Artistas de rua:

Lagos serve de palco a músicos de diversos países

São inúmeros os talentos que pelas ruas de Lagos passam, actuações sem preço, recheadas de animação. Artistas de todas as áreas que trazem consigo uma bagagem de emoção e entusiasmo. Músicos que se responsabilizam por tudo o que um espectáculo requer: material, qualidade do som, energia, e, acima de tudo, boa disposição.

Poderíamos apresentar vários talentos, mas este é um Verão diferente. Mais uma das consequências que a pandemia trouxe. Agora, ao caminhar pelo centro da cidade, não se ouve música nas ruas, não existem ajuntamentos de turistas e residentes. Em vez disso, presencia-se uma ausência da partilha de sentimentos que anteriormente eram provenientes de actuações calorosas e emotivas.

Como repórteres que procuram uma boa história, não nos foi possível, como pretendíamos, entrevistar músicos à medida que fôssemos atraídos pelo seu som, como se de um convite para assistir se tratasse. A cidade de Lagos tem em falta um aspecto que tanto a caracteriza, um cruzamento de nacionalidades que se podia assistir no centro histórico, onde cada uma expressava a sua arte. Não só esta reportagem começou com uma procura de talentos inatos como se desencadeou numa busca de respostas. Afinal, porque não se escutava música nas ruas? Seria o receio da Covid-19 inteiramente responsável pela ausência de quem tanta animação dava à cidade?

Questionou-se então a Câmara Municipal de Lagos que esclareceu: «As autorizações para actividades de animação de rua estão suspensas com base no actual estado de calamidade (Resolução do Conselho de Ministros n.º 91-A/2021, de 9 de Julho, que manteve os artigos da Resolução do Conselho de Ministros n.º 74-A/2021) e na impossibilidade de se garantir as condições que permitam dar cumprimento às orientações específicas definidas pela DGS [Direcção-Geral da Saúde] para eventos de natureza cultural», resposta facultada via e-mail no dia 16 de Julho de 2021. Contudo, mesmo sendo estas restrições a nível nacional, existem já cidades por todo o país, e inclusive no Algarve, a disponibilizar espaços para os que tenham vontade de partilhar a sua alegria e talento.

Embora se experienciem circunstâncias controversas que resultam na falta de rendimentos em várias actividades profissionais, existem apoios para muitos, mas nem todos são abrangidos. Foi também mencionado por parte da autarquia que «relativamente à atribuição de apoios económicos, (…) não existem apoios específicos para os cidadãos impedidos de exercer esta actividade cultural e daí tirar o seu sustento». Esta condicionante levou a que os artistas enveredassem por outros caminhos que os permitisse continuar a actuar.

Esta reportagem dá a conhecer dois músicos que tocaram em Lagos no Verão passado e um pouco do que tem sido esta experiência. Viajaram para conhecer o nosso país e por cá espalhar a sua paixão. De Espanha e Itália, trouxeram consigo a guitarra e muita vontade de fazer o que tanto gostam: actuar na rua.

Tyler Faraday

Tyler Faraday

As ruas de Lagos receberam Tyler no Verão de 2020. O que era para ser apenas uma actuação de rua tornou-se regular porque adorou a experiência. De Málaga para Lisboa e da capital para o Algarve, lugar que agora o acolhe como artista. O convite para trabalhar cá, foi fruto de alguém que o viu nas ruas do Chiado e nunca mais esqueceu a sua voz.

Antonio Soto nasceu em 1985, em Espanha e é licenciado em engenharia industrial. Embora se interesse por psicologia, filosofia e ciência, actualmente é a área da música que tem especial destaque na sua vida. Do seu percurso fazem parte a participação no The Voice Portugal, bem como no La Voz em Espanha.

Utiliza um nome artístico que nasceu da vontade de manter o trabalho enquanto músico em anonimato. Como exercia a profissão de engenheiro optou por criar uma nova conta na rede social Facebook com o nome fictício Tyler Faraday, para que os colegas não o pudessem encontrar.

Desde os 25 anos que é artista de rua, mas apenas assumiu este modo de vida a tempo inteiro em 2018, quando se mudou para Lisboa. Contudo, as «praias paradisíacas» atraíram-no até ao Sul: «Gosto imenso do Algarve. Tem uma luz muito bonita e a lua parece ter mais força aqui do que noutros lugares», reflectiu.

Primeiramente, tocar na rua surgiu como um desafio, queria ganhar coragem para o fazer. Quando o conseguiu, começou a interessar-se pela quantidade de dinheiro que poderia arrecadar e se seria possível viver apenas dessa actividade, «dessa forma de fazer música». Nesse processo, descobriu que «a rua é um belo cenário, cheio de aprendizagem e experiências intensas».

Vivenciou inúmeros momentos, uns bons, outros desagradáveis, mas reconhece que esses o ajudaram a conhecer-se melhor e a crescer em muitos aspectos.

«A essência de tocar na rua é que só param para te ouvir aqueles que realmente se sentem tocados pela tua música. Essa emoção reflecte-se nos seus olhares e comportamento»

Tyler revelou que existem os que choram, os que ficam boquiabertos e, ainda, os que querem um abraço. Quando se juntam muitas pessoas, afirma que «toda essa energia se pode sentir, se pode quase tocar» e, com experiência e sensibilidade, o artista é capaz de criar uma comunicação que dará lugar a «situações mágicas».

Embora muitas vezes visto apenas como um passatempo ou uma forma de ganhar dinheiro, para o músico esta é também uma forma de se sentir animado. Admitiu que sempre que estava triste ou deprimido ia tocar para a rua para recuperar a alegria.

O dinheiro resultante desta actividade não o preocupa em demasia, é uma pessoa simples e com uma forma de viver muito económica, quase tudo de que gosta é grátis, como assistir ao pôr-do- -sol, caminhar na praia ou ver as estrelas.

Tocou em várias cidades pelo país e mundo fora, mas nenhuma tão familiar e acolhedora como Lagos: «No centro, a praça é ampla e permite que as pessoas se sentem. Isso ajuda muito, porque ao tocar na rua observa-se que quantas mais pessoas assistem a uma actuação, mais são as que ficam curiosas e se juntam ao grupo». Presenciou um ambiente amigável, acrescentou que os bares ao redor até lhe ofereceram uma bebida e que a polícia foi tolerante. Depois de tocar ia sempre comer um gelado «muito bom» na praça Gil Eanes.

«É uma forma de expor o meu trabalho com muita difusão»

As suas motivações são artísticas e económicas. Tocar na rua permite a Tyler dar a conhecer a sua arte, partilhou que anteriormente à pandemia todos os dias tinha de 10 a 15 novos seguidores nas redes sociais. Por exemplo, actuar no Chiado, em Lisboa, proporcionou-lhe não só vários convites para eventos e concertos, que realizou em 2019, como também duas digressões pela Europa.

É uma actividade que conta com vantagens e desvantagens. Possibilita o encontro entre artistas que dividem o mesmo espaço, bem como a partilha de conhecimento e experiências. Contudo, nem tudo é como se pensa. Tyler esclarece que não é verdade que se possa tocar em qualquer lugar a qualquer hora. Este é precisamente um dos pontos que para si é mais complexo – entender quais os locais onde é permitido e qual o horário a cumprir: «São necessários vários dias para se adaptar às dinâmicas».

Tyler Faraday

Outro obstáculo que aponta é a polícia e o facto de não existir legislação apropriada. Contou que são poucos os locais onde existe uma estrutura adequada para actuações de rua em condições de segurança. Foi, inclusive, já multado, assim como todos os seus colegas, muitos deles várias vezes até.

Assim, refere que é importante considerar o ambiente à volta, os estabelecimentos desde o comércio local aos restaurantes, tal como os horários em que estarão mais pessoas na rua.

«Os artistas de rua têm um papel muito valioso porque há uma mensagem implícita: Pode-se viver de outra maneira, não têm que se seguir as estruturas pré-definidas pelas escolas e os preconceitos. Existem os artistas. Existem as pessoas apaixonadas pela arte. Existem as pessoas que procuram realizar os seus sonhos, mesmo que tenham pouco dinheiro, mesmo que estejam a sofrer e o sucesso ainda esteja longe»

O músico acredita que se pode questionar tudo o que nos foi ensinado e encontrar uma forma de viver diferente da que aprendemos, que nos traga mais realização e nos permita «ser seres humanos melhores». Esta vivência trouxe-lhe maturidade, memórias, experiências, amigos, amores, contactos, empregos e risos.

Comentou até que seria difícil enumerar tudo o que ocorre e se aprende na rua, mas destaca cada uma das noites que tocou em Lisboa, com cerca de 50 pessoas à frente, sentadas no chão, a cantar consigo ou em silêncio absoluto.

Por fim, deixa um conselho aos que pretendam passar por esta aventura, principalmente que não o façam por dinheiro e que sejam autênticos. Que se proporcione ao público uma actuação de qualidade; que se ensaie e se aprenda; que se invista na qualidade do som, para que este não se torne invasivo – nem na mensagem nem no volume.

Revelou que é necessário respeitar o espaço acústico: «Do mesmo modo que não atiramos lixo para a rua, também não podemos fazer ruído».

Daniele Pistone

Daniel Pistone

Nasceu em 1987 e é italiano, natural de Saronno, província de Varese, perto da cidade de Milão. A última vez que Daniele Pistone actuou em Lagos foi também no Verão passado. Em Setembro, despediu-se da cidade que teve o prazer de o ouvir durante alguns meses.

Decidiu viajar do Norte de Itália para o Sul de Portugal. Apaixonado pela música, toca vários instrumentos, canta, compõe e produz. O cinema faz também parte das suas áreas de interesse, mas é a esta arte que se dedica agora a tempo inteiro, o que nem sempre foi possível. Embora tenha trabalhado como operário numa fábrica, tal não o impediu de se formar profissionalmente como baixista na “Accademia del suono” [Academia de Som].

É a guitarra que o acompanha nas actuações de rua, actividade que pratica desde 2016. «Foi uma forma de escapar à minha realidade e tentar viver da música. Ainda tem o significado de salvação para mim», desvendou, como se do seu espaço “seguro” se tratasse. Acredita que é uma maneira «linda» de se conectar com diversas pessoas e se conhecer a ele próprio de um ponto de vista diferente. Admitiu que todos os sentimentos que a música lhe transmite e proporciona acabam por se tornar, para si, uma necessidade.

«Ser músico de rua é uma incerteza contínua. Num dia sinto-me motivado a dar o melhor de mim, no dia seguinte estou stressado e penso que talvez devesse ter um emprego estável»

Trabalhar sem ter conhecimento de quanto será a remuneração é, para Daniele, difícil. Explicou que, por um lado, sente-se entusiasmado a dar cada vez mais de si, o que vê como algo bom, visto que cria uma «certa disciplina a respeitar»; por outro, reconheceu que o facto de se querer dedicar ao máximo faz com que não tenha tempo para outras actividades. A incerteza traduz-se em sensações que em nada se assemelham. O músico confessou que há dias melhores que outros, o que o leva a reflectir sobre a escolha de não ter um trabalho fixo.

Apesar das desvantagens, são também notórias as vantagens que esta escolha tem para os artistas. Poder escolher o local que servirá de palco e as horas a que se pretende actuar é, segundo o italiano, a melhor parte. Embora aponte a liberdade e independência como pontos fortes, não deixa de lado a possibilidade de viajar, conhecer pessoas e novos lugares.

«É estimulante, faz-te sentir vivo e rico, não tanto pelo dinheiro, mas porque sabes que só precisas de uma guitarra e da tua voz para poder sobreviver em “quase” todos os lugares a que fores»

Daniele Pistone

Em contrapartida, para um músico de rua deparar-se com um local desconhecido é sempre um desafio. É necessário conhecer quais os lugares mais vantajosos para tocar e as horas a que o é permitido fazer. O ambiente envolto é sempre relevante, considera fundamental existir concordância com outros artistas assim como com os proprietários dos estabelecimentos. A comunicação permite que se descubra onde são os melhores sítios para exercer esta actividade. Devido a todas estas condicionantes, Daniele constatou que «demora mais ou menos uma semana para que se possa “trabalhar” decentemente».

Uma caminhada com obstáculos como todas as outras. O dinheiro é algo que, por mais que não se queira ter em consideração, acaba por condicionar vários aspectos. Revelou que é uma «pessoa material num mundo material», habituado a viver rodeado de conforto e bens. Outro entrave são as licenças ou apenas a permissão requerida pelas entidades responsáveis. Referiu que nem sempre as pessoas à volta são simpáticas, chegam até a ser rudes e demonstram que «não gostam de partilhar o mundo com os outros». Acrescentou que, para muitos, os músicos de rua não são bem encarados.

«Um lugar como Lagos deveria ser mais organizado no que toca a actuações de rua para tentar dar a oportunidade aos artistas de tocar e expor a sua arte porque, quer se queira ou não, acaba por acontecer»

O músico pensa que deveria ser possível viver legalmente da arte de rua, o que afirma não ser. Defende que estes artistas não estão incluídos nem são considerados na sociedade. Foram várias as aprendizagens ao longo das experiências que viveu. Julga ter-se tornado mais receptivo, o que o levou a concluir que as pessoas, na maioria das vezes, não sabem que ser músico é um trabalho difícil, trabalhoso e demora tempo - algo que agora está ciente de que deve ser respeitado.

Neste sentido, percepcionou olhares como “oh, não, outro músico de rua”. Estas reacções levam-no a adaptar-se ao ambiente em redor ou simplesmente a criar o seu próprio e todos acabam por gostar e se sentir bem. Esta sensação representa, para o italiano, «que se está a partilhar algo e essa é a função da música».

Para quem se queira aventurar nesta vertente como músico, Daniele aconselha que se faça sempre o melhor que se sabe, encontrando constantemente novas formas de improvisar «porque tanto na música como na vida, nunca paramos de aprender», rematou. Por fim, sugere que se seja uma pessoa acessível, tolerante e mente-aberta, para que todos os dias se esteja preparado para partilhar e receber emoções porque caso assim não seja «não se está a fazer correctamente o trabalho».

Beatriz Maio