Turismo alternativo: Nacionalidades de todo o mundo experienciam prática de voluntariado

A aventura começa, muitas vezes, pela curiosidade em sair da zona de conforto, pela vontade de conhecer pessoas, experienciar algo novo e viver temporariamente num ambiente desconhecido – o que não implica necessariamente que seja num país diferente do de origem. Por vezes, são as questões económicas que estão na base desta escolha, outras é apenas a concordância com o conceito e a curiosidade em vivenciar o que a experiência possibilita.

O voluntariado adapta-se às necessidades de proprietários e voluntários. Existe quem pretenda viajar, por custos reduzidos, e quem queira ter ajuda laboral, sem custos acrescidos. Assim, juntam-se as vontades, unem-se pontos de interesse que permitem que se realize uma troca que ambas as partes considerem justa e favorável. As opções são quase ilimitadas, tanto a nível de destinos como de actividades. Pode ser nacional ou internacional, no campo ou na cidade, numa quinta ou num hostel.

Portugal acolhe pessoas de todas as nacionalidades, proporcionando estadias em diversas localidades. Lagos dispõe de quintas onde é possível trocar alojamento por apenas cerca de 25 horas semanais de trabalho (5 horas diárias, por norma, de segunda a sexta-feira). Deste modo, voluntários podem usufruir do ambiente algarvio; visitar a região e, nos tempos livres, ficar a conhecer as praias e tradições do país.

Quem recebe os viajantes nem sempre são portugueses. São vários os estrangeiros que exploram esta prática.

Por vezes, a alimentação está também incluída e até um pagamento monetário.

Os locais de acolhimento:

Vinha Velha

Clara Kegel tem 34 anos e é alemã, nasceu em Estugarda, uma cidade situada no sudoeste da Alemanha. Desde 2012 que reside em Lagos. O meio ambiente, desenvolvimento pessoal, turismo sustentável e pedagogia são áreas do seu interesse, bem como alimentação vegetariana. Gosta de andar de bicicleta, ouvir música, fazer yoga, dançar e viajar. Embora a sua formação académica seja em fashion – tendo completado a licenciatura em design de moda –, o conhecimento noutras áreas e o interesse pelo campo levaram-na a desempenhar o cargo que ocupa actualmente: gerente na Vinha Velha.

A ideia de acolher voluntários em troca de acomodação deveu-se ao facto da imensidão do terreno e do trabalho que este requer. A envolvência em diversos projectos suscita também a que a ajuda seja necessária e bem-vinda. Clara partilhou que são muitas as pessoas que manifestam interesse e contactam a quinta. Por vezes através de plataformas online direccionadas para este género de trabalho, outras simplesmente porque têm conhecimento desta opção através do website https://www.vinhavelha.com.

Esta iniciativa ocorre desde os anos 80, altura em que a quinta foi fundada. Inicialmente a escala era menor, nos últimos anos o número de voluntários subiu, estando hoje inseridos «numa estrutura diária mais organizada», revelou.

O tempo mínimo de estadia é de, preferencialmente, um mês. Na hora de seleccionar os candidatos que mais se adequam é valorizada a passagem por trabalhos semelhantes. O espírito de equipa e a habilidade em conviver com diferentes pessoas é também alvo de interesse por parte de quem faz a escolha, visto que existem apenas duas ou três vagas para voluntários.

Em que consiste esta experiência?

Para a gerente da Vinha Velha esta «é uma boa possibilidade de se puder viajar, sem grandes custos financeiros envolvidos», um momento para se conhecer um lugar novo, lidar com pessoas desconhecidas e estar a par de hábitos e costumes por vezes distintos dos que se conhece. Oferece ainda oportunidade em diferentes áreas de trabalho e participação em diversas actividades campestres.

Viver com desconhecidos, ainda que por um período temporário, acarreta vantagens e desafios, Clara acredita que «é enriquecedor conhecer novas pessoas de diferentes nacionalidades, vindos de diferentes "backgrounds" sociais e culturais». Esta vivência proporciona que se desenvolvam laços naturais entre as pessoas, que acabam por partilhar o mesmo espaço durante algum tempo. Contudo, nesta quinta os voluntários têm sua própria acomodação, que consiste numa pequena caravana ou bangalô para que cada um disponha da sua privacidade e espaço. As condições são dadas a conhecer antecipadamente, de forma a que toda a informação seja adquirida correctamente e os voluntários possam prever o que esperar. O intuito é facilitar a adaptação desde o momento inicial e acompanhar todo o processo: «Na chegada, mostramos-lhes a quinta e é explicada a rotina do dia-a-dia. Fazemos também sempre uma instrução acerca do trabalho». Assim, nas palavras de Clara «os voluntariados adaptam-se bem, no geral».

Para que não seja cobrado monetariamente o alojamento, são apenas reque-ridas 5 horas de trabalho diário, de segunda a sexta-feira: «Gostamos do princípio da troca, cedemos aos voluntários um sítio para estar em troca de algum trabalho», explica. As actividades disponibilizadas assentam principalmente na área da agricultura, como cuidar da horta e dos animais, bem como na manutenção da floresta e do terreno.

O almoço é sempre feito em conjunto, sendo que as restantes refeições ficam à responsabilidade de cada um. O tempo livre é gerido de forma individual, existindo sempre a opção de solicitar conselhos a quem reside no local. Na região algarvia a praia não fica de fora, quem pratica voluntariado no concelho de Lagos – ainda que fique alojado num ambiente menos citadino – aproveita para se deslocar até à praia.

Clara recomenda que se faça caminhadas, visite mercados locais e se participe em iniciativas e actividades que estejam a decorrer na zona.

The Herbal Path

Maureen Robertson nasceu em 1965 em Londres, Inglaterra. Há três anos que se mudou para Lagos, sendo agora responsável pela quinta The Herbal Path. Realizou mestrado de ciências no Instituto Nacional de Medicina Herbalista, passando o seu percurso profissional pela medicina herbal, que consiste no estudo e utilização de plantas para fins medicinais. Além disso, nutre também interesse pela área da medicina natural. No seu tempo livre gosta de ouvir música e fazer yoga.

Desde 2017 que participa nesta prática de trabalho em troca de alojamento. A ideia de integrar esta iniciativa partiu da necessidade de ajuda em actividades como: jardinagem, colheita, gestão de terras, manutenção, entre outras que possam surgir. Os voluntários trabalham cinco horas diárias, cinco dias por semana. Apesar de serem responsáveis pela sua alimentação e cozinharem as próprias refeições, muitas vezes almoçam juntos, principalmente em dias de trabalho.

A selecção de quem ocupa as vagas de que a quinta dispõe para voluntários é feita através do que se pretende de cada um: «Priorizamos pessoas que tenham experiência no que precisamos de ajuda» revelou Maureen. Na sua óptica, a troca de alimentação e alojamento pelo trabalho diário fica desproporcional quando existe necessidade de proporcionar formação básica e supervisão. Afirma que é um acordo desequilibrado quando aos proprietários compete dar apoio suficiente aos colaboradores, para garantir a capacidade da concretização de um trabalho completamente novo – o que lhes retira tempo para as suas próprias tarefas. A responsável acrescenta que: «A principal frustração é que, muitas vezes, quando se está a ensinar uma nova habilidade a alguém o trabalho leva o dobro do tempo porque é necessário demonstrar e supervisionar outra pessoa». Considerou importante mencionar este aspecto, visto que é comum que jovens voluntários assumam que na troca está também incluída a formação na área de horticultura.

O que é retirado desta vivência temporária «depende das pessoas», a qualidade do tempo e da experiência pode ser «agradável ou desafiante», segundo a responsável. São dois os grandes desafios por si apontados: o facto de a propriedade ter energia limitada – devido ao sistema de electricidade utilizado – e a necessidade de existir conhecimento nas áreas de jardinagem e horticultura. Considerando esta última uma competência e não «uma tarefa simples que qualquer um pode fazer sem nenhum conhecimento prévio».

O que podem os voluntários esperar?

O tempo no The Herbal Path varia entre uma a duas semanas. Poderão existir excepções, caso as pessoas estejam completamente envolvidas no projecto de que fazem parte. A responsável admitiu que, para que se prolongue, é necessário que os voluntários tenham «auto-consciência suficiente para manter o foco no trabalho».

O contacto com a natureza é uma das vantagens do tempo despendido. Viver e trabalhar rodeado pelo meio ambiente – numa propriedade com características distintas das que os voluntários estão habituados – permite que se crie uma consciencialização acerca da utilização dos recursos.

Neste espaço valoriza-se a responsabilidade de cada um, bem como a capacidade de não julgar os outros. Maureen acredita que cada um deve procurar dar o seu melhor, ter uma atitude positiva e disponibilidade para aprender. Bem como iniciativa e autonomia, de forma a apoiar os diferentes projectos existentes. Quando não estão ocupados, os voluntários têm oportunidade para explorar o que for do seu interesse. Normalmente as sugestões dos proprietários da quinta são ir até à praia, conhecer Lagos, visitar as vilas e aldeias vizinhas e fazer caminhadas na mata de Barão de São João. As possibilidades variam e englobam tudo o que a cidade tem para oferecer.

Racing Mackerel Hostel

Bianca Glória, 32 anos, natural de Miami, Estados Unidos da América, e Tiago Glória, 33, natural de Faro, mudaram-se para Lagos em 2015 porque Tiago tem cá família. O percurso profissional de ambos passa pela área hoteleira, o que os levou à profissão actual de gerentes do Racing Mackerel Hostel. Gostam de passear com a cadela, ir à praia, a concertos e jogar Playstation.

Desde o ano de 2017 que acolhem voluntários na propriedade. A ideia deveu-se ao facto do trabalho ser demasiado para apenas duas pessoas, Bianca desvendou que, no ano da inauguração, fizeram tudo sozinhos. Deste modo, perceberam que havia necessidade de ter ajuda, visto que o hostel funciona 24 horas durante 8 meses por ano. «Como alguns hosteis vizinhos utilizam voluntários, então comecei a pesquisar como poderíamos fazer o mesmo», revelou.

Normalmente têm dois voluntários, um que trabalha de manhã cerca de 3 a 4 horas e fica responsável pelas lides domésticas – como limpar, fazer as camas e garantir que o check-out e as chaves são entregues –, outro que exerce a função de recepcionista, trabalha na parte da tarde cerca de 4 a 5 horas e fica encarregue de fazer check-in e de garantir de que nada falta aos hóspedes.

Esta modalidade pode, eventualmente, nas palavras de Bianca, ser «enervante»: «Temos que confiar que a pessoa que vem tem boas intenções e está aqui para ajudar», comentou. Contudo, para evitar um atendimento menos profissional, os gerentes recorrem a um serviço que os auxilia na «verificação de antecedentes» da pessoa a quem disponibilizam a opção de se alojar no hostel em troca de trabalho.

São compreensíveis no que diz respeito à adaptação dos voluntários. Entendem que alguns se adaptam de imediato e têm gosto pelo trabalho e que outros, embora tenham boas intenções, podem não ser tão sociais ou não se identificar tanto com o ambiente do hostel como pensaram.

Para eleger candidatos os gerentes recorrem à plataforma online Worldpackers. Procuram voluntários sem preferência pela nacionalidade. Têm apenas em atenção se a viagem é feita individualmente ou com algum amigo ou familiar, visto que cada pessoa ficaria com horários distintos: «Damos as boas-vindas a pessoas de todo o mundo, mas tentamos não ter voluntários que vêm com seus entes queridos ou com amigos, visto que o turno dividido significa que não passariam o dia juntos. Tirando isso, somos muito tranquilos em relação a quem escolhemos».

Qual o ambiente que se experiencia no hostel?

A possibilidade de fazer refeições individuais ou em conjunto é deixada em aberto, cada um pode agir como se sentir mais confortável e ter a sua própria iniciativa. Muitas das pessoas que ficam hospedadas no Racing Mackerel Hostel gostam de se sentir em casa, ter o seu espaço e privacidade, sem ter que ser «super sociais». Outras viajam em pequenos grupos com tudo já organizado e, como tal, não se reúnem com desconhecidos. Bianca admitiu que têm trabalhado com «voluntários incríveis, capazes de dar ao hostel um ambiente amigável e que têm feito refeições em conjunto todas as noites ou organizado passeios com outras pessoas».

Para o hostel são várias as vantagens de trabalhar com voluntários. A gerente mencionou que os hóspedes se sentem mais confortáveis e seguros ao saber que dispõem de funcionários 24 horas por dia disponíveis para os auxiliar no que for necessário. Para Bianca e Tiago, é também uma garantia poder confiar na responsabilidade e profissionalismo dos colaboradores com quem trabalham. Estão convictos de que serão de imediato informados, caso surja algum inconveniente, independentemente do horário.

Quem se envolve nesta experiência desfruta de benefícios não só pessoais como também profissionais. Para além de «conhecer pessoas de todos os cantos do mundo que provavelmente até nunca imaginaram», muitos apaixonam-se por Portugal e podem ainda compreender como se administra um negócio de família. As opções para aproveitar o tempo livre são inúmeras: para além de se estar perto da praia e da cidade, os gerentes aconselham ainda que se alugue uma scooter ou um carro, para ficar a conhecer o Algarve: «É uma região linda e é tão importante que os voluntários a vejam por completo, não apenas Lagos».

Os voluntários:

Um francês, estudante de engenharia, videógrafo nos Moinhos Velhos

Raphael Jaafari tem 22 anos, é francês e estudante de mestrado em engenharia. Os seus interesses passam por cinema, fotografia e viagens. A vontade de viajar durante um mês, com um custo reduzido, levou-o a explorar várias opções. Consequentemente, a melhor pareceu-lhe fazer voluntariado. O que o permitiu trocar algumas horas de trabalho diário por alojamento, sem um valor monetário adicional, acabando por ficar cerca de um mês e meio em Lagos.

Não foi o seu primeiro contacto com esta prática. Há já cerca de um ano que Raphael tem passado por outras semelhantes, o que o deixou com o intuito de, num futuro próximo, repetir. As tarefas exercidas, bem como as horas de trabalho diário, variam consoante a posição a que os voluntários concorrem, explicou. No seu caso, ajudou a criar um curso online: «Filmei muito conteúdo, desde aulas de ioga a conselhos de saúde e preparação de sumos naturais. Fazia cerca de 15 horas de trabalho por semana».

Viver com desconhecidos foi, para si, «realmente incrível», devido à possibilidade de trocar ideias e conviver com pessoas de diferentes idades e nacionalidades, vindas de várias partes do mundo. Não se trata apenas de partilhar o espaço, como também de viver em comunidade, o que o estudante acredita que «abre a mente e é bastante gratificante e enriquecedor».

A adaptação a um novo meio, nas suas palavras, depende de pessoa para pessoa. Contudo, é um processo que considera fácil e rápido, levando apenas alguns dias. O facto de serem alguns voluntários ao mesmo tempo, e todos estarem disponíveis para ajudar, torna o ambiente mais agradável e confortável. As refeições são feitas em conjunto, o que o estudante vê como algo positivo, visto que proporciona um momento de convívio e debate. No entanto, ocasionalmente, gosta também de fazer as suas refeições sozinho.

Moinhos Velhos foi a propriedade que o acolheu como se fosse um «pequeno paraíso no meio do nada, à parte do resto do mundo, com energia revitalizante». Neste local os voluntários deparam-se com uma abordagem holística, mesmo os que não estão familiarizados com o tema aprendem sobre ele. Quando começou, Raphael tinha como objectivo encontrar lugares que o permitissem conciliar voluntariado com a criação de conteúdos. Posto isto, a escolha deveu-se a um interesse mútuo: a propriedade estava à procura de um videógrafo.

Esta é uma prática que aconselha vivamente dado que, nas suas palavras, possibilita uma partilha diária de vivências e conhecimentos entre pessoas distintas e dá oportunidade aos voluntários de estarem mais próximos do meio ambiente. Para os voluntários que optem por viver esta aventura, Raphael recomenda que, nos tempos livres, partam não só à descoberta das praias «maravilhosas» do Algarve, como também da própria cidade de Lagos. Perto do local onde ficou existem trilhos para fazer caminhadas. Aconselha a que se façam «especialmente os que se situam à volta do lago».

Uma britânica, que se mudou para Lagos, foi horticultora na quinta The Herbal Path

Lauren Morris, tem 33 anos, nasceu no Reino Unido, licenciou-se em Business [negócios] e vive em Lagos desde dia 1 de Agosto de 2020. Tem vários passatempos desde jardinagem orgânica e cultivar a própria comida a cursos de meditação, workshops, festivais, natação selvagem, caminhar pela floresta e criptomoeda. Gosta de animais, de conduzir a sua caravana pela costa, cozinhar, viajar, acampar, fazer fogo à noite, explorar novos lugares, conhecer pessoas e fazer voluntariado.

Interessa-se pela troca de trabalho corporal, cura energética e emocional com amigos e criação de um espaço de cura próprio. Bem como por astronomia, astrologia e contemplação da lua, tarot, protestos ambientais globais relacionados com a extinção e consciencialização das mudanças climáticas. Fazem também parte dos seus interesses arte e design, nutrição, dieta baseada em plantas, vegetarianismo, comida macrobiótica, ecoterapia, natureza, flores selvagens e herbalismo. Lauren é uma pessoa inclusiva e mente aberta a temas como: espiritualidade, sexualidade, comunidades, modos de vida alternativos, trabalho corporal somático, criatividade, budismo, tantra, esotérico e permacultura.

Em Julho de 2020, deixou Berlim, na Alemanha – cidade onde vivia – para seguir o seu sonho de residir em Portugal, se dedicar à permacultura e integrar projectos e comunidades autónomas. A impossibilidade de circular durante o primeiro confinamento e a vontade de fazer algo em que não estivesse condicionada a estar fechada, levou-a a pesquisar por cursos de herbalismo medicinal e jardinagem orgânica online. No entanto, com a condição de economizar dinheiro em alojamento e comida, visto que a pandemia a deixou sem rendimentos durante vários meses. Tinha já feito voluntariado, por um longo período na natureza que rodeia a cidade de Lagos, e optou por fazê-lo novamente.

A primeira experiência deste género que teve foi há 7 anos, numa quinta orgânica, em Espanha. O contacto com esta prática mostrou-lhe que seria possível encontrar oportunidades económicas enquanto viajava e, em simultâneo, melhorar as suas habilidades em trabalhos práticos. Como gosta de novas aprendizagens e de contribuir para a comunidade local, desde o ano de 2014 que participa em intercâmbios em diversos países como Espanha, Grécia e, maioritariamente, Portugal. Tendo já presenciado voluntariado em diferentes lugares, recordou que as actividades variam consoante os lugares. Porém em todos admite que geralmente é expectável que os voluntários sejam responsáveis por cozinhar e limpar os espaços comuns. No The Herbal Path trabalhava por volta de 5 horas por dia, sobretudo na horta, o que envolvia: remoção de ervas daninhas; troca de plantas, tanto entre vasos como dos vasos para a terra; colheita de flores selvagens e rega dos canteiros. «A quinta Melilotus introduziu-me novas flores e ervas locais sobre as quais eu não sabia muito antes», contou.

Quanto a viver com desconhecidos, é já algo a que está habituada, em virtude de viajar bastante e não ter uma casa permanente há cerca de 15 anos. «Normalmente tenho uma sensação precisa em relação às pessoas antes de conhecê-las, o que ajuda», explicou.

Conhecer pessoas novas frequentemente levou-a a respeitar os limites e a necessidade que cada um tem de ter o seu espaço pessoal. Admitiu que se pode aprender muito através de conversas com pessoas fora do círculo de amigos, já que estas serão provavelmente distintas das que estamos habituados. O único inconveniente que aponta é que «muitas vezes não se descontrai totalmente como quando estamos na presença de amigos e família e isso, por vezes, cansa-nos».

Para Lauren, o tempo de adaptação é curto. Apesar de no início não se sentir confortável, passado uma semana encontra logo motivos para aproveitar o lugar onde está. The Herbal Path disponibilizou-lhe um quarto completamente privado, separado dos espaços comuns – o que a agradou imenso pois várias vezes, enquanto voluntária, teve que partilhar quarto. Desfrutou da sua rotina enquanto esteve na quinta. Durante a semana começava a trabalhar pelas 9:00 horas, até à hora de almoço, e apenas uma hora da parte da tarde. O resto do tempo, tal como aos fins-de-semana, estava livre para aproveitar como melhor lhe parecesse.

Considera que tem consciência das suas necessidades pessoais e acredita ser «auto-responsável e independente». Comentou que esta forma de trabalho estava de acordo com o que pretendia e que o maior desafio, de viver e trabalhar com pessoas novas, é «aprender a compreender os outros e encontrar uma maneira de comunicar com eficácia». Opta por se alojar rodeada de natureza, de forma a que o ambiente a permita usufruir do seu «próprio espaço nas árvores, flores e plantas», o que confessa ser «muito regenerador e recarregável». Acredita que é benéfico para a sua saúde mental, emocional e espiritual. Por esse motivo decidiu fazer ecoterapia, para ajudar os outros a também «se reconectarem com o mundo natural».

Na quinta, as refeições podem ser feitas individualmente ou em grupo. Apesar de apreciar ambos, cozinhava e comia, na maior parte das vezes, sozinha. Na sua opinião, cozinhar em conjunto pode ser uma «óptima experiência», que proporciona a partilha de conhecimentos e diversão. Voluntariado em quintas orgânicas é recomendado por Lauren para quem pretende passar algum tempo no exterior e aprender mais sobre a natureza. Clarifica que não é uma alternativa a um trabalho remunerado ou uma solução para problemas económicos: «Tem que se estar realmente interessado em fazer a diferença no ambiente e gostar de trabalho prático».

Refere que quem se preocupa com as alterações climáticas, muitas vezes, se sente «desamparado e impotente». Na sua óptica, quem escolhe não contribuir para o capitalismo, rejeita o sistema actual e o medo que «é imposto», tem mais tempo e energia para participar em projectos que visam um mundo mais harmonioso e solidário. Entende igualmente que «é possível retribuir ao ecossistema e aprender como conectar profundamente com as plantas e animais ao nosso redor, bem como com a medicina e a cura que eles nos fornecem». Reconheceu que nesta quinta, em particular, se pode ficar a conhecer as condições certas para diferentes espécies de plantas e ainda como estruturar o próprio jardim.

Confessa que esta prática possibilita que quem se envolve se sinta mais calmo e livre das restrições do quotidiano. A voluntária contou que quem passa pelo The Herbal Path pode contar com noites bem dormidas, boa alimentação e trabalho diário rodeado de um ambiente «lindo e agradável». Sugere que se opte pelas estações de Primavera e de Outono, sendo que aponta as condições do Verão e Inverno como desagradáveis para se trabalhar no exterior. Embora na quinta existisse água quente e um aquecedor, revela que «infelizmente» muitos locais não fornecem estas condições. Aconselha a que se tenha em consideração que nestes casos «nos iremos sujar» e se deve «esquecer os luxos a que estamos habituados». Por fim, comentou que, pessoalmente, gosta de utilizar uma casa-de--banho de compostagem, sabendo que «os resíduos irão dar continuidade ao ciclo e ajudam as plantas a crescer».

Recomenda que se aproveite o tempo de lazer em Lagos para praticar surf, fazer caminhadas costeiras ou simplesmente ir à praia. Nas horas vagas, e para quem gosta de ler, afirma que são vários os livros disponíveis nas quintas. Deixa o conselho de descansar e relaxar na natureza e, ainda, passar um fim--de-semana num lugar distinto. Referiu que existe também a opção de explorar outros projectos locais criados por vários estrangeiros, que se mudam para Portugal com o sonho de criar um futuro melhor.

Um sociólogo argentino foi recepcionista no Racing Mackerel Hostel

Lautaro Dayan, tem 29 anos, é natural da Argentina, mas de momento, vive no Uruguai. Para além de jornalista, licenciou-se em sociologia. Os seus interesses passam por turismo, economia solidária, mergulho e viagens. Gosta de jogar futebol, xadrez, cozinhar e praticar diferentes idiomas. Embora conte já com cinco voluntariados em diversos países – como Espanha, Itália, Hungria e Portugal – o primeiro foi em Lagos.

Estabeleceu contacto com Racing Mackerel Hostel, através de uma aplicação para viajantes, que o permitiu chegar a um consenso em relação ao que pretendia e ao que seria expectável por parte da entidade que o iria acolher. Como anteriormente tinha já trabalhado na área de turismo, compreendeu os requisitos para ingressar no hostel e a dinâmica do trabalho.

A ideia de integrar a iniciativa surgiu enquanto viajava. Ficou a conhecer esta opção quando estava no Sudeste Asiático. Reparou que existiam muitos jovens que faziam voluntariado, de forma a prolongar as viagens e conseguiam até alguns descontos em diversos locais. Há cerca de nove anos, Lautaro começou a construir um Bed and Breakfast, que é agora a sua ocupação a tempo inteiro. Em 2018 começou a fazer voluntariado em vários lugares do mundo para experienciar o ambiente em diferentes países. Tinha como objectivo explorar a gestão hoteleira, tendo em conta as variantes existentes a nível geográfico e cultural: «Alegro-me por poder dizer que foi uma das melhores ideias que tive na minha vida porque tanto a aprendizagem como as experiências foram extremamente enriquecedoras».

As actividades dos voluntários dependem da forma como o hostel se organiza. As opções mais comuns são por função desempenhada ou por turnos e podem variar entre 4 a 6 horas diárias. No primeiro caso, que foi o de Lautaro em Lagos, são atribuídas tarefas a desempenhar. Ficava encarregue do check-in, o que incluía inserir os dados no sistema, mostrar as instalações e dar a conhecer as regras do local. Enquanto isso, outra voluntária fazia o serviço de quartos e pequenos-almoços. Quando a organização é feita por turnos, a função de cada um depende da hora do dia em que estão a trabalhar. Por exemplo, quem trabalha de manhã fica encarregue de receber os hóspedes. Os funcionários que ficam com o turno do meio-dia têm à sua responsabilidade a limpeza dos quartos. Por fim, quem integra o turno da noite tem como função realizar tarefas recreativas com os hóspedes e fazer com que as horas de silêncio sejam respeitadas. Embora deste modo todos os voluntários e funcionários tenham oportunidade de trabalhar de forma rotativa, tanto em termos de horário como de tarefas, Lautaro acredita que exige um maior nível de organização e de voluntários.

Viver com desconhecidos, ainda que por um período temporário, é, na óptica do voluntário, gratificante: «Rapidamente se encontra pessoas com quem fazer amizade e compartilhar algo (…) amizades que depois se poderão encontrar em qualquer parte do mundo». Referiu que embarcar em voluntariado requer que se esteja aberto a interagir com outras pessoas, tanto em ambiente profissional como de lazer. Portanto, sugere que haja sempre comunicação e ajuda entre colegas, para que a convivência entre todos seja mais agradável. Lautaro crê que a energia entre voluntários é transmitida para os hóspedes. Por isso, tenta sempre relacionar-se o melhor possível com quem o rodeia, ajudar no que for preciso e demonstrar confiança.

No processo de adaptação estão envolvidos outros voluntários e os anfitriões do local, que são quem dá a conhecer o espaço, as tarefas a desempenhar e, por vezes, a cidade mais próxima. Sugere que, quando se realiza voluntariado num país que não o de origem, se leve algo característico de onde somos como um gesto de agradecimento. Recomenda também que, antes de viajar, se leia as avaliações e comentários acerca do lugar escolhido, por parte de quem já lá esteve, para evitar surpresas desagradáveis: «Esta informação adicional é muito importante para saber para onde vais e o que poderás encontrar ao chegar».

O voluntário partilhou que as diferenças culturais, que para muitos representam uma dificuldade, para si são uma oportunidade para conhecer outros costumes e tradições e que aproveita este contacto para ficar a conhecer novas histórias e idiomas. Mencionou ainda que viver com pessoas de todo o mundo põe à prova os preconceitos de cada um, acerca de outros países e nacionalidades, que são formados apenas através dos meios de comunicação.

Para Lautaro fazer as refeições em conjunto é um momento que proporciona aprendizagem de cada cultura. Apesar de gostar de cozinhar e fazer comida para todos, desfruta também da possibilidade de aprender hábitos alimentares e cozinhas de diferentes países. Como é vegetariano, muitas vezes tem que ser criativo e adaptar os pratos feitos com carne ou mesmo dar novas ideias. Para proceder à escolha do local e das actividades, acredita que é importante manter uma comunicação «clara e sincera desde o início», para que ambos correspondam às expectativas. Primeiramente, o sociólogo expôs a sua formação e expressou as capacidades e limitações que admite ter. Reflecte que «é importante ser-se sincero para não aceitar um trabalho que não se tenha capacidades e evitar momentos menos bons».

A escolha do lugar é, na sua óptica, pessoal. Elegeu Lagos, devido ao clima, ao desejo de conhecer as praias portuguesas e praticar a língua portuguesa. Acrescenta que os objectivos de cada um são importantes e deve ser tido em consideração que a dinâmica dos lugares varia consoante época alta ou baixa, assim como a quantidade de pessoas presentes e de tarefas. Aponta como maior vantagem desta experiência o facto de ser económica: não só poupou bastante durante um mês, sem quaisquer despesas de alojamento, como também ao dividir comida, alugar um carro em conjunto e partilhar viagens com outros voluntários ou hóspedes.

«Se a ideia é fazer uma viagem de média ou longa duração, fazer voluntariado é uma grande forma de o fazer», garante. À parte de vantagens monetárias, mencionou ainda vantagens sociais e culturais: como fazer amigos de lugares que nunca se imaginou, visitá-los mais tarde e até contactá-los caso se tenha conhecimento da necessidade de voluntários noutro sítio. Julga que «há uma vantagem enorme em conhecer pessoas, tão simples como isso», quem conheceu ajudou-o durante a viagem, recomendou-lhe lugares para visitar, hosteis onde ficar e a melhor forma de chegar. Por fim, concluiu que: «A facilidade de fazer amigos é uma das maiores vantagens que a vida num hostel pode oferecer».

Chegou a Lagos através de um amigo que lhe disse que a cidade se parecia à que ele vive no Uruguai – La Pedrera – e comprovou-o depois de cá estar. Veio no final do Verão, quando a agitação tinha já passado, a quantidade de trabalho era menor e as pessoas estavam mais tranquilas. As praias «lindas», a paisagem rochosa com falésias «espectaculares» e os pores-do-sol «mágicos» que assistiu são algumas das recordações que leva consigo «com muito carinho». «Trabalhar como voluntário em Lagos foi maravilhoso», desvendou.

Sentiu ainda um ambiente «muito especial» nos bares e hosteis em que esteve, o que o deixou com vontade de um dia regressar.

Em conclusão, deixa um conselho a quem pretende ingressar nesta iniciativa: antes de viajar conhecer o ambiente e o lugar para onde se pretende ir. Se for feita num hostel, aconselha a que se explore e estude lugares para que se possa dar «boas» recomendações aos hóspedes e aproveitar a beleza do sítio ao máximo. Sugere, por fim, que se construam amizades porque «as pessoas farão uma diferença enorme na experiência. Compartilhar a felicidade com outras pessoas é uma das coisas mais bonitas de viajar».

Beatriz Maio