem mais geral dele como inválido, mas enfim, de toda a forma foi ele que fez a alocução, lembro--me perfeitamente disso, armaram um palanco, aquilo tudo enfim. Lembro-me perfeitamente da Avenida da Guiné, e lembro-me da construção.

AA: Mudou-se para Lisboa com idade para frequentar o liceu, como foi essa mudança?

JV: Aos 10 anos de idade fui para Lisboa, para um colégio particular, outra vez. Eu não fui para o Liceu…

AA: Era então o equivalente ao liceu?

JV: Sim, sim, mas era em colégio particular. Andei em dois, primeiro no Colégio Infante Sagres, que era considerado o melhor colégio de Lisboa e depois no Colégio Manuel Bernardes que era da viúva do João de Deus.

AA: Queria perguntar-lhe como foi esta mudança, porque quando estava em Lagos estava habituado a estar junto ao mar e da praia e se calhar sentiu diferença de ir viver para Lisboa.

JV: É claro que o ir viver para Lisboa, foi sempre uma grande promoção. Porque repara bem, Lagos estava completamente isolada. Eu não me lembro em rapazinho de ir a Faro, Faro era longíssimo, não se ia a Faro, ninguém ia fazer nada a Faro. Não havia ligação nenhuma com Faro, e com Portimão que era a cidade mais próxima, havia uma rivalidade terrível. Eram insultos permanentes, que depois se reflectiram no futebol. Aquele jogo entre o Esperança de Lagos e o Glória ou Morte, suponho que era como se chamava o de Portimão, aquilo dava sempre pancada, sempre. Ou então com Silves, também havia essa grande rivalidade com Lagos, que tinha sido a capital do Algarve, mas tinha perdido esse título de nobreza com o terramoto (1755), e as pessoas de Lagos nunca perdoaram. Então não podiam ver, Portimão que era uma cidade cheia de energia e de gente nova, inovações e tudo aquilo. E que aparece muito bem reflectido no livro da Maria João, das elites conserveiras. Mas aqui em Lagos nunca se perdoou, e chamavam os carecas de Portimão e os de Silves eram… já não me lembro, mas havia essa rivalidade.

AA: Então havia essa diferença entre esse isolamento que existia aqui, essas rivalidades e, se calhar, uma mentalidade mais aberta em Lisboa…

JV: Era uma mentalidade completamente diferente. Mas Lagos, aliás, não era só Lagos, o Algarve estava tão isolado no país que em Lisboa, eu lembro-me disto perfeitamente, no meu primeiro ano do colégio que foi no Infante Sagres, perguntarem onde é que fica o Algarve. “Tu és do Algarve? Onde é que é o Algarve?”. Em Lisboa, miúdos, garotos, com 10,11 anos de idade, tinham essa ideia do Algarve como uma coisa longínqua. Ainda heranças com certeza do Reino do Algarve.

AA: A ideia do Reino do Algarve uma coisa diferente e separada do resto do pais…

JV: Completamente separada. O isolamento do Algarve era de tal maneira que a melhor estrada que havia para ir era a estrada por Aljezur. Entre Odeceixe e o Cercal, portanto 60km, eram em terra batida, nem sequer mau asfalto, era terra batida, com pedras e buracos. Havia uma carreira diária de Lagos para Lisboa, mas que só ia quem não tinha mais nenhuma alternativa.

AA: Então as pessoas iam mais de comboio?

JV: Iam de comboio que eram 8 horas à tabela! Era o dia todo, ou a noite toda. Eram dois comboios por dia um de dia e um de noite. O de noite era chamado o comboio correio, que levava as mercadorias e levava o correio, e que ia pelo Vale do Sado. E o do dia que ia por Beja, que era chamado o rápido, que levava as mesmas 8 horas e que nunca cumpria as horas, nunca.

AA: Curioso… E nessa altura já não havia as ligações de barco a Lisboa? Porque antes de você nascer era o mais usual.

JV: Já não, já não. Havia memória, mas não.

AA: Havia pouca comunicação…

JV: Havia muito pouca. Durante a guerra foram buscar outra vez a diligência para Sagres. Há uma fotografia até que diz lá “Lagos-Sagres”, que era uma diligência que foi do Abel Luís, que era de Sagres. Tinha lá uma pensão, a Pensão Luís. Que depois foi o primeiro concessionário da primeira carreira de camionetas de Lagos para Sagres. Repara que eu fui à inauguração da primeira estrada pavimentada / alcatroada da Vila do Bispo para Sagres. Tinha para ali 9 anos ou coisa do género já não me lembro.

AA: As ligações viárias demoraram imenso tempo a serem concretizadas, com alguma qualidade…

JV: Eram péssimas! E agravadas pela Guerra…

AA: A instabilidade governativa no século XX também contribui para isso: Monarquia, República, Ditadura Militar e Estado Novo…

JV: Claro, mas uma coisa se manteve sempre: o isolamento! AA: E acha que esse isolamento era marcado também na visão e mentalidade das pessoas? JV: Claro que era. Repara bem, em Lagos eu era um dos dois assinantes do Jornal Diário. Vinham dois Jornais Diários para Lagos, desses que era na República. Por exemplos os vespertinos, não vinham para Lagos. Como havia os matutinos em Lisboa, Diário de Notícias e O Século, e no Porto, o Primeiro de Janeiro e o Jornal de Notícias. Os matutinos não vinham a Lagos. O Jornal de Notícias chegava com um dia de atraso, mas em 1950 ainda chegava com um dia de atraso…

AA: Já em Lisboa matriculou-se na Escola de Belas Artes em 1946/1947, o que o levou a escolher o curso de Arquitectura?

JV: Aos 16 anos, acabei o Liceu… Tinha completa falta de informação sobre o curso, mas tinha uma grande vontade de fazer casas, e pronto. Foi só assim. Sem mais informação nenhuma, nenhuma, nenhuma. Não tinha nenhuma informação do que era ser arquitecto a não ser que podia ir fazer casas. Desenhar e fazer casas. E foi isso que motivou um rapazito de 16 anos.

AA: E como era o ambiente universitário que encontrou nesse período na Escola de Belas Artes?

JV: Era um ambiente magnífico! Magnífico e ao mesmo tempo opressivo, também. Foi magnífico para mim porque, repara, eu vinha de um colégio de padres… A bagagem que eu carregava era primeiro Lagos, completamente isolado onde nada acontecia, perturbação nenhuma acontecia. E depois o Liceu foi num colégio de padres, onde a pressão religiosa era muito grande, era um padre o Director, onde eu tive algum tempo interno. Primeiro tinha estado interno no Infante Sagres e depois já fomos como semi-internos, portanto era o dia todo até ao fim da tarde, lá para as 6 ou 7 horas é que chegava a casa, portanto eu não tinha tido contacto fora da família. Nenhum contacto, nada, nada. Era a família de Lagos e familiares que moravam ou trabalhavam em Lisboa, havia bastantes e essas eram as relações que eu tinha. Portanto não sofria influência mais nenhuma, a não ser, estas que acabei de dizer: a cidade isolada e imóvel e da pressão religiosa. De forma que para mim aquilo foi um mundo completamente novo, um mundo onde se falava, onde se discutia. E ainda para cima em Belas Artes, que era conhecida nessa época das universidades mais rebeldes, onde se discutia. AA: Havia essa efervescência da altura? JV: E além disso era o final da (II) Guerra (Mundial). Não esquecer que estamos em 46 e a Guerra tinha acabado em 45. Praticamente tinha acabado a guerra. Portanto na universidade, os jovens universitários já discutiam aquilo que era proibido discutir. E aí fui começando a perceber que o mundo não era, como aquele mundo que eu conhecia… sem problemas nenhuns, tudo doce, tudo sem perturbações, que era a formação que eu tinha. E de repente desabei no final daquela coisa terrível que foi a guerra… E no meio estudantil onde se discutia tudo, não se discutia só as questões propriamente do curso ou da escola, nessa altura nem se chamava Escola Superior era Escola. Foi no meu tempo que passou a chamar-se Escola Superior de Belas Artes. Portanto, onde se discutia tudo, se discutia política. E repara o mundo onde eu vinha dizia-se, e não se dizia a boca pequena, dizia se à boa grande: “Não te metas em política!” E ali não, naquele meio universitário das Belas Artes, das coisas que mais se discutiam era exactamente a política. E esse choque foi progressivo…

AA: Foi acontecendo à medida que ia criando as suas relações?

JV: Claro. No meu primeiro ano, agora calcula, um puto de 16 anos que se apanha à solta em Lisboa, autónomo durante todo dia, enfim, vim do colégio de padres onde passava lá todo o dia fechado, e alem disso só tinha relações de carácter familiar ou próximo, e que de repente me apanhei à solta em Lisboa…. Chumbei! Quando chegou à Páscoa suponho que, não me lembro bem, já que isto foi há tantos anos, mas tenho a impressão que por alturas da Páscoa já eu estava chumbado a todas por faltas (risos) se não era a todas, era quase a todas. E depois nunca mais chumbei. Mas aquele primeiro ano foi, esse ano de conhecer a vida nocturna. Já metia golpes em casa para sair à noite… E além disso o centro de Lisboa era exactamente onde era a Escola de Belas Artes, ali no Chiado, ao lado da (antiga) Biblioteca Nacional. Ali era o centro de Lisboa e logo pegado, era a boémia do Bairro Alto. O Bairro Alto era a boémia total de Lisboa, em todos os aspectos e para toda a gente. E foi neste mundo que eu de repente caí, num mundo efervescente. Por isso é que eu digo, extraordinário para mim, não é magnífico é extraordinário, porque era um mundo novo! Um mundo para mim completamente desconhecido.

AA: Mas além desta descoberta e deste mundo novo, depois havia também a opressão e condicionamento?

JV: Claro.

AA: Como é que funcionava um local como as universidades que hoje vemos como um espaço aberto e livre e de grande discussão, mas como era nesse período?

JV: Tudo isto era à boca pequena, em segredo e em pequenos grupos. Porque evidentemente que havia (opressão)… embora o meu curso fosse muito pequeno, o meu primeiro ano eram para aí 35/36 já contando com os repetentes. Porque o primeiro ano era difícil de passar por causa da geometria descritiva, que era muitíssimo exigente, era a geometria descritiva mais difícil de todas as universidades de Lisboa, era a de Belas Artes. O meu irmão Luís que era um ano mais novo que eu, que frequentou o técnico. Na Descritiva 2, ele não resolvia os problemas do primeiro ano, do primeiro trimestre de Belas Artes… era extremamente exigente. E por isso chumbava- -se muito. E ainda para cima, o primeiro ano era conjunto às três disciplinas de Belas Artes: Arquitectura, Pintura e Escultura. Não havia mais nenhuma, não havia cá gravura, nem nada disso…. Eram só estas três e o primeiro ano era comum, de forma que ali conheci muita gente e fiquei muito amigo desses conhecidos, embora de áreas diferentes: o escultor Jorge Vieira, por exemplo fiquei muito, muito amigo dele, éramos mesmo muito amigos ele já morreu ele era um bocadinho mais velho. O António Sena da Silva, o Fernando Torres, o Mário Bruxelas, o Maurício Vasconcelos, todos esses nomes… o Rui Paula! E além disso, conheci melhor, porque já a conhecia aqui de Portimão, a Margarida Tengarrinha e o Dias Coelho, eram desse primeiro ano. Embora eles, a Margarida estivesse em Pintura e o Dias Coelho estivesse em Escultura, era tudo junto, eu era o mais novo do curso, claro era o único aluno que tinha entrado com 16 anos. E, portanto, tudo isso me deu entrada num mundo completamente diferente, e começar a perceber o mundo. Mas essa opressão era de tal ordem que, tenho a impressão que não foi logo no primeiro ano, mas no meu segundo ano. Segundo ano na escola, primeiro ano do curso de facto, que o outro nada foi primeiro ano não foi nada foi coboiada desnorteada todo o tempo. Houve um movimento na escola para formação de uma Associação de Estudantes. Sim, senhor. E eu fui um dos 80 que assinaram, que assinou o requerimento ao ministro para se fazer. E era tão opressivo, essa vida extracurricular, que para formar uma Associação de Estudantes era preciso pedir licença ao ministro. Que não deu licença, não só não deu licença como a P.I.D.E. foi fazer interrogatório aos que tinham subscrito o requerimento, que éramos cerca de 80. Esse 80, ficou me esse número na cabeça. E há tempos falando com a Margarida Tengarrinha, que ficamos muito amigos também, acho que ela também me citou isso, que éramos cerca de 80. Mas que fomos todos interrogados pela P.I.D.E., um por um. Numa sala sozinhos, sim senhora, só com uma secretária e um senhor atrás, e que resultou em expulsões, em gente que teve que mudar para a escola do Porto, gente que já não conseguiu acabar o curso. Isto foi aí a meio do ano, já não me lembro quando, mas houve expulsões, houve quem não conseguisse acabar…

AA: Houve várias represálias…

JV: Mas duríssimas! Duríssimas! Depois, não me lembro quando foi a morte do Bento Jesus Caraça, que era daqueles nomes que a Universidade conhecia e respeitava muito, falava-se do mestre, sábio. Era o mestre porque era o homem que tinha lançado a Biblioteca Cosmos… Que foi a brutal e violentíssima pressão à cacetada de toda a maneira no funeral do Bento Jesus Caraça e aí eu fui lá. Toda a gente: “epá temos que ir ao funeral do Bento Jesus Caraça”, do sábio. Embora já tivesse sido expulso da Faculdade de Ciências onde ele tinha sido professor, mas, no entanto, era um nome respeitadíssimo em Lisboa nos meios universitários. E no funeral houve carga policial à bruta e indiscriminada. Foi a minha primeira, foi logo essa. Portanto em paralelo com toda essa discussão que havia sobre a democracia, sobre as novas tendências da arquitectura, sobre as novas experiências que se estavam a fazer pelo mundo todo, da arquitectura racionalista, do modernismo e tudo isso. Todas essas discussões da Carta de Atenas, e isso, que algumas já vinham de antes da Guerra, em paralelo com isso havia essa repressão terrível, de ter de ser interrogado. Eu fui interrogado pela PIDE, ali aos 17 anos, percebes, estás a ver.

AA: Pouco tempo depois de ter saído desta zona em que estava mais ou menos protegido, depois tem um ano em que se abre ao mundo e de repente esta experiência de interrogatório. Foram uns anos para si de grande intensidade.

JV: Que estava tudo protegidíssimo, de grandes perturbações e de perceber… De uma intensidade, porque as discussões com esses nomes que ainda agora te citei, que eram do meu primeiro ano do curso, imaginas, o interesse que havia era permanente. Por exemplo, eu recordo-me de me ter admirado que um dos alunos de arquitectura, chamava-se Cardoso, nunca soube do que foi feito dele, nunca mais soube. E durante muito tempo, não percebi porque é que o Cardoso não fazia parte dos grupos a quem eu comecei a estar mais ligado e de muitas dessas discussões e dessas conversas, havia assim um ambiente, umas reticências…. É que ele era irmão de um grande inspector da P.I.D.E. Depois é que soube disso. Mais tarde ainda no curso, é que vim a saber que ele era, pensava e actuava como o irmão. Portanto foi nesta mescla toda e com esta misturada toda, de todos os aspectos sociais, económico. Havia no curso, muitos alunos, colegas meus como o Justino de Morais, por exemplo, que eu fiquei muito amigo e que veio a ser mais tarde presidente da Ordem dos Arquitectos. Portanto o Justino era do grupo, a que eu não podia pertencer, que eram os alunos vindos da Escola António Arroio, que era uma escola de artes e ofícios que eu suponho que ainda existe, mas com outro nome. A que tinham acesso um sector economicamente com maiores limitações e mais baixo, em resumo. E, portanto, comecei a ver que haviam essa diferenças, e esse mundo todo foi uma revelação do que era de facto uma sociedade urbana e tudo isso.

AA: E na altura havia a percepção da diferença entre a forma como se ensinava arquitectura em Lisboa e no Porto?

JV: Sim. Invejava-se o Porto. Porque em Lisboa não se ensinava arquitectura, preparavam-se arquitectos para fazer uma grande obra. (risos) Aliás isso hoje também já renasceu, essa visão da arquitectura. Principalmente depois com a passagem da Associação a Ordem, nessa altura nem sequer havia associação era o sindicato, obrigatoriamente o Sindicato Nacional dos Arquitectos, e depois é que foi a Associação, mas a Associação só foi depois do 25 de Abril. Até lá era o Sindicato.

AA: Havia essa diferença, mas existia alguma troca de informação às vezes de algum colega?

JV: Não, não era um grande isolamento.

AA: Então havia apenas a ideia que a forma de ensinar era claramente diferente?

JV: Era e havia essa informação, de que no Porto é que era bom! A informação geral, a sensação geral era “No Porto é que é bom”. “A Escola do Porto é que é boa e isto é uma merda”.

Bibliografia de interesse:

Nuno Arenga (2018) - Um Edifício Singular: José Veloso, LUZTUR 1970-1978. ISMAT (2019) – José Veloso: A arquitetura, uma causa. José Veloso - (2009) – Houve Fascismo em Portugal: testemunhos de um cidadão.

Com Manuel Vicente, Reaes Pinto, Pitum Keil (casamento de Zé Pacheco)

O «Belaluísa», com aparelho e arranjos da autoria de José Veloso

AA: Na altura quais eram as referências entre os alunos ou na escola de arquitectura?

JV: Em Lisboa havia bons arquitectos, mas que se tinham formado por si próprios.

AA: Que se tornavam referências da escola ou dos alunos, que queriam ver coisas diferentes?

JV: Não, não. Eles é que criavam os próprios nomes e nós na escola o que fazíamos era visitar os ateliês desses arquitectos: do Keil do Amaral, de quem eu fiquei amigo e do filho também embora mais novo; do Cassiano Branco; Pardal Monteiro… Onde muitas vezes se trabalhava até aprender. E mesmo eu arranjei trabalho, trabalhei dois anos no atelier do arquitecto Paulo Cunha.

AA: Fazia-se isso em paralelo, esse trabalho de atelier, de aprendizagem e o da escola?

JV: Não se ligava nada ao da escola! Ninguém ligava ao da escola (risos)

AA: O da escola era só para cumprir?

JV: Era só para cumprir calendário.

AA: Porque ali é que se respirava arquitectura?

JV: Ali é que se discutia, ali é que se conversava, ali é que se percebia o que era fazer pormenores, o que era os problemas de um arquitecto, os problemas com os clientes… E nessa altura havia um hábito, que era o ministro que promovia o concurso ou que abria convites para trabalhos de grande montra como o aeroporto e outros assim, de visitar os ateliês dos arquitectos que estavam a trabalhar nisso. Até conto uma parte do descarado que era o Keil do Amaral, era um tipo que tinha muita piada e prestígio fora da escola. O nome do Keil do Amaral, como arquitecto, era muito prestigiado, muito mesmo, até entre as gentes do regime do Estado Novo. E, portanto, ele permitia-se, tinha um humor, um descaramento e muita, muita piada. E então permitia-se a coisas que mais ninguém se podia permitir. Foi ele que fez o projecto do primeiro aeroporto de Lisboa, que era uma coisinha pequenina, ele dizia-me que a sede não era no aeroporto, era nos restauradores, em Lisboa, lá é que havia um escritório. Às quartas-feiras aterrava um avião no aeroporto, e então (os funcionários) metiam-se num táxi e iam abrir o aeroporto (risos). Isso foi quando começou, mas quando ele estava a fazer o projecto, uma vez veio o Ministro das Obras Públicas. Veio visitar, saber o andamento, e então além de todas as explicações que o Keil lhe deu, já se discutia a maquete… E então havia no projecto, e isso existiu construído uma data de anos, havia uma grande varanda sobre a plataforma de estacionamento dos aviões, não havia cá mangas não havia nada, os aviões iam ali e as pessoas iam a pé, nem autocarros nem nada, saiam a pé do avião e iam a pé para o avião. E o ministro terá perguntado “ó arquitecto, mas então” - isto contado por ele, eu não assisti - “para quê esta varanda assim tão grande aqui?” E o Keil terá respondido “Sr. Ministro isso é para as pessoas atirarem amendoins aos aviões” – risos- que estavam sobre a plataforma de estacionamento. Mas enfim, isto para veres o que era o Keil, era um homem notável de facto e que foi presidente do sindicato (dos arquitectos).

AA: E nessa altura havia a ideia de querer romper com as ideias da casa portuguesa, do português suave…

JV: Sim!!

AA: … E ir beber ao movimento moderno…

JV: À Bauhaus! A Bauhaus era a grande referência, a enorme referência. E era a Carta de Atenas, do Corbusier. Essas eram as grandes referências que chegavam até nós, pelas revistas e não pela escola, porque na escola o professor de arquitectura era o (Luís) Cristino da Silva, que era o homem que foi o criador do Português Suave, mas antes disso tinha feito dois belíssimos exemplos de arquitectura moderna que era o (Cineteatro) Capitólio e o Liceu de Beja (Liceu Nacional de Diogo de Gouveia). Eu lembro-me em Lagos, ainda de se falar do Liceu de Beja, que parece impossível um liceu com janelas daquele tamanho, enormes ...percebes... pronto. Mas o Cristino da Silva, além disso era um homem que tinha tirado o curso a partir da quarta classe só, não tinha feito o liceu e não sei se tinha andado na António Arroio, isso é que eu já não me lembro, que eu não sei. Mas lembro-me que diziam que as habilitações dele eram a instrução primária. E era um homem muito dotado, era de facto um tipo muito dotado, mas que era malcriadíssimo. Que gritava e nas aulas quando via os trabalhos, gritava e tudo, e berrava “imita Cassiano Branco na aula”, era assim um homenzarrão grande. E, portanto, ele não tinha simpatias nenhumas entre os alunos, nenhumas. E ainda para cima, ele dava preferência aos alunos que fossem muito cumpridores. Eu fazia parte de um grupo que se estava nas tintas, e sistematicamente, fazíamos os trabalhos da escola fora da escola. E depois contrabandeava-se lá para dentro, os rolos com os desenhos, que era desenhado logo em papel, a tinta e tal. E havia nomes mesmo da escola do Porto, que eram muito respeitados já, o Viana de Lima, Horácio (Januário) Godinho, e começava-se a falar de alguns alunos muito dotados… Ah! E o Fernando Távora, o Celestino de Castro que acabamos por ficar muito próximos, amigos mesmo. E havia mais nomes, que eu agora não me lembro.

AA: Aqui uma pausa para lhe perguntar, penso que se enquadra aqui neste período, sobre como é que surge o seu amor pela prática de vela e o que levou à criação do Clube de Vela de Lagos?

JV: O amor pelo mar vem desde sempre. O clube foi fundado a 25 de Abril de 1950. Aqui havia um grande culto da natação, da vela não, mas eu sempre fui seduzido por essa ideia do andar à vela. E o primeiro barco que tive, tinha para aí 14 ou 15 anos, coisa assim do género, e aquilo não era barco não era nada. Era uma fingimenta que foi impingida, por alguém que não fazia ideia do que era um barco à vela, que era eu. Porque havia os centros de vela da Mocidade Portuguesa, mas não sei porquê eu só lá fui uma vez, matriculei-me me vários, esgrima, hipismo, ténis, vela, mas da vela só fui no primeiro dia e não gostei nada daquilo, aquela gente lá dos instrutores e daquilo. O meu irmão mais velho foi e ficou, mas eu não, eu não fiquei. E já não sei explicar, não gostei pronto. E vim-me embora. E então aqui o grande culto era da natação, a gente nadava muito, muito… Eu posso dizer que eu o único limite que eu tinha a nadar não era fadiga, era o frio. E começamos a fazer mergulho, e isso tudo, ainda com coisas improvisadas, com um arpão à mão. Mas sempre muito, muito ligado ao mar, ainda para cima a casa onde eu morei com os meus pais, até aos 10 anos de idade, uma casa que ainda existe de primeiro andar, era em frente ao Arco de S. Gonçalo, do lado de dentro. Eu saía de casa, atravessava a rua muito estreitinha, aquela rua até ao fundo do quartel, atravessava a rua, passava o Arco de S. Gonçalo e estava no meio dos barcos. De forma que a gente passava ali os tempos livres da miudagem, fins de semana, o Verão, ao fim do dia, isso tudo, passávamos ali misturados com os barcos e com aquilo tudo e sempre gostei muito de barcos. E já com uma grande apetência pelo andar à vela. E então arranjamos um grupo aqui de Lagos, que não éramos muitos, éramos para aí 6 ou 7. Do grupo familiar, amigos e conhecidos, o filho do Dr. Formosinho, um deles, o João Pimenta, o meu irmão João, o João Tello Pacheco, o Chico Albuquerque e eu, tudo família ou próximo da família. E arranjamos um Clube de Vela aqui em Lagos, pronto. Então conseguimos motivar, sujeitos já instalados na vida, para nos ajudar e a família também, “sim senhor”, “era bom”, “era bom”, “era bom” e organizamos o Clube de Vela de Lagos, que nós não podemos ir porque nenhum tinha já os 21 anos. A maioridade era aos 21 anos, era preciso ser maior, mas houve um grupo aqui de Lagos, um grupo alargado, não sei quantos eram, mas para aí 20 ou 30 ou coisa assim do género. Homens, claro, naquela época só homens. AA: Voltando ao seu percurso. Conclui o curso em 1953… JV: Em 53 e faço a tropa.

AA: E depois desse período volta a Lagos.

JV: Já casado. Casei logo estava desalvorado para casar, não quis ir para a Índia, nem quis ir para os Açores. Hesitei, hesitei, mas qual quê! Era uma velha amiga da juventude, que acabamos por decidir que estávamos era apaixonados, andávamos em toda a parte. A minha irmã quantas vezes me fala nisso, ela foi a minha companheira do famoso Baile das Belas Artes, que encheu o salão. Tenho uma fotografia disso, completamente cheio. Ela foi companheira e depois foi companheira toda a vida, dos barcos, ela era mais marinheira que eu. Até que um dia me disse “sabes que perdi o medo dos barcos”. Não quis ir para os Açores porque tive lá colocado pela tropa, podia ter ido para os Açores. Noutras condições tinha ido, mas eu queria era casar e mais nada.

AA: Depois então volta a Lagos e cria um pequeno atelier.

JV: Instalo-me em Lagos. Num canto de casa da minha mãe instalei um estirador, esse estirador depois desapareceu não sei como, tenho a impressão que foi o meu irmão que o vendeu. Enfim.

AA: O seu primeiro estirador para começar a sua actividade…

JV: Numa sala, numa dependência da casa da minha mãe. E depois eram finalistas de Belas Artes, o José Pacheco, que depois também foi arquitecto e que éramos amicíssimos também, o Eduardo Zúquete era finalista de Engenharia Civil, no Técnico, e ambos dotadíssimos. O José Pacheco, já morreu. Uma desgraça, morreu alcoolizado, foi uma pena. Um gajo que era considerado uma das grandes esperanças nacionais. Era de facto um gajo brilhantíssimo. E o Eduardo Zúquete a mesma coisa, um curso brilhantíssimo no Colégio Militar – porque o avô era tropa, o Coronel Rato – e depois também foi brilhante no Técnico, convidados para assistentes, e isso tudo, que não quiseram. Queriam era ir trabalhar para Lagos. E foi. Nessa altura, logo passado pouco tempo, isto foi em 55 que eu vim para Lagos, portanto em 56/57, começou-se a juntar aqui um grupo em Lagos. No primeiro ano ainda nas férias porque eles eram finalistas em Lisboa. Que era o Eduardo Zúquete, era o José Pacheco, era o João Cutileiro, que vinha de Londres, era o (José) Santa Bárbara. E depois logo em 57, veio também o Raúl Hestnes e o Jorge Silva, que eu não conhecia, o Zé Pacheco é que era lá, mais ou menos, do curso dele. E então montamos um atelier, ali na Rua da Porta de Portugal, numa dependência de uma casa, que era dos pais do Eduardo Zúquete. E que durou dois anos só, porque depois foi a guerra que mobilizou o Zé Pacheco e o Eduardo Zúquete, o Raúl consegui a bolsa da Gulbenkian e foi para os Estados Unidos.

AA: Antes de lhe perguntar sobre esse atelier. Durante o tempo que trabalhava no estirador, na dependência da casa da sua mãe, chega a dar aulas na Escola Industrial…

JV: Ah sim! Isso foi logo, fui logo convidado para dar aulas.

AA: Queria que me contasse essa experiência e queria-lhe perguntar se era comum. Já ouvi histórias parecidas aqui no Algarve. Como não tinham muito trabalho, começou a dar aulas para compensar o esforço de ter o atelier aberto?

JV: Sim. Foi pelas duas razões, porque eu gostava muito de dar aulas e dei-me muito bem com eles, moços magníficos, alguns deles os melhores do curso. Eu fui dar duas cadeiras: Técnica de Materiais e Desenho de Construção Civil. O Desenho de Construção Civil, que eles estavam habituados era desenhar um banco e uma cadeira e coisa assim do género. E eu pus os gajos a fazer descritiva, entraram de tal maneira. Foi só dois anos depois fui corrido. Uma situação completamente patusca, patusca hoje, naquela altura foi uma chatice do caraças. Chegaram a certa altura e perguntaram “Então professor, a gente não aprende mais nada?”

Projecto do atelier da Rua Porta de Portugal, na Praia da Luz

Com José Gomes Ferreira, Raul Hestnes, Zé Pacheco (1960 - Albarraque)

AA: Motivou-os também a quererem aprender mais.

JV: Sim, gajos interessadíssimos. Em fazer projecções e tenho a impressão que chegaram a fazer penetrações de sólidos e coisas dessas assim. Coisas muito simples, claro, elementares, dois rectângulos, um cubo e um paralelepípedo, ou coisa assim do género, e sombras. O que para mim foi óptimo. E, bom, a tal ponto que um deles, que mora actualmente em Lagos que quando se reformou era o fotógrafo mais qualificado da Gulbenkian, dos quadros da Gulbenkian. Que era mandado para fotografar o quadro, a escultura, ou o museu, um museu em Berlim e coisas assim desse nível. Outro foi professor até se reformar, foi professor na Escola Secundária de Ponta Delgada, nos Açores. Outro foi chefe de desenhadores de uma empresa metalúrgica. Eram gajos que depois eles próprios, andaram, andaram com essas bases que levaram dali. Simplesmente o que aconteceu foi que um dia eu ia entrar na escola e entrava-se pela secretaria da escola, e lá o chefe da secretaria, que era um coirão de todo o tamanho, o Sr. Sebastião Murtinheira. Que era da Legião Portuguesa e coisa assim. “Professor tá aqui um papel para o senhor assinar” e eu digo “tá bem pronto, o que é Sr. Murtinheira?” E ele põe-me um papel na frente, todo cheio de assinaturas, tudo, tudo, tudo, tudo cheio de assinaturas. “Só falta o professor assinar, os outros professores já assinaram todos” E eu digo “tá bem. o que é?” E eu vejo Legião Portuguesa, Curso de Defesa Civil do Território. E eu digo “O que é isto? Oh Sr. Murtinheira isto é obrigatório?”, “Não, não. Não é obrigatório, mas os professores já assinaram todos. Só falta o professor assinar.” E eu digo, “Não. Então se não é obrigatório, não assino. Não estou nada interessado no Curso de Defesa Civil do Território.”, “O senhor é que sabe, o senhor é que sabe”. Ele era da Legião Portuguesa. “Então eu não assino, não senhor.” E não assinei. Aquilo seguiu, e depois o director, que era meu primo e pintor, com muito interesse um impressionista com muita, muita qualidade. Primo direito da minha mãe. Lázaro Corte-Real. E que era muito considerado em Lisboa, lá nos meios artísticos, e tal. Era também um bom boémio. Ele disse-me “Houve lá pá. Então Zé, não assinaste aquela coisa do Curso de Defesa Civil do Território” E eu disse: “Não. Ouça lá…” Não me lembro como é que eu o tratava, primo Lázaro, provavelmente. “Mas não é obrigatório, não quero”. “Eh pá, vê lá, vê lá”. Ora, não quero, e pronto fui corrido da escola.

AA: Voltando ao atelier da Porta de Portugal, como era esta dinâmica de um grupo de jovens, que uns ainda estavam a acabar o curso e se juntam? Acredito que não fosse muito comum arquitectos, com um engenheiro e escultores, principalmente aqui em Lagos.

JV: O Manuel Tainha, que foi professor, que era um tipo notável, notável, mais velho que eu, chamava-lhe a Bauhaus de Lagos. (risos)

AA: É um bom elogio!

JV: Era pois! Uma vez ele disse-me isso, a Bauhaus que vocês têm lá em Lagos e tal. E então começamos a ter visitas. Olha o Keil passou a ser visita assídua, com o Manuel Mendes, o escritor e o com Arménio Losa, o arquitecto que era casado com a Ilse Losa que tinha sido uma refugiada da guerra, que depois passou a ser escritora. E gente do meu curso que passou a vir a Lagos, porque isso foi no final de 50 e, portanto, começava-se a falar no Algarve. E nós o trabalho que tínhamos, que se angariou ali logo, para essa gente toda trabalhar, já era moradias para ingleses e ainda construímos algumas. Foi tudo demolido, tudo, demolido, ampliado ou destruído. Só sobrou uma que foi das primeiras, embora com algumas modificações, mas principalmente um ampliaçãozinha, mas que de resto desse trabalho todo que se fez, que eu saiba, hoje só se pode visitar uma que é era a Casa Gunn. Tínhamos trabalho, algum aqui para Lagos e principalmente ali na Praia da Luz.

AA: E era um trabalho de cooperação total, onde todos davam opinião e colaboravam?

JV: Era isso, era. E depois havia um que ficava responsável pela solução. Por exemplo, o Raúl foi responsável por duas das moradias, eu e o José Pacheco, fomos por essa que ainda sobreviveu e uma ou outra mais pequena. O Jorge Silva foi por mais duas. Ah, e o Raúl ainda fez mais uma outra, essa dentro da Praia da Luz, mesmo para uns portugueses. E outras que se tinham começado as conversas e tal mas que depois não se terminaram.

José Santa Bárbara

No atelier, Raul Hestnes e Zé Rosado

AA: E qual era o papel e o contributo dos escultores para a discussão?

JV: Era toda! Eles participavam nas conversas e nós tínhamos iniciado a participação das artes plásticas na arquitectura. Por exemplo, com o Santa Bárbara fizemos pavimentos de exterior, fizemos o mobiliário, ele como designer, para o Hotel de Lagos, o original, de que já não existe nada. Com o Cutileiro fizemos o pavimento da Casa Gunn, que a entrada era um grande pavimento, muito grande mesmo, amplo, foi feito pelo João Cutileiro. Com o Santa Bárbara fizemos uma lareira, dessa casa Gunn também. Da outra, que era uma casa em curva, toda redonda do Jorge Silva fez-se também um pavimento em que eram feitos por eles, e connosco claro, conversava-se.

AA: Ou seja, os escultores da Belas Artes tornaram-se, como se diz hoje em dia, designers. E ajudavam na materialidade e na plasticidade das obras?

JV: Sim, sim. E além disso não só designers, de equipamento ou mobiliário, como mesmo de trabalhos de escultura, o Santa Bárbara fez algumas ombreiras, a base das ombreiras. A primeira pedra das ombreiras, em pedra grande, em cantaria trabalhada por ele. O João Cutileiro fez esse grande pavimento da entrada da casa Gunn, com mosaicos partidos. E houve mais. Ah, o Santa Bárbara fez pavimentos em jogos de calçada, com elementos repetidos.

AA: E neste período fala no livro “José Veloso: A arquitectura, uma causa”, que aproveitam esta fase para fazer experiências, sobre o Modulor, arquitectura orgânica, de referências do movimento moderno. Foi uma fase experimental para todos?

JV: Era a fase que nós chamávamos de sedimentação do Modernismo. Já não era a primeira fase do Modernismo, mas era a sedimentação e o orgânico. Alvar Aalto, essas referências principalmente lá de cima dos nórdicos, o (Gunnar) Asplund. Os italianos, o (Ignazio) Gardella, por exemplo, lembro me desses nomes. Os catalães, de Barcelona, o (Josep Antoni) Coderch… E outros, agora não me lembro, já esqueci esses nomes.

AA: Havia este continuar de “beber” de várias fontes?

JV: E nessa altura foi aquela grande explosão de Torremolinos, e visitamos a Andaluzia até à costa brava.

AA: Era essa a pergunta que lhe ia fazer agora. Refere que visitaram Lagos, Burgau, Alvor, Andaluzia e entres outros locais. À imagem do que se fez noutros tempos antigos de se visitar locais de referência para ter inspiração. E pergunto se era no sentido de incorporar essas referências regionais e mediterrânicas no Modernismo?

JV: Era busca de informação, eram lições, íamos recolher elementos que depois se discutiam e se aplicavam os princípios. Não necessariamente como estilo.

AA: Não era copiar, era compreender as soluções para aplicar quando necessário.

JV: Era isso. Como se visitavam aqui as povoações aqui, principalmente Alvor e Burgau, que eram essas as fontes. Eram fontes de informação em vez de ser só de revistas e de artigos, de escritos e tudo isso, era no concreto. Depois a aplicação destes princípios orgânicos, mas baseados na arquitectura como função social nasceu para nós.

AA: Já havia esse sentimento de função.

JV: E nós já entendíamos, e isso ficou muito marcado que não havia diferença entre arquitectura e urbanismo. A arquitectura e o urbanismo são uma e só disciplina, digamos. Na medida em que qualquer intervenção que se faça de arquitectura numa povoação, num aglomerado qualquer, numa cidade, é sempre uma intervenção urbanística.

AA: No sentido que quando se intervém arquitectonicamente num lugar estamos a fazer urbanismo também, porque estamos a relacionar com todo o envolvente?

JV: É isso. É sempre uma intervenção urbana. A arquitectura é sempre uma intervenção urbana, na medida em que, é a concretização da sua função plena. Portanto da sua função social.

AA: Esse princípio que sinto que ainda hoje é bastante usado, a questão de recolher informação e depois essa informação tornasse ferramenta de trabalho para conseguir soluções na discussão do projecto. Esses conceitos ainda são contemporâneos e é muito interessante perceber que nessa altura já existiam.

JV: Nós já abordávamos, era um caminho que se ia percorrendo. Repara era gente muito dotada o José Pacheco e o Raúl eram pessoas e profissionais fora de série, dotadíssimos. E o Santa Bárbara também. Sinto que tive muita sorte.

AA: Sente que aquilo que foi produzido surge porque havia muita capacidade de todos. Que se juntou ali muita arte e aprendiam uns com os outros e isso fez com que crescem todos ainda mais, que fosse muito proveitoso aquele período para todos.

JV: Exactamente é isso mesmo. Ali desenhou-se muita coisa. E começou-se a desenhar muita coisa que depois se veio a concretizar, e que já nessa altura se concretizou, no que se fez e que depois se desenvolveu por aí a fora.

Armando Amaro

Ribeira e Jardim dos Amuados. Vista do atelier da Rua da Porta de Portugal. c.1958

Estalagem, vista do exterior, em 1960

AA: Tinha-me dito que o atelier terminou em que período?

JV: Em 1961.

AA: Período em que Lagos já se vê completamente transformado com a Avenida dos Descobrimentos. Nesta altura já tinha esta experiência, do atelier da Porta de Portugal, como é que foi a sua visão desta transformação da cidade?

JV: Isso foi simultâneo, porque o projecto da avenida é de 57, exactamente quando nós começámos e depois a obra decorreu durante aqueles 3 anos e foi inaugurado em 60. E, portanto, nós víamos aquilo surgir ali, com os nossos olhos indignados…

AA: À vossa porta, à porta do atelier literalmente…

JV: Debaixo do atelier, logo ali! Nós chegávamos à janela onde antes tínhamos na frente o porto da cidade, o porto era longitudinal, ao longo da cidade. Exactamente ali, diante dos nossos olhos, aquilo começou a ser aterrado, aquela coisa toda e começou a aparecer com a nossa indignação. E ainda por cima com a conversa, aquilo não chegou a ser conversa, foi uma pergunta e uma resposta com o (Miguel) Jacobetty Rosa, o urbanista. Que foi quando eu lhe disse: “Oh arquitecto” – quase que em segredo porque estava toda a gente em Lagos entusiasmadíssima, menos os comerciantes que queriam fazer uma “manif” contra a avenida, porque a avenida ia matar o comércio de Lagos.

AA: Porque o percurso nessa altura passava pelo centro da cidade, junto às lojas das pessoas.

JV: Exacto. E quiseram fazer uma “manif”, que foi abafada pelas forças antes que chegasse a PIDE. Foi abafada aqui pelos homens da União Nacional, e tal, lá abafaram aquilo. E o presidente da Câmara da altura que também navegava nessas águas, também já morreu. Sabes um dos meus problemas é que muitas vezes eu falo de situações em que os outros interlocutores todos já morreram. Por isso eu não posso dizer “como diz fulano, fulano pode confirmar”. Ou “essa conversa foi com fulano”, ou se acredita ou não se acredita. Eu disse-lhe: “Oh arquitecto…” - porque isto era apresentado como a variante da 125 - “Oh arquitecto” – uma coisa que entrava pelos olhos a dentro de toda a gente- “a variante da 125 não era melhor lá por cima da cidade” – havia a estrada da Fonte Coberta que era de S. João até as Quatro Estradas, da Luz, que eu lhe disse: “…isso era um décimo do custo” era metade da distância e um décimo do custo. E ele olhou para mim como se eu tivesse caído de uma galáxia qualquer e diz-me assim: “Oh homem o ministro quer uma marginal”, foi a frase dele, nem maior nem mais pequena e acabou ali. Portanto o ministro queria a marginal e fez- -se marginal, pá. Custou uma fortuna fabulosa, em obra e em expropriações, e aquilo tudo, destruiu-se coisas que se fez. Tiveram que ser destruídas fábricas de conserva do Paolo Cocco, a do Pimenta e a da Ribeira.

AA: A da Ribeira é que acabou por ficar lá.

JV: Ficou lá um tempo que era a casa dele também.

AA: Sim. Posteriormente aquilo teve outras soluções e outros usos. Mas estava a dizer que se expropriaram essas fábricas que eram para sair dali, mas também há a questão do bairro, que você disse que conhecia bem junto à muralha.

JV: Que era a Ribeira, que era mesmo uma zona tipificada, uma extensão da cidade de Lagos para fora das muralhas e que fazia o porto de Lagos. Era ali que chegavam as traineiras, que no Inverno punham as traineiras em seco, essas coisas todas era ali. Portanto, era parte do Porto de Lagos, era ali a Lota, e a casa dos remadores da Alfândega, porque aquilo era tudo a remo, ‘tá claro. Mas voltando um bocadinho atrás: estava agora a lembrar-me, porque isso é muito pessoal. Com os Zé Pacheco, éramos muito amigos, de facto. Aquilo foi uma perda do caraças. Quando ele voltou de África, já alcoolizado, da guerra de Moçambique. Chegámos, a minha mulher Maria Luísa, que como te digo era mais marinheira que eu, a ter um projecto de um barco, não era de fazer um barco era de comprar um barco. E tínhamos escolhido já um barco que era um modelo… agora não me recordo… para dar a volta ao mundo, à vela os 3…

AA: Esses projectos ficaram interrompidos.

JV: Ficaram interrompidos com a ida para a guerra. Foi isso, em 61. E depois eu cheguei a navegar num barco desses, que foi um barco comprado pelo João Pimenta, que um dia me disse “sabes que comprei o barco…”

AA: Então ele disse que tinha adquirido um barco desses que você tinha em vista.

JV: Comprou, comprou, esse barco que nos tínhamos escolhido, que era um barco de 9 metros. A estreia desse barco foi trazê-lo de Lisboa para Lagos; fui eu que o trouxe com ele e o filho. Porque ele não navegava, ia a bordo, mas não manobrava o barco.

AA: Queria que me explicasse como funcionava o Concurso para Obtenção do Diploma de Arquitecto (CODA), onde defendeu o projecto da Estalagem Abrigo da Montanha?

JV: O Curso era dividido em 2, o curso normal e o curso superior. O curso superior já era sem frequência obrigatórias, e com uma classificação por pontos. Era preciso somar 9 pontos, o mínimo eram 3 projectos, com o máximo de 3 pontos, que era a máxima classificação era 3. Havia quem fizesse 3/3/3 mas isso eram poucos, que nós na escola chamávamos quem conseguia fazer, eram os três vintes, que era uma marca de tabaco que havia. Houve alguns que fizeram, eu fiz em quatro não me lembro como ficaram divididos os 9 pontos.

AA: Então tinha feito o curso normal…

JV: O normal, o curso superior e depois do curso superior, de obter esses 9 pontos, tinha um período que era o chamado tirocínio. Ainda assinei algumas coisas como arquitecto tirocinante, nessa altura do atelier da Rua da Porta de Portugal. Éramos todos tirocinantes. À espera da oportunidade de fazer a tese. Eu lembro-me da tese do Zé Pacheco, mas não me lembro da tese do Raúl. E então era preciso ir fazer a defesa da tese que era o Concurso para Obtenção do Diploma de Arquitecto (CODA) e que era classificado. Portanto era feita a defesa da tese, que normalmente todos os cursos da escola iam assistir quando havia uma defesa de tese, enchia-se a maior sala que havia lá em Belas Artes. Alunos e arquitectos vinham assistir à defesa da tese. E que eu fiz essa estalagem de Monchique. Eu sei que o José Pacheco tirou 19, eu tirei 18, o Raúl também tirou 18, e os outros já não me lembro.

Hotel de Lagos 1ª fase - Peças por José Santa Bárbara

Na Isetta emprestada por Sena da Silva para a viagem de núpcias

AA: Este projecto acabou por ser muito importante para si.

JV: E foi! Porque foi um projecto muito badalado, porque aquilo foi um sucesso. Economicamente e como investimento foi um sucesso, muitíssimo bem gerido pelo filho do dono, de quem eu sou muito amigo. E que depois fiz-lhe a casa, o António Fernandes, ali de Monchique, em frente do prolongamento do terreno deles, enfim, era uma encosta muito, muito acentuada e atravessado pela estrada. E a estalagem é do lado de cima do terreno e a casa dele é do lado de baixo, não é bem em frente, mas é um bocadinho antes de lá chegar. Tu já viste a casa dele?

AA: Não. Não sei se estava na exposição (do ISMAT)?

JV: Estava, estava em António Fernandes.

AA: Posso ter visto, agora não tenho de memória. Mas na altura passei uma vista pelos projectos...

JV: Ah! E como foi muito badalado, porque foi um grande sucesso, começou por ser a casa de passe finíssima, elegantíssima para as golpadas dos senhores de dinheiro de Lisboa, para passar o fim-de-semana com a sua querida.

AA: Escolhiam aquele sítio.

JV: Era um sítio recatado, com um serviço impecável, impecável.

AA: E tornou-se uma referência…

JV: Tornou-se uma referência nacional por isso. Depois começou a ser conhecido. Não havia arquitecto nenhum que viesse ao barlavento que não quisesse ver Monchique, ver a estalagem. Aquilo agora está muito maltratado, depois os betões à vista foram pintados…. Enfim, maltratado, muito maltratado.

AA: Desconfigurou-se o projecto.

JV: Sim, sim, sim.

AA: Faz depois outro projecto que é o Hotel de Lagos, que é hoje Hotel Tivoli.

JV: Só fiz a primeira fase. Está também completamente descaracterizado, não sobrou nada.

AA: Algum destaque desta obra ou história que queira contar?

JV: Originalmente não foi como proposta de hotel; nasceu como apartamentos, que era uma novidade à época, apartamentos turísticos, de suites. Nasceu como o hoje que se poderia chamar um aparthotel, mas de qualidade. Durante a construção é que foi transformado em hotel por questões de financiamento, porque nessa altura não havia financiamento para apartamentos nem nada disso, teria que ser hotel, e tinha que ser de 5 estrelas. De forma que foi um processo com alterações, não foi um processo continuado de projectar um hotel. Eu posso dizer que nessa altura o único hotel que foi construído no Algarve foi aquele pequeno Hotel Garb, pequeno de 30 quartos, que era projecto do Chaves… Ah! E era preciso que beneficiasse da utilidade turística que tinha aquele processo complicado para lá chegar. Tinha que ser aprovado por uma data de entidades e por Salazar pessoalmente, tinha que lá ter a assinatura de Salazar, que teve. Por forma que aquilo não foi assim um processo linear; foi um processo que foi evoluindo, umas vezes negativamente outras positivamente. Aquilo eram dois blocos, originalmente, separados e depois foi preciso ligar os dois blocos. Teve um processo complicado, mas na primeira fase ainda, até à decoração, quando chegou ao equipamento e decoração aí é que começaram os problemas. Sabes que eu era um bocado teimoso, e um bocado desbragado. Também não devia nada a ninguém, como hoje estou-me um bocado nas tintas e já estava nessa altura. E aquilo foi um investimento inicial duns Vaz Pinto, que eu conhecia muito bem, uma família de 11 irmãos, homens e 2 irmãs, que eram muito conhecidos em Lisboa, e que eu tinha feito o Liceu com eles. E então quando eles compraram a fábrica do Fialho e decidiram lá fazer os apartamentos e que depois evolui para hotel porque questões de financiamento e melhor negócio e não sei quê. Tratei com eles sempre com todo a vontade e tratava-os por tu. Até que um dia, já havia os protótipos desenhados pelo Santa Bárbara, para os bancos dos bares, para o bar todo, para os sofás, tudo isso - que o Santa Bárbara agora, acabou por descobrir algumas fotografias - e já estávamos nessa fase, já existiam móveis, protótipos e tal, e um dia recebo um telefonema do Vaz Pinto, que era o presidente lá da empresa, que era o mais velho. E o telefonema foi: “Ouve lá, Zé, a gente agora pára com esse trabalho com o Santa Bárbara e quem vai passar a fazer a decoração e o mobiliário e os equipamentos e isso tudo, é uma decoradora que nós vamos contratar” e eu disse: “O quê, pá?!”. Fiquei furioso, como calculas, não foi só chateado. Fernão Vaz Pinto, que era o mais velho dos irmãos. E digo: “Fernão, têm juízo pá, nem penses nisso”. Então a gente tem aquele compromisso” -não eram compromissos escritos, eram verbais, apalavrados que eles estavam a cumprir. “Não, não já te disse” e eu disse: “Não, não. Não pode ser de maneira nenhuma. Nem penses nisso. Diz lá a senhora que não pode ser” e diz-me ele assim e isso posso reproduzi textualmente: “Ouve lá, Zé, não te esqueças que estás a falar com o presidente do conselho de administração da empresa”. Aí derramou o copo e eu disse-lhe: “Olha Fernão, então o presidente do conselho de administração da empresa, vai ouvir se calhar aquilo que nunca ouviu, que é vai badamerda!” (risos) E desliguei. E pronto acabou-se aí a minha relação com a empresa, e a minha intervenção no hotel de Lagos. A partir daí fizeram todas as barbaridades que quiseram e pronto. AA: Este é o período em que surge o turismo com mais força. JV: Com todo a força. Foi um processo de aceleração em que quase todos os dias aparecia uma novidade. A chegada do turismo aqui ao barlavento levou tempo. Começou por Albufeira, como é hoje a grande bandeira do turismo do Algarve. Que era uma terrazinha pequena, uma vilazinha pequenina e tal. Aqui tinham descoberto a Praia da Luz, mas só depois disso. O hotel de Lagos deve ter sido em 62/63. AA: Estava a dizer que surge o turismo em Albufeira, depois na Luz. JV: Na Luz e só depois disso é que em Lagos. De forma que para mim continua a ser o Hotel de Lagos, embora já não tenha nada do Hotel de Lagos. Que é a adaptação de um projecto em construção já adiantada que se transformou em hotel.

AA: Nesse sentido, estava a pensar: a ideia inicial era serem os apartamentos para turismo, nessa conversão para hotel manteve-se a identidade dos apartamentos?

JV: Sim, sim.

Maria Luísa, no congresso de Praga, com Arq. José Almada Negreiros.

AA: O que se criou foi a recepção e o outro aparato ligado ao hotel.

JV: E dividiu-se cada suíte, para serem dois quartos. Passou a ser de 50 suites para 100 quartos. E aí começaram as alterações, teve que se dividir as varandas, a varanda teve que ser dividida em duas, porque a varanda não era uma varanda corrida, que se pusesse uma divisória assim a meio e tal. Isso aí já foram… Mas essas alterações, eram umas divisões inapercebidas não eram estruturais.

AA: Houve tempo de fazer ir fazendo essas alterações.

JV: Sim, muito.

AA: Era hotel, mas ainda mantinha essa génese, essa identidade de serem apartamentos. Apesar de serem mais tarde reduzidos e com essas divisões. Ou seja, não era um hotel típico.

JV: Não, não era o hotel típico de veraneio. E, principalmente, afirmou-se. A razão porque ele subsiste até hoje, apesar das alterações, é que manteve a sua característica de construção urbana, de uma participação de carácter urbanístico. Manteve essa qualidade, conseguiu-se apesar de tudo e das alterações, porque as alterações foram formais depois era na recepção, foi aumentada a recepção…

AA: Para cumprir aqueles critérios…

JV: Claro, e depois os bares e não sei que mais, aquilo tudo. Havia um bar separado e depois aquele teve de ser o bar do hotel. O restaurante também era para ser um restaurante aberto ao público, passou a ter de ser o restaurante do hotel. Tinha uns salões para serem eventualmente alugados e utilizados para outros eventos, que passaram a ser salões do hotel. Houve essas questões, mas aquela natureza que tinha de ser uma intervenção, incluindo uma intervenção urbanística é a razão da sobrevivência do hotel, como hotel urbano.

AA: Integrado na cidade.

JV: Exactamente. Era um hotel que, ao princípio, já se pretendeu introduzir essa qualidade de intervenção urbanística, que, apesar de tudo, ela era tão poderosa que suportou as ampliações e as mariquices, isto é, uns populismos, não é bem, uns tipicismos…

AA: As modas que iam surgindo…

JV: Sim, a que tinham que corresponder. E que a senhora e lá os decoradores lá trouxeram.

AA: Depois terminou a experiência do Atelier da Porta de Portugal. Já contou como é que terminou, mas depois teve outras parcerias: chegou a trabalhar com o arquitecto e urbanista Rui Paula, entre 1964 e 1967.

JV: Tivemos atelier os dois em Lisboa, o atelier sede era em Lisboa. Era para ser eu ir lá e ele vir cá, alternadamente, acabou por ser eu sempre que ia lá e não aguentei, fisicamente não aguentei.

AA: Só durou 3 anos.

JV: Sim uns 3 anos.

AA: Já se conheciam do curso de arquitectura, mas como surge esta oportunidade de trabalharem juntos nesta altura e como foi esta experiência?

JV: Porque eu comecei a ter excesso de trabalho. E então, fui eu quem propôs. Eu sempre o estimei muito como um grande organizador e um homem com uma capacidade de trabalho. Para ele só existia a profissão, não existia mais nada, não existia família, não existiam filhos, não existia nada, a mulher tudo isso, nada. Eram apêndices, e acidentes de percurso. Para ele era a profissão é que mandava. E uma capacidade de trabalho enorme, de uma grande capacidade organizativa e eu apreciava muito esses aspectos. Era um homem que todo o trabalho que fazia era muito metódico e então eu desafiei-o para isso: “Epá a gente fazemos um atelier juntos os dois” e funcionou. E depois, entretanto o Pacheco voltou de África, embora já viesse alcoolizado, mas, no entanto, ainda tinha muitas qualidades, principalmente durante a manhã, porque ele depois já só bebia vodca e mais nada.

AA: Ele ainda participou nesse atelier.

JV: Sim, ainda participámos os 3 nalguns trabalhos, grandes, mas que eram trabalhos especulativos. Só depois é que começámos a perceber isso; eram trabalhos feitos para valorizar os terrenos, comprados ainda baratos, mas já muitíssimo bem situados. Em Alvor e alguns espalhados por aí, pelo Algarve. Com projectos feitos para valorizar o terreno e depois era vendido. Em vez de fazer o projecto, alteravam tudo, o que lhes interessava era o projecto com a licença de construção.

AA: Então este período para si foi de grande volume de trabalho…

JV: E muito dinheiro. (risos)

AA: Isso enquadra-se aqui na próxima pergunta: porque é que nos anos 60 e 70 faz uma série de viagens a Praga, Bratislava, Bulgária, às cidades de Barcelona e La Rochelle. Qual foi a importância deste período e destas viagens? Teve o período do experimentalismo, que vai viajar pelo Mediterrâneo, e neste período com mais maturidade vai fazer esta viagens pela Europa. Qual foi a importância destas viagens?

JV: São locais com uma grande qualidade própria e interesse próprio. Mas muito mais porque isso era tudo de carro, ia e vinha, sempre com a minha mulher, íamos os dois sempre. E fazíamos assim na calma 1000km por dia, para nós era banal, fazer 1000km por dia de automóvel, nessas estradas da Europa já boas. “A gente” estávamos habituados a esta desgraça daqui a gente andar naqueles verdadeiros tapetes alcatifados que eram essas estradas. Outras vezes de avião, de forma que tínhamos dinheiro para isso tudo e gastávamos todo nessas viagens. E, portanto, era acompanhar a Europa, não havia nada disto (União Europeia), nem de C.E.E.

AA: Era a forma de acompanhar a realidade europeia e as tendências, ver novas experiências e novidades.

JV: Era isso, era visitar de facto a Europa, nos sítios mais diferentes desde Viena, a Praga, a La Rochelle, portanto na costa francesa, Arcachon, que era um grande centro náutico, de recreio e desporto, da costa francesa. Desde isso a Viena e Praga, grandes cidades. Como nós chegávamos a dizer, Praga foi de tão importante para nos, que a gente dizia que a vida se dividiu em duas fases antes de ir a Praga e depois de ir a Praga. Mas depois alargamos isso a outros locais como a La Rochelle, e Barcelona, e Madrid…

AA: Teve uma importância pessoal, mas acabou por depois ter também importância na sua arquitectura?

JV: Claro. Sim, sim, sim. Todas essas tendências e tudo o que se estava a fazer, e o que se tinha feito, principalmente o que se tinha feito, o bloco de Marselha, tudo isso. Os arrabaldes de Paris! Foi uma fase de uma riqueza, chegava a casa ao fim do dia e dizia: “Menina, vamos embora, vamos para Madrid”, “Vamos para Barcelona “, e a gente metia-se no carro e ia logo. Sem pensar, de facto sem pensar. Sem mais informação, se não ir ver coisas, vamos ver Barcelona, vamos ver isto, vamos ver aquilo.

AA: Acabava por ainda ser um período em que nem toda a informação chegava.

JV: Pois, além disso foi a época em que a Europa, continuava a ser um grande campo de experiências e que depois nós transportávamos… recordo-me a visita de La Rochelle, com um grande centro de veraneio náutico e também balnear, no norte da França, na Bretanha.

AA: E era fácil sair de Portugal e voltar?

JV: Era facílimo, era só uma questão de dinheiro. Nós tínhamos dinheiro nessa altura, ganhava-se muito dinheiro. E, principalmente em termos profissionais, socioprofissionais, a gente via no concreto, porque eram intervenções já iniciadas. Eu recordo-me em Praga, de ver o início da recuperação do bairro judeu, que estava vazio, completamente vazio. Os nazis tinham levado a população judaica toda, e havia lá um bairro judeu, estava a recuperação a ser feita, e tudo isso. Era um somatório de experiências e de absorção de conhecimentos, que depois se podiam aplicar e que se utilizaram depois aqui. Olha em relação ao SAAL, por exemplo, toda essa bagagem foi fundamental em relação ao SAAL.

AA: Perguntava isto da facilidade de sair de Portugal na questão da fronteira, se era fácil sair ou se havia algum controlo?

JV: Já era. Eu até certa altura tinha que ter a cédula militar, como já não tinha, já tinha passado isso tudo, já não estava sobre a alçada da tropa, já não tinha problemas. E depois como tive sempre aquele espírito de contrabandista (risos) que fiz muito contrabando de facto. Eu não me preocupava de chegar a fronteira e dizer: “Tem alguma coisa a declarar?”, “Não”. Era sempre “Não senhor”, podia vir atascado de coisas (risos). A resposta era sempre “não, não, só coisas pessoais” e pronto já está. Como era de carro e entrávamos sempre por Vila Real de Santo António, onde eu conhecia e era muito amigo do chefe da alfândega, ainda para cima.

Armando Amaro