As grutas da Ponta da Piedade, em Lagos, são uma das principais atracções dos turistas que visitam a cidade

Empresas Marítimo-Turísticas

Vários foram os sectores afectados ao longo do último ano, inúmeras foram as empresas que se viram obrigadas a fechar e a deixar de prestar os seus serviços aos clientes. O coronavírus levou à impossibilidade de praticar diversas actividades. Lagos viu cancelados os cruzeiros e passeios de caiaque, bem como adiada a observação de golfinhos e as visitas diárias às grutas da Ponta da Piedade, que recebiam visitantes de todo o mundo.

Neste sentido, o sector marítimo-turístico foi dos mais prejudicados pela pandemia que se alastrou em todo o país. As empresas do ramo trabalhavam maioritariamente com turistas e, em Março de 2020, não tiveram opção de continuar em funcionamento, tendo até hoje operado por períodos descontínuos. Em Junho do ano passado foi possível retomar a actividade, que se manteve até ao mês de Outubro. Este ano, apenas em Maio voltaram novamente a receber clientes.

Nesta edição, a Revista contactou com diferentes empresas e funcionários, de forma a partilhar como tem sido a experiência de quem viu adiado o seu negócio e esteve impedido de trabalhar.

Na Ponta da Piedade, em Lagos

A «Costa D’oiro» é uma empresa familiar, sediada em Lagos

Costa D’oiro

É uma empresa familiar, sediada em Lagos, que visa proporcionar momentos de descontracção e contacto com a natureza.

Os passeios marítimos destinados à visita das grutas partem da Marina de Lagos e do Porto de Pesca em direcção à Ponta da Piedade, percorrendo a costa da cidade. A empresa oferece ainda a possibilidade de pesca – visto que Lagos usufrui de uma costa rica em pescado –, bem como a hipótese de alugar uma embarcação, permitindo que os clientes possam fazer o seu próprio programa. São três as embarcações que servem de transporte aos vários passeios disponíveis: “Costa Ouro”, “Costa D’Oiro I” e “Costa D’Oiro II”, duas equipadas com 12 lugares e outra com 8, respectivamente. A primeira foi construída no ano de 1958 para a pesca. Em 2007, foi totalmente adaptada à actividade marítimo-turística, dispondo agora de um amplo espaço livre, bancos avante e à ré, estes últimos cobertos por um toldo. A “Costa D’Oiro I” é uma versão catamarã, com o intuito de proporcionar conforto e segurança aos passageiros. Dispõe de acesso mais fácil ao mar e cumpre as normas de combate à poluição. A “Costa D’Oiro II” é a mais pequena, dispõe de medidas para entrar com facilidade dentro das grutas, tendo também em vista o bem-estar dos clientes e a preocupação com o meio ambiente.

Ana Cristina Rio nasceu em 1966 na cidade de Portimão. Aos 35 anos, mudou-se para Lagos após casar com um lacobrigense. Dos 22 aos 40 anos, trabalhou no Centro de Assistência Social Lucinda Anino dos Santos (CASLAS), onde desempenhava funções de Auxiliar de Educação. Deixou esta profissão para embarcar num novo projecto de que ainda hoje faz parte, aliando o facto de «poder trabalhar no mar» com o de «poder mostrar a grande beleza da costa da cidade», que agora considera sua.

Actualmente é Sócia-Gerente da empresa Costa D’oiro que se situa na Marina de Lagos. Cristina reflectiu as consequências de que esta actividade profissional tem sido alvo há já mais de um ano: «Com a chegada deste novo vírus a nossa actividade sofreu um grande revés», constatando «uma redução na ordem dos 70%».

«Tem sido importante o apoio do Estado, mas infelizmente não foi possível manter os postos de trabalho»

Inicialmente, a Costa D’oiro teve necessidade de recorrer às poupanças para fazer face às despesas, tanto em ordenados como encargos fiscais. Contudo, não foi suficiente para pagar aos quatro colaboradores que estavam em lay-off, sendo necessário recorrer aos fundos de apoio do Governo: «Tem sido importante o apoio do Estado, mas infelizmente não foi possível manter os postos de trabalho».

A esperança assenta agora nas restrições mais leves, na reabertura de Portugal a turistas e na vacinação, acreditando que, deste modo, a actividade recuperará rapidamente. Neste momento a prioridade é consolidar as finanças da empresa, já que, nas palavras da Gerente, os «próximos tempos não serão favoráveis a grandes investimentos».

Acredita que as medidas impostas ao sector são necessárias, «sendo importante valorizar a segurança tanto para turistas, como para colaboradores», esta nova temporada é encarada com ânimo uma vez que existem já reservas, o que a leva a crer que será favorável. As expectativas de Cristina para o Verão «são muito boas», na sua óptica «as pessoas estão fartas de estar confinadas e com grande vontade de liberdade e natureza».

Passeio às grutas com «Bom Dia Boat Trips»

A empresa «Bom Dia Boat Trips» iniciou a sua actividade, em 1980, em Lagos

Bom Dia Boat Trips

O negócio surgiu em Lagos no ano de 1980, com o intuito de preservar os veleiros históricos e tradicionais portugueses. Dispõe de quatro diferentes passeios com durações distintas, entre os quais: cruzeiro na Baía de Lagos, ao longo de 4 horas; viagens às grutas, com possibilidade de escolha entre 1:15 ou 2 horas; observação de golfinhos, durante 1:30 horas e passeios de caiaque, feitos em 2:15 horas. São três as embarcações com as quais trabalha: “Bom Dia Lagos”, “Falcão Veloz” e uma Frota de Barcos, direccionados a diferentes experiências.

“Bom Dia Lagos” foi construída por volta de 1955, em Setúbal. Inicialmente era utilizada para transporte de sal em rios e zonas costeiras, mas no ano de 1978 foi remodelada para utilização turística. Conta já com 40 anos de actividade na Baía de Lagos. “Falcão Veloz”, muitas vezes companheiro de navegação do barco anterior, foi construído em 1922 para a pesca, também em Setúbal. No ano de 1980, foi adaptado para passeios turísticos, quinze anos mais tarde integrou a frota Bom Dia Boat Trips. A empresa opera uma frota de nove barcos destinados aos passeios nas grutas com duração de 1:15 horas. A quantidade de barcos possibilita que a oferta de horários seja mais regular e até personalizada.

Carolina Basto nasceu em Cascais no ano de 1991. Aos 8 anos veio viver para Lagos, onde reside até hoje. Começou o seu percurso profissional como Guia Turística nos barcos e actualmente é Gerente de Escritório da empresa Bom Dia Boat Trips, situada na Marina de Lagos.

Bom Dia Boat Trips apenas retomou a sua actividade em Maio, mas, de acordo com a trabalhadora, «com alguns entraves».

O sentimento relativo a este recomeço é de confusão e incerteza, na perspectiva da Gerente, «tanto para quem quer viajar, como para quem quer receber os turistas». Não encara este momento como o início de um novo período para o sector marítimo-turístico, mas como uma extensão do que se vivenciou no ano de 2020.

«Tem sido uma ajuda preciosa [do Estado] pela qual estamos muito agradecidos»

Devido ao apoio financeiro que a empresa tem recebido por parte do Estado, tem sido possível suportar os gastos, tanto da entidade como dos colaboradores: «Tem sido uma ajuda preciosa pela qual estamos muito agradecidos», reflecte Carolina.

Para si, o balanço do último ano «não foi negativo», contudo realça que a empresa enfrenta prejuízos, consequência de custos fixos de operação, manutenção e armazenamento.

Na perspectiva de Carolina, as despesas têm sido alvo de «boas práticas de gestão», o que se junta ao facto de a empresa ser «bem estabelecida na área», embora não existiam ainda reservas futuras.

Ao contrário da Costa D’oiro que, quando parou já não tinha reservas, a Bom Dia Boat Trips tinha já anteriormente agendadas visitas por parte de clientes aos quais se viu obrigada a devolver o dinheiro, dada a impossibilidade de laborar. A concordância com as medidas impostas neste sector é distinta entre as duas empresas, a Gerente de Bom Dia Boat Trips não partilha a opinião de que estas estejam a ser bem aplicadas.

Days of Adventure mostra não só a costa de Lagos como a do Algarve

Days of Adventure realiza passeios até às grutas da Ponta da Piedade ou Benagil, bem como observação de golfinhos

Days of Adventure

É uma empresa marítimo-turística, com dois escritórios, um situado na Marina de Lagos e outro na Avenida, que tem como objectivo dar a conhecer a costa tanto da cidade de Lagos como do Algarve, de forma segura e confortável, e possibilitar actividades marítimas.

Realiza passeios de barco até às grutas da Ponta da Piedade ou Benagil, bem como observação de golfinhos. Dispõe ainda de caiaques e serviço de táxi aquático entre Lagos e Alvor.

São doze as embarcações de que a empresa usufrui: duas lanchas rápidas, quatro catamarãs e seis barcos pequenos, em que a ocupação varia de nove a cinquenta e cinco lugares. A duração dos passeios, que podem ser feitos em privado ou em conjunto com outros clientes, vai desde 1:15 a 2:30 horas, sendo possível optar por 1:30 ou 2:00 horas.

Guilherme Vaz nasceu em Lagos em 1998 e licenciou-se em Pilotagem, na Escola Superior Náutica Infante D. Henrique, em Paço de Arcos. Desde estudante que trabalha como Skipper em empresas marítimo-turísticas, quando terminou o curso embarcou num navio cruzeiro para terminar a formação como Oficial de Marinha Mercante. A Covid tem sido um entrave na sua carreira: devido ao Estado de Emergência em que o país se encontrava, Guilherme viu-se impedido de colocar em prática toda a teoria que aprendeu nos últimos anos. De momento, com a retoma da actividade no mês de Maio, ocupa o cargo de Skipper na empresa Days of Adventure.

O balanço que faz do ano de 2020 em nada se compara ao do ano anterior. Porém, os funcionários desta empresa consideram que este será um ano «um pouco melhor do que o anterior» devido à vacinação e às medidas de segurança impostas, concordando com as restrições importas ao sector desde o início da pandemia.

«Neste momento estamos só à espera para ver como vai correr, vivendo um dia de cada vez»

De acordo com Guilherme, as reservas vão aumentando, mas relembra que, muitas das vezes, os passeios turísticos são espontâneos. A esperança de que tudo irá melhorar e a positividade estão na base das expectativas do Skipper para o período de Verão: «Neste momento estamos só a espera para ver como vai correr, vivendo um dia de cada vez».

À semelhança da Costa D’oiro, Days of Adventure não teve necessidade de reembolsar clientes com reservas já marcadas. Ainda que os apoios monetários do Estado contribuam para as despesas da empresa com os colaboradores, existem outros custos que não têm sido suportados.

Embora nos últimos meses este seja um sector sem retorno financeiro, na empresa para a qual o Skipper trabalha «têm sido feitos investimentos para melhorar e tentar oferecer algo mais aos futuros clientes». Ainda não se abordam eventuais prejuízos que poderão surgir, visto ser necessário comprovar no decorrer do ano se «todo o tempo e dinheiro gasto terá valido a pena».

Em conclusão, o balanço feito deste sector no último ano não tem sido positivo. A actividade ficou suspensa, mas as despesas e responsabilidades mantiveram-se. Nem todas as empresas conseguiram responder a estes encargos, o que resultou em consequências negativas como o despedimento de funcionários.

Mesmo após uma experiência pouco favorável a diversos níveis, as expectativas futuras de quem faz parte deste meio são promissoras. O ânimo e a vontade de trabalhar levam a que os profissionais depositem esperança num futuro risonho, que, em conjunto com as medidas de saúde impostas, permitirá trabalhar em segurança e viver um Verão proveitoso.

Beatriz Maio

Bom Dia Boat Trips

Costa D'Oiro

Days of Adventure