Lagos, dia 27 de Abril de 1974 (Foto: Osvaldo Montes)

Lagos, dia 27 de Abril de 1974 (Foto: Osvaldo Montes)

Lagos, dia 27 de Abril de 1974 (Foto: José Rosa)

Lagos, dia 27 de Abril de 1974 (Foto: José Rosa)

O 25 de Abril hoje

Por quem nasceu após a Revolução de 1974

Celebra-se a 25 de Abril o 47º aniversário da Revolução que ficou conhecida como a «Revolução dos Cravos», ou, mais simplesmente, pela «Revolução de Abril». Neste feriado, que é o «Dia da Liberdade», recorda-se o movimento militar, político e social que depôs o regime ditatorial português, que estava no poder desde 28 de Maio de 1926, primeiro chefiado por António de Oliveira Salazar e depois por Marcello Caetano que, no conjunto, exerceram os cargos de Presidentes do Conselho durante quase 48 anos.

A acção militar que pôs fim à ditadura foi executada pelo Movimento das Forças Armadas (MFA), contou com forte apoio popular, e nesse dia levou à rendição e destituição de funções do Presidente do Conselho (Marcello Caetano) e do seu Governo, bem como do Presidente da República, Américo Thomaz. Os objectivos programáticos do MFA eram Democratizar, Descolonizar, Desenvolver (processo que veio a ficar conhecido como os três «D»).

Primeiro «D: Democratizar»: Hoje, Portugal é um país democrático. Desde 1976, Portugal tem uma Constituição que consagra Direitos, Liberdades e Garantias aos cidadãos. Pelo voto universal, secreto e directo, os cidadãos podem eleger com toda a liberdade os titulares aos órgãos do Poder Central e Local. Acresce que há liberdade de pensamento e de Imprensa, de reunião e de associação.

Segundo «D: Descolonizar»: Deu-se a Descolonização das então chamadas Províncias Ultramarinas Africanas (Guiné, Cabo-Verde, Santo Tomé e Príncipe, Angola e Moçambique), num processo controverso e que marcou o fim da chamada «Guerra Colonial», na qual terão morrido cerca de 9 mil soldados portugueses e 20 mil terão sido feridos ou ficado com deficiências físicas e psíquicas.

Terceiro «D: Desenvolver»: Portugal «Desenvolveu-se». A título de exemplo, registe-se que a taxa analfabetismo é cinco vezes menor do que a registada em 1974, que a mortalidade infantil caiu do triplo da média europeia para um valor um pouco abaixo desse valor. Foi implementado no nosso país um Serviço Nacional de Saúde que independemente das suas muitas carências e dificuldades não existia antes da Revolução de Abril. Existe Segurança Social, há saneamento básico, há estruturas culturais e desportivas, há uma rede viária moderna e muitos outros indicadores que o demonstram.

Objectiva e friamente, poderá ser justo dizer-se que no período de tempo que decorreu de 1974 até hoje terão sido cometidos «erros» de governação. Por esta razão, Portugal poderá ainda não ter alcançado os topos dos indicadores de progresso almejados por um país que se espera e deseja desenvolvido. Contudo, este país não é, de todo, em nada comparável ao atrasado e retrógado que existia antes da Revolução de 25 de Abril de 1974.

Nesta edição da Nova Costa de Oiro, mais do que recordarmos os acontecimentos que tiveram lugar em 25 de Abril de 1974, bem como aqueles que os protagonizaram, quisemos registar as opiniões de quatro cidadãos, quatro pessoas que nasceram após a Revolução.

O que conhecem do Portugal de antes da Revolução e o que terá mudado no nosso país nestes 47 anos? O que pensam das celebrações oficiais desta data? Poderiam estas ser diferentes? Se sim, como?

Para tal, em lugar de entrevistas formais, optámos por deixar a conversa fluir calma e livremente, com tempo e sem ameias. Assim, como se quer a celebração do Dia da Liberdade.

Vamos saber o que pensam sobre o 25 de Abril o Tiago Custódio, a Teresa Rio Pacheco, o Frederico Bravo e a Marta Alexandra Nunes.

Tiago Custódio, tem 16 anos e é estudante em Lagos

Tiago Custódio reside no concelho de Vila do Bispo

Tiago Custódio tem 16 anos (celebrará 17, em Agosto). Nasceu e reside no concelho de Vila do Bispo. Estuda Ciência e Tecnologia, em Lagos.

A conversa com o nosso interlocutor iniciou-se pelo significado e importância que têm os Feriados Nacionais associados a datas marcantes da História de Portugal, casos do 1º de Dezembro (Restauração da Independência, 5 de Outubro (Implantação da República) e 25 de Abril (Dia da Liberdade), bem como o que poderão representar para si e para outras pessoas da sua idade: «Encaramos os Feriados Nacionais como se fossem umas mini-férias, o ficarmos em casa, e não tanto como o que realmente representam. São encarados mais como um mero dia de descanso». Tiago Custódio estudou-os no 3º e 4ºs anos, mas adianta que actualmente esta temática já não integra o currículo da sua área de estudos.

Quanto ao 25 de Abril, diz que este «é um Feriado muito importante, porque representa a Liberdade e a Liberdade de Expressão é extremamente importante. Hoje em dia temos essa Liberdade, mas nem sequer pensamos no que foi preciso para chegarmos aqui. Então, acho que é muito importante que o relembremos neste dia».

Como era a vida antes do 25 de Abril, quisemos saber? «Na Escola não estudámos muito a fundo. Havia muito pouca Liberdade, não podia haver ajuntamento de pessoas (“engraçado” que hoje em dia também é mais ou menos assim, mas por razões diferentes [risos]). Havia a PIDE e as pessoas não podiam manifestar opiniões contrárias [ao regime]).

Na Escola nunca informaram o nosso interlocutor que desde 1936 e até 01 de Maio de 1974 (na sequência da Revolução de 25 de Abril), existiu o Campo de Concentração do Tarrafal, que ficou conhecido pelo «Campo da Morte Lenta», localizado na aldeia de Chão Bom, no Concelho de Tarrafal, na ilha de Santiago, em Cabo Verde.

Tão pouco lhe disseram na Escola que entre 1936 e 1954, passaram pelo «Campo da Morte Lenta» 340 presos políticos portugueses, dos quais 32 aqui morreram (37, no total). Nem que em 1954, mediante a pressão internacional de que foi alvo, o regime fascista encerrou o campo, que foi reactivado em Junho de 1961, por Adriano Moreira, então ministro do Ultramar. A Escola também não informou Tiago Custódio nem os seus colegas que entre 1962 e 1974, o Tarrafal recebeu 236 presos africanos. «Não, não me foi passada essa informação; não sabia», confirma.

Quanto às eleições que se realizavam para a Assembleia Nacional (hoje, Assembleia da República) antes do 25 de Abril de 1974, Tiago Custódio sabe que «Estas eram fraudulentas. Ganhava sempre quem estava no Poder».

A Guerra Colonial surge raramente nas conversa com os seus avós que estiveram no Ultramar. «De vez em quando, o assunto surge. Pelo que me contaram, houve muitas mortes, foi má como todas as guerras, mas que poderia ter sido evitada, na minha opinião. Foi desnecessária. No seu final, ficaram felizes por voltarem para casa».

E hoje? O Tiago acompanha as Cerimónias Solenes do 25 de Abril? «Quando era mais novo, sim. Agora nem tanto, pois não vejo muito a televisão, também. Por vezes, quando os meus pais estão a ver na televisão também dou um “olhinho”, mas não muito.

Vejo-as como uma celebração da Liberdade e de nós termos conseguido sair de um período da História de Portugal que foi bastante mau. Então, acho importante celebrar».

Quanto ao formato das Cerimónias, quer a nível nacional, quer a nível local, Tiago Custódio pensa que estas «não são muito atraentes para a minha geração. Acho que este é um aspecto que deveria ser melhorado. É importante passar a História de Portugal, principalmente nestes momentos de Celebração. É uma questão de “estética”, também, porque para muitos de nós parece ser algo aborrecido. Devia ser mais estudado e ser dada mais informação».

Por último, refira-se que com a flexibilidade curricular e generalizada a todas as escolas cada agrupamento pode gerir até 25% do horário, aumentando ou diminuindo os tempos lectivos das disciplinas a partir das cargas horárias de referência definidas pelo Ministério da Educação. Com esta autonomia, a disciplina de História saiu sacrificada (in «Expresso»).

Como escreveu António Duarte, no blogue «Escola Portuguesa», «os 90 minutos semanais não permitirão ir muito além daquilo que é, na cabeça de alguns dos actuais reformadores curriculares, o saber histórico: uma sucessão de nomes e de datas, de factos isolados e mais ou menos anedóticos, um saber “enciclopédico” de decorar e deitar fora, um conhecimento ultrapassado e fora de moda na voragem da sociedade da informação e do conhecimento instantâneo do século XXI.

A verdade é que a História não é isto ou, se preferirem, vai muito para além disto. A História, mais do que o estudo do passado, é a compreensão do mundo em que vivemos. Da forma como chegámos até aqui. Das experiências de vida e do capital cultural que colectivamente fomos acumulando e transmitindo ao longo de gerações».

Teresa Rio Pacheco, de 18 anos, é natural de Lagos

Teresa Rio Pacheco é estudante de Engenharia Civil, no IST

Teresa Rio Pacheco, de 18 anos, é natural de Lagos e estuda Engenharia Civil, no Instituto Superior Técnico (IST), em Lisboa.

Começámos a nossa conversa pela forma como se celebram os Feriados Nacionais, designadamente os que assinalam momentos marcantes da nossa História comum: «Não digo que o de 1 de Dezembro, em que se celebra a Restauração da Independência, não seja importante. Mas, considero que o da Implantação da República, em 5 de Outubro, tem mais significado para mim, pois foi um acontecimento e data importantes».

Em relação ao 25 de Abril de Abril de 1974, na opinião de Teresa Pacheco, «Não sei se na minha geração se dá muita importância, ou sequer se lembra se é “25 de Abril” se, por exemplo, não o virem, na televisão».

Recorde-se que nesse dia (há cerca de 47 anos) houve um golpe de Estado militar, em Portugal. O Movimento das Forças Armadas (MFA) pôs fim ao regime político ditatorial, que esteve ininterruptamente no poder desde 28 de Maio de 1926, e que foi plasmado na Constituição de 1933, período histórico conhecido como «Estado Novo».

Os pilares da Lei Fundamental deste regime assentavam nos seguintes princípios: compartimentalizar e isentar os vários pólos de governação dos territórios Portugueses através de autonomia governamental e orçamental; estabelecer um Governo de autarcia; criar uma Assembleia Nacional de eleição nominal; dar ao Executivo o poder de legislar por força de Decretos-lei e rever a letra da lei emitida pela Assembleia Nacional; responsabilizar o Presidente do Conselho de Ministros perante o Chefe de Estado para assegurar a sua honestidade e rectidão perante a pessoa que nele investia os poderes públicos e criar uma Câmara Corporativa para permitir a representação da sociedade civil.

Para Teresa Pacheco, o 25 de Abril é uma data assinalável: «Considero que é importante. Foi uma revolução para o país, se bem que há muita gente que “passa ao lado” desta efeméride».

O que sabe sobre o «25 de Abril? «No meu caso, foi em casa, em conversa com os pais. Depois, mais tarde, estudei-o na Escola. Mas eu não sei dizer se há pessoas que só aprendem na Escola, ou não. Comigo, foi em casa, em conversa com o meu pai e a minha mãe, também porque ela é professora de História. Uma dia, eu era pequena, não me lembro que idade tinha, mas veio à conversa “o 25 de Abril”. Perguntei o que era. Fizeram-me um resumo fácil e simples quanto ao significado desta data. Mas, entender o profundo significado desta data, só o entendi mais tarde, quando o estudei na Escola».

O que se terá alterado, na sua perspectiva em Portugal, nos últimos 47 anos? «O país evoluiu, pois Salazar enriquecia-o “à custa” da pobreza das pessoas, havia uma grande miséria».

Teresa Rio Pacheco destaca, igualmente, a escolaridade como uma das substanciais alterações verificadas após a Revolução de 1974.

De acordo com a Pordata, e segundo os dados dos Censos, em 1970, a Taxa de Analfabetismo era de 25,7%, em 1981 era de 18,6%, em 1991 era de 11,0%, em 2001 era de 9,0% e em 2011 era de 5,2%. «As pessoas também tiveram direito à Escola, a aprender a ler e a escrever e isso ajudou a uma grande evolução».

Teresa Pacheco também destaca as Liberdades conquistadas pela Revolução de 25 de Abril, entre as quais as de expressão e de eleição livre e democrática, «a Liberdade de expressão e de voto.

Eu lembro-me da minha avó me contar que o pai dela recebia uma carta em casa que dizia que ele tinha de ir votar. O voto significava que ele tinha de entregar aquela carta e assim, tinha votado. Mas as pessoas não sabiam o que era! Estavam a votar no Salazar, eram obrigados em votar nele, sem saberem o que era o conceito do voto livre».

Em relação à chamada «Guerra Colonial» ou «Guerra de Libertação», (termo empregue pelos movimentos africanos que lutaram pela independência contra as Forças Armadas Portuguesas nos territórios da Guiné-Bissau, Cabo-Verde, São Tomé e Príncipe, Angola e Moçambique desde 1961 até 1974) e que terminou com o 25 de Abril, a nossa interlocutora refere que «também tive contacto com pessoas que estiveram na “Guerra”, por exemplo, o irmão da minha avó, na Guiné.

Percebo perfeitamente que aqueles países quisessem a independência, porque um país ter o poder de conseguir instalar o seu próprio Governo é muito importante».

Em relação às Cerimónias Solenes do 25 de Abril, Teresa Pacheco afirma que nunca as acompanhou integralmente: «Sei como são... Mas nunca calhou»...

«Deveriam entrevistar pessoas, perguntar-lhes o que sentiram e sentem, incluindo as mais jovens.

Claro que não digo que estas Cerimónias sejam inúteis, de todo. Mas acho que são um bocado “pesadas”... Tornam-se muito monótonas».

Até ao fecho desta edição, no site da Assembleia da República, no da Presidência da República e no da Câmara Municipal de Lagos não havia qualquer informação ou referência quanto às Cerimónias Solenes da Celebração do 47º Aniversário da Revolução de 25 de Abril para 2021.

Frederico Bravo, de 23 anos, é natural de Lagos

Frederico Bravo estuda Engenharia Mecânica na Universidade de Coimbra

Frederico Bravo, de 23 anos, é natural de Lagos e estuda Engenharia Mecânica, na Universidade de Coimbra.

De todos os Feriados Nacionais em que se assinalam datas históricas «o 25 de Abril é, para mim, é o que tem maior impacto nos jovens, é o de que se fala um pouco mais. Os outros são “dia de folga”. Não há celebrações, não se discute o que aconteceu, o que se passou; apenas o que se deu nas aulas da disciplina de História e pouco mais», diz-nos.

Já o 25 de Abril merece outra atenção. «É mais recente. Pelo menos, na minha faixa etária, foi vivido pelos nossos pais, pelos nossos avós e aconteceu há relativamente pouco tempo, ainda».

Na opinião de Frederico Bravo, esta Revolução que assinala o 47º aniversário neste mês é aprendida e apreendida de forma «diferente por cada pessoa. Eu aprendi pelas minhas avós e pais e, principalmente, na Escola.

Nas aulas de História, já na Primária, lembro-me de ter aprendido as primeiras noções.

Depois, no 6º ano, esta matéria foi-me transmitida com mais profundidade. E mais tarde, ouve-se e aprende-se mais através da televisão».

No que se refere aos acontecimentos desse dia e às consequências que esta Revolução teve para Portugal, Frederico Bravo afirma que «A Ditadura “caiu”, através do Golpe de Estado feito pelos militares, que devolveu a Liberdade e os Direitos ao Povo Português».

Frederico Bravo destaca a Liberdade de Expressão como uma das maiores conquistas da Revolução de 1974. Indicadores como a Taxa de Mortalidade Infantil, de Analfabetismo, de pobreza, entre outros, terão sido abordados de forma ligeira na Escola. Tão pouco terá havido uma abordagem, ou terão sido transmitidos conhecimentos sobre o dia-a-dia dos portugueses, antes do 25 de Abril.

Recorde-se que no Ensino Primário, os alunos e as alunas tinham aulas em escolas separadas, que não podiam conviver entre si e que todos eram obrigados a usar «bibes» brancos nas aulas. A separação entre rapazes e raparigas estendia-se às Escolas Industriais.

As professoras primárias (hoje do Ensino Básico) precisavam de autorização do Ministério da Educação para poderem casar.

O casamento era vedado às enfermeiras. Os maridos podiam ir ter com o patrão da mulher e pedirem-lhe para elas serem despedidas.

As mulheres casadas também não se podiam deslocar ao estrangeiro sem a autorização do marido, nem andarem na rua sozinhas à noite.

As raparigas não podiam usar mini-saia na escola, nem terem os braços à mostra nas salas de aula. Tão pouco podiam andar de mão dada com os namorados nem beijarem-se em público.

Os serviços de censura visavam os meios de comunicação social, seleccionavam os livros, os jornais, os discos e os filmes que as pessoas podiam ver.

As eleições não eram livres nem democráticas e não era permitido que grupos de pessoas se juntassem para debater assuntos que se relacionassem com a actividade cívica.

O regime totalitário tinha uma Polícia Política (a PIDE), que prendia e torturava os que discordavam do Governo.

E hoje, como é que Frederico Bravo vê este Dia, que importância atribui a esta data? «Para mim, o 25 de Abril é visto como um Feriado “diferente” dos outros. Sempre senti isso em minha casa, que tinha um significado muito mais poderoso do que os outros. Não acompanho as Cerimónias Solenes transmitidas pela televisão e nunca assisti presencialmente às organizadas pela Câmara Municipal de Lagos». Porquê? «Não sei, não consigo dar uma razão. Nunca fui». Será por serem «datadas», pouco «atractivas»? «Se calhar é por isso [...]...

Do Programa das Celebrações do 25 de Abril, o que recordo melhor são os concertos que se costumavam realizar, em Lagos, com artistas que seriam relevantes para a altura, acompanhado pelos meus pais.

Se calhar, se se apresentasse um espectáculo de um artista com uma mensagem relevante ao 25 de Abril seria muito mais apelativo à minha faixa etária do que um político sempre a dizer o mesmo, qual “fotocópia” do ano anterior.

É isso que todos, pensam, sinto».

E para que terá «servido» o 25 de Abril? «Serviu para muito. Serviu para devolver as Liberdades que foram perdidas, entre as quais a de Expressão, essencialmente.

Valorizo o facto de poder criticar a actuação política. Também existirem Partidos Políticos com opiniões diferentes a nos representarem na Assembleia da República, que foi uma das consequências do 25 de Abril».

Na opinião de Frederico Bravo, actualmente, os jovens não só não têm participação político-partidária, como também não manifestam interesse geral na política: «As pessoas não estão interessadas em verem as notícias nem em se educarem e instruirem em política.

Sei de muitos colegas e amigos que não têm opiniões políticas. Só agora, aos 22, 23 anos é que estão a começar a perceber que, se calhar, tem mais importância do que o que pensavam e se começam a instruir. Mas já é tarde...».

Marta Alexandra Nunes, de 28 anos, é natural de Lagos

Marta Alexandra Nunes é Licenciada em Biologia Celular e Molecular, pela Faculdade de Ciências da Universidade Nova de Lisboa

Marta Alexandra Nunes, de 28 anos, é natural de Lagos. É Licenciada em Biologia Celular e Molecular, pela Faculdade de Ciências da Universidade Nova de Lisboa. Actualmente é Gerente na empresa 100 Neurónios - Centro de Apoio Escolar, onde também trabalha como Explicadora das disciplinas de Biologia e de Matemática.

«Quanto aos Feriados que assinalam momentos históricos mais antigos da História de Portugal [como o 1º de Dezembro e o 5 de Outubro], penso que as pessoas os apreciam apenas por serem Feriados. Sabe muito bem. As pessoas não vão trabalhar e descansam mais um bocadinho.

Se acham que é importante? Sinceramente, acho que não e que é apenas mais uma data da História. Já passou tanto tempo que creio que ninguém lhes consegue atribuir grande importância».

E quanto ao 25 de Abril de 1974? «Este é diferente, pois é mais recente. Penso que as pessoas da minha geração, como grande parte dos seus pais nasceram antes do 25 de Abril (a maior parte deles), ainda lhes contam as “histórias”, ainda lhes dizem que andavam em Escolas separadas, que usavam as batas, que muitos tiveram avôs presos ou na Guerra, ou que foram torturados. Ainda conseguimos ter uma noção de como era, e temos noção das diferenças.

Agora, os mais novos do que nós, cujos pais já nasceram no pós 25 de Abril, que já não passaram por nada disso, que já não viram nada disso, não sei até que ponto é que não passaram tantos anos que não lhe atribuem a importância que devia ter.

Eu trabalho com crianças. Ensinamos-lhes e explicamos-lhe o que foi, o porquê, que havia uma Guerra...

Mas os avós deles já não foram à Guerra... Os pais têm à volta de 30 anos. Alguns nasceram quando a Democracia estava implantada há quase 20 anos... Então, os pais não lhes conseguem explicar essa realidade, essas histórias. Não vêem o crocodilo embalsamado, como o que eu via em casa da minha avó e que tinha vindo de Moçambique, ou que o tio era coxo, porque tinha levado um tiro em Angola. Já não ouviram nada disso...».

Quais terão sido, na sua opinião, as maiores alterações que ocorreram na sociedade portuguesa de 1974 até hoje? «Acho que é o direito, melhor, é a “leveza” com que se diz tudo, até muitas barbaridades». Barbaridades? «Sim. Hoje em dia diz-se tudo, até com insultos pessoais. Ninguém tem medo do que se diga ou oiça, ou de estar a insultar o Governo».

Haverá, então, excesso de Liberdade de Expressão? «Não, não é excesso! Acho que é bom! Penso que as pessoas puderem estar num espaço público sem terem que estar minimamente preocupadas com o que lhes vai acontecer, pois nada lhes vai acontecer é maravilhoso»!

Quanto às diferenças verificadas em Portugal e resultantes do 25 de Abril de 1974, para além da Liberdade de Expressão atrás abordada, Marta Alexandra Nunes também refere os desenvolvimentos registados nas áreas da Educação e da Saúde, neste caso com a criação do Serviço Nacional de Saúde (SNS).

«A nível da Saúde, há muitos que criticam o nosso Serviço Nacional, mas acho que não têm noção do quanto bem servidas estão.

A verdade é que, em Portugal, se alguém necessitar de assistência médica e se for à Urgência não deixa de ser atendido por ser rico ou pobre, ninguém lhe vai pedir o cartão multibanco para ver se tem dinheiro para pagar a conta, ou não. O Serviço Nacional de Saúde é imprescindível»! Imprescindível? «Sim, imprescindível!».

Marta Alexandra Nunes também não deixa de referir a facilidade de acesso à Educação: «Qualquer pessoa, independentemente da sua condição sócio-económica, consegue estudar, tem livros grátis, tem todos os apoios», que não tinha antes de 1974.

E quanto às Cerimónias Solenes do 25 de Abril, seja a nível nacional ou local, qual a sua opinião? Acompanha-as? Vê as transmissões pela televisão da Sessão Solene na Assembleia da República? «Não! Não tenho paciência, sinceramente». Então, deveriam ter um formato diferente do actual? «São aborrecidas e não dizem nada aos mais novos. Por outro lado, não sei como poderiam ser mudadas. Mas penso que fazem falta às pessoas mais idosas.

Aquelas formalidades são importantes para os que passaram por aquilo, que estiveram envolvidas directamente e que sofreram na pele todas as consequências da ditadura. Para essas pessoas, sim! Para elas, aquelas Sessões Solenes são importantes, são marcantes e fazem falta.

Não sei se mudar algo nas Sessões para os mais novos faria qualquer diferença, pois os miúdos não conseguem ter uma noção, uma percepção do que era a vida antes de 25 de Abril. Já passou demasiado tempo...».

As últimas palavras de Marta Alexandra Nunes são de esperança e de confiança no nosso país: «Fazem-se muitas críticas negativas, diz-se que Portugal está mal, mas acho que a nossa realidade não é assim. Evoluímos tanto... Evoluímos tanto...», seja na Educação, na Saúde ou no Sistema Democrático. «O facto de haver partidos altamente xenófobos e horríveis, que saem à rua para dizerem “coisas que não lembram a ninguém” e viverem bem com isso, para mim, isso é um sinal que a Democracia funciona, que vivemos realmente num Estado de Direito, no qual nos podemos “dar a um luxo” incrível de dizermos tudo, sem termos medo do que nos possa vir a acontecer, pois vivemos numa sociedade liberal e super aberta, que aceita os casamentos homossexuais, a eutanásia e vive bem com isso... Evoluímos tanto, socialmente, que as pessoas o deveriam valorizar mais e queixar-se menos».