Artistas da nossa terra:

Poder voltar a sentir a vibração do público

Nesta edição de Setembro voltamos a convidar artistas que fazem de Lagos o seu palco, para que se sentem nos lugares da frente a assistir à partilha do seu percurso e conquistas individuais, tanto através das entrevistas que foram gravadas como da parte da revista que lhes dedicámos.

Continuámos a marcar presença no Clube Artístico Lacobrigense, onde tão bem fomos recebidos. Um sentimento de carinho, reconhecimento e gratidão de ambas as partes que tornou as quatro entrevistas, que agora publicamos, agradáveis e enriquecedoras.

Testemunhos de quem tem sido alvo de restrições provocadas pela pandemia que todos condiciona. Focamo-nos particularmente em músicos, amantes de harmonia e poesia. Viver desta actividade profissional tem sido um desafio constante, enfrentado por muitos há já mais de um ano. Enfatizam-se vozes de quem tem resistido de pé às dificuldades, sem nunca parar de lutar e acreditar.

Três mulheres cheias de força e um guitarrista inigualável; diferentes faixas etárias com uma paixão comum: o fado. Embora nem todos tenham nascido em Lagos, consideram-se lacobrigenses. É aqui que se sentem em casa e espalham o seu talento. Entrevistas de quem não baixou os braços perante as dificuldades e reagiu às condições da actualidade; histórias de quem nunca sequer considerou colocar a música de parte.

Manter esta arte viva tem sido uma batalha para os profissionais da área, foi preciso reinventar a maneira como trabalham. Surgiu a possibilidade de realizar concertos online e agora, já com o processo de vacinação numa fase avançada, voltam os concertos presenciais, porém com um público bastante reduzido e sujeitos às normas da Direcção-Geral da Saúde. Os artistas deparam- -se com uma audiência que não está de pé, mas em vez disso sentada, afastada e de máscara.

Torna-se mais complexo sentir as emoções de quem está a assistir e identificar os sorrisos no final de cada canção. Contudo, mesmo perante um cenário completamente distinto do que se vivia pré-pandemia, os artistas sentem um alívio por poder subir a palco novamente e voltar a estar em contacto com quem aprecia a sua música depois de tantos meses sem o fazer.

Sonoridades que emocionam e transmitem esperança. Sonhos que ficam pendentes, postos de parte até que a situação melhore; planos adiados, mas nunca esquecidos. Aguardam a oportunidade de voltar a expressar-se em frente de quem os aplaude e agradece com um gesto, mantendo a expectativa de que em breve será possível actuar perante multidões novamente. Relembramos que as entrevistas quer desta, quer da passada edição, estão disponíveis no nosso canal de Youtube e podem ser visualizadas através das hiperligações facultadas ao longo da revista.

Beatriz Maio

Vítor do Carmo

Vítor do Carmo

Vítor do Carmo é um lacobrigense de 70 anos, que há muito reside em Portimão. Até aos 17 estudou na Escola Industrial, em Lagos. Na altura, tocava já na Filarmónica Lacobrigense, onde se iniciou com instrumentos de sopro, nomeadamente o cornetim e o trompete, passando depois para o contrabaixo.

Posteriormente ingressou na Marinha como voluntário, onde acabou por fazer toda a sua vida profissional, sendo hoje reformado. No princípio a sua intenção era entrar para a banda, até hoje «muito prestigiada», nas próprias palavras.

Contou-nos um pouco do percurso que fez nesta organização militar, tendo passado por diversos postos e classes. Em 1972 casou e, um ano depois, a 4 de Julho, acabou o tempo de Marinha. Esteve em África, experiência que caracteriza como «muito boa». Contudo, admitiu nunca ter verdadeiramente gostado de lá estar: «Não me sentia bem, faltava-me o meu habitat aqui de Lagos».

Uma carreira em nada planeada, muito menos como músico deste estilo que não fazia parte dos que Vítor apreciava: «Não gostava nada de fado, com 14, 15 anos nem pouco mais ou menos», confessou. Recorda-se bem do primeiro fado que tocou: “Chiquita Morena”, de António Mourão. No tempo em que estava na Marinha, regressava a casa aos fins-de- -semana e «vinha tocar viola, naquela altura viola de fado, a acompanhar os artistas que por aqui passavam, inclusivamente fadistas de Lisboa».

Foi tocando sem o intuito de ser guitarrista, mas a prática e a experiência levaram-no a actuar em casas de fado. Quando começou, eram seis as que existiam na cidade de Lagos: «Lembro-me de todas, como se fosse hoje. A primeira era “A Caravela”, na rua 25 de Abril; a seguir o “Jotta 13”; depois tínhamos a “Muralha”, o nome daquilo era o “Canavial” (…); depois tinha outra que era a “Cabaça”, que ficava na rua do cemitério (…); “Janelas da Trindade”, ao pé do campo do Esperança e depois havia outra na Avenida que era o “Sol Amigo”».

Com ternura, lembra-se do ambiente «espectacular» vivido nestes locais, mencionou que «todos se respeitavam» e havia sempre público para encher as casas, tanto português como estrangeiro. Embora o fado seja cantado em português, o idioma nunca foi barreira para as diferentes nacionalidades que se juntavam para o apreciar. O guitarrista acredita que «as pessoas sentem, notam o timbre da guitarra portuguesa que é o timbre de um instrumento inconfundível a nível mundial». Ao longo da sua carreira deparou-se com situações em que as pessoas, mesmo sem perceber a letra das canções, ficavam emotivas e terminavam de ouvir o fado a chorar.

Da viola para a guitarra portuguesa, revela que «a aprendizagem da guitarra é muito difícil». A transição de um instrumento para o outro deu-se enquanto actuava nas casas de fado, relembra que nos intervalos pedia a guitarra ao guitarrista para ir tocando: «Eu gostava do timbre da guitarra, ainda hoje gosto», razão pela qual aos poucos foi aprendendo e desenvolvendo a sua sensibilidade.

Relatou ainda um momento que o marcou, quando, em 1979, um colega lhe comprou a primeira guitarra. O preço ficou-lhe na memória, hoje seria equivalente a 150 euros, o que, para a altura, «era muito dinheiro», constatou. Seriam por volta de três salários seus na Marinha. «Comecei a tocar guitarra, fui vendendo uma e comprando outra melhor, foi assim. Fui-me dedicando e continuo a aprender. (…) Gosto muito de tocar», confessou. Vítor partilhou que muitas das suas guitarras foram dispendiosas, chegando a pagar 4.500 euros por uma, 4.000 por outra e ainda 3.750 por uma terceira: «Tenho instrumentos muito bons», divulgou.

Autodidacta, tudo o que sabe aprendeu sozinho, houve apenas uma excepção que com carinho recorda. Não sabia tocar a entrada da canção “Ai Mouraria”, que lhe foi ensinada por António Xavier, único ensinamento que teve e nunca mais esqueceu.

Acompanhou grandes nomes do fado e da música portuguesa, desde Fernando Maurício, Beatriz da Conceição, Teresa Tapadas, António Pinto Basto, Helena de Castro, Cremilde, entre outros. Muitos vinham de Lisboa para fazer uma temporada. Actuou também com “nomes da terra”, nomeadamente as três fadistas que apresentamos nesta edição. Vítor enalteceu os talentos que o rodeiam: «Temos aqui bons fadistas, bons guitarristas. (…) Temos aqui pessoas muitíssimo boas, com muita qualidade». O guitarrista dá aulas de música e tem vindo com gosto a transmitir os seus conhecimentos. «Adoro ensinar», rematou.

A acompanhar diversos músicos tem viajado por todo o mundo. Com Inês Gonçalves foi até ao Dubai, onde inaugurou o Festival português “Piri-piri”. Agora, vivem-se tempos incertos que não permitem que se façam grandes planos ou agendamentos, por isso a ideia de Vítor para o futuro passa por ficar na região. Até que as circunstâncias sejam mais risonhas manter-se-á por perto, tal como tem feito, nunca deixando as actuações de parte. Há dias em que é recebido em Faro e outros que Lagos o continua a acolher.

Marta Alves

Marta Alves

Lagos foi a cidade que viu Marta Alves nascer e crescer. Agora, com 22 anos, a jovem revelou que o gosto pela música começou desde muito cedo, cantando vários géneros desde que se lembra. Viveu uma infância em que esta era uma paixão compartida por todos os membros da família: «Os meus pais sempre ouviram muita música. Comigo e com a minha irmã a aparelhagem estava sempre ligada». Embora tenha uma cultura musical extensa desde criança, nem Marta nem os seus pais tinham por hábito apreciar fado, estilo musical que hoje predomina na sua vida.

Por volta dos 14 anos, um programa de televisão fez com que se deparasse com o primeiro tema que interpretou: “Ó gente da minha terra” de Mariza, canção que de imediato lhe despertou a atenção e fez com que desse os primeiros passos no fado. Não só se apaixonou por um estilo musical unicamente português, como também pela guitarra portuguesa e o seu «som muito romântico». Reconheceu que é um género bastante próprio, sem uma forma correcta de o cantar: «Aprende-se a ouvir, não se aprende com uma técnica e forma exacta de o fazer, que é o contrário de muitos estilos».

A lacobrigense estudou música lírica e ópera, que em nada se assemelham ao estilo musical português a que agora se dedica. Admitiu que o fado tem uma particularidade exclusiva: «Enquanto que a música lírica tem exactamente uma forma de ser feita, o fado é um estilo completamente livre e até se diz que fadista é quem tem o seu estilo próprio».

A artista acredita que é o timbre e a forma de cantar que faz com que cada músico se destaque. Realçou os fados tradicionais e musicais e acrescentou que, na sua opinião, «os poemas de fado são lindíssimos, têm todos um poder e uma mensagem muito forte». Recordou-se, como não podia deixar de ser, de Amália Rodrigues. Nas palavras da jovem «o expoente máximo do nosso fado. (…) Foi até hoje a fadista mais internacional. A Mariza depois também levou o fado ao mundo inteiro, mas a Amália já o tinha feito», frisou.

A curiosidade de Marta levou-a a explorar este mundo, novo para si, e a aprender rapidamente. Os restaurantes foram o seu primeiro palco, seguido de hotéis e eventos. Foi acolhida pelos “Artistas” que também colocaram a “casa” ao seu dispor. De menina a adulta, enfrentou uma nova fase da sua vida – a universidade. Mudou-se para a capital, onde agora reside, com o intuito de estudar o que mais gosta.

Começaram a surgir oportunidades e actuações em novos locais. Hoje, pode afirmar que já fez «um pouco de tudo», desde cantar em casas de fado, como fado com orquestra a teatro musical em que o fado era o estilo principal.

Com carinho recorda a primeira vez que cantou em público. Não só os espectadores eram especiais – a sua família – como também a ocasião – a festa de aniversário de 18 anos da irmã. Relembra a surpresa de todos ao ouvi-la cantar fado e de como interpretou o mesmo tema cerca de 20 vezes.

A sua formação teve início no conservatório e estendeu-se à licenciatura que este ano termina, no curso de canto lírico, com 19 valores. Com um sorriso no rosto, Marta comentou que na última prova obteve a melhor classificação do curso. «Foi um percurso de 4 anos que me ensinou muito. A teoria musical e a forma de ensino é muito boa para nos ensinar a conhecer o nosso instrumento porque as vozes são todas muito diferentes», partilhou.

Para a lacobrigense é tão difícil delinear planos futuros como eleger um estilo musical de preferência: «Neste momento ainda não sei exactamente o que vou fazer. Consigo-me ver em qualquer estilo porque gosto muito de fazer tudo. Pensar em estar presa só a um dá-me um bocadinho de medo porque gosto muito de todos».

Explicou que o contacto que teve em teatro musical, vivido em 2019 no Casino Estoril, com a peça “Esta vida é uma cantiga” «foi uma experiência muito enriquecedora em termos de aprender a postura em palco, contacto com o público, porque apesar do facto de ser música do povo, é um estilo que nos prende muito a nós». Esta vivência acabou por deixá-la mais confusa em relação ao que esperar do que aí virá.

A certeza é de que a sua vida profissional passará pela música: «É o que gosto e não me consigo ver a fazer outra coisa», rematou. Mencionou, por fim, que gostava de ter o seu estilo próprio e fazer algo que para já não existe, mas confessou que ainda se está a descobrir.

Ana Valentim

Ana Valentim

Ana Valentim, de 30 anos, é natural de Vila Nova de São Bento, concelho de Serpa, distrito de Beja. Aos 6 anos, mudou-se com a família do Alentejo para o Algarve.

Foi Lagos a cidade que os recebeu num momento difícil e proporcionou uma nova oportunidade: «Trago Lagos no coração, considero-me lacobrigense porque Lagos me acolheu sempre muito bem», comentou.

Embora, mais tarde, os pais tenham regressado às origens, a alentejana optou por ficar e visitar regularmente o local que a viu dar os primeiros passos. Guarda o canto alentejano com carinho, admitindo que lhe transmite o mesmo que o fado porque vem do coração: «Traz muito sentimento nas palavras que são cantadas. Esteja onde estiver, quando oiço uma música alentejana emociono-me. (…) Sinto a minha gente e a minha terra».

Cresceu num meio onde a música sempre teve lugar, particularmente o fado. É um gosto que está no sangue da família.

Apesar de não ter conhecido o avô materno, sabe que tocava cavaquinho e desde que se lembra que ouve o irmão cantar fado: «Ouvia o meu irmão e pensava “quero fazer igual”».

Este estilo musical português entrou na sua vida não só através do irmão, como do tio, irmão da mãe, que também cantava.

Foi nos concursos de fado do Algarve que Ana pisou pela primeira vez o palco e por aí tem passado o seu percurso artístico.

Há dois anos, foi a vencedora do concurso realizado no Clube Artístico Lacobrigense, sendo que noutras competições acabou por sagrar-se segunda classificada diversas vezes, tendo ganho ainda prémios revelação.

A sua área profissional nunca passou exclusivamente pela música. Actualmente, faz a publicidade de uma garrafeira no centro da cidade e é também consultora imobiliária em Lagos: «Sempre foi assim, sempre tive uma profissão à parte da música».

Admitiu que é a força de vontade que a possibilita de conciliar tudo: «Costumo dizer que se o dia tivesse mais horas ainda mais trabalho tinha. Chego a ter noites sem dormir, sempre a trabalhar».

A fadista é autodidacta, nunca teve nenhuma formação: «Tudo o que faço e sei é de ouvido». Acredita que o fado nasce com cada um, não pensa que é qualquer pessoa que o consegue cantar. No seu caso, desvendou: «Em termos mais técnicos não sei muita coisa, em termos emocionais acho que tenho tudo».

Sente-se muito acarinhada pelo público. Recorda o seu primeiro concerto, no Café Vadio, em Lagos, juntamente com mais três colegas: «Lembro-me que pensei que era o que queria fazer o resto da minha vida». O calor do momento, as emoções e os aplausos fazem com que a artista tenha certeza de que é este o seu lugar.

Recentemente, tem actuado no Centro Cultural de Lagos: «Cada vez que piso aquele palco, sinto que quero mesmo estar ali», revelou, afirmando sentir-se completa: «O fado preenche mesmo a minha vida».

Embora não seja fácil eleger neste estilo a canção que mais gosta, reconhece que há um que se destaca: “Gaivota”, o fado preferido do pai.

O repertório da fadista baseia-se nas músicas que lhe comunicam uma mensagem: «Se me transmitirem eu consigo transmitir aos outros», confessou.

Ainda que reconheça que há dias em que os sentimentos são encarados de forma diferente de outros, o seu propósito é conseguir partilhar o que cada música a faz sentir: «Há dias que gosto de cantar mais umas coisas, outros dias outras. Depende muito do meu estado de espírito».

São várias as ambições futuras de Ana. A pandemia fez com que os seus planos não se pudessem concretizar nos prazos que pretendia, visto que condicionou financeiramente a artista, assim como todos os outros neste ramo profissional: «Tinha o projecto de gravar o meu primeiro CD, que teve que ser adiado, mas tenciono agora retomar essa ideia».

O intuito é gravar em Lagos, no estúdio do Chinicato, com a colaboração de músicos locais.

Como é uma iniciativa meramente sua, todos os custos estão a seu encargo, o que a leva a projectar esta ideia para o início do próximo ano.

Ana Marques

Ana Marques

Natural de Portimão, Ana Marques vive em Lagos há 22 anos. Considera- -se uma intérprete, sem estilo específico porque não se adapta apenas a um. «Aquilo que me enche mais a alma é mesmo o fado. O fado é aquela canção que me transporta para algo que me faz sentir bem», reconheceu.

O seu percurso artístico teve início aos 9 anos quando a mãe lhe ofereceu um pequeno teclado. Embora fosse já capaz de tocar e criar por si própria, a curiosidade e interesse em aprender mais levou-a a inscrever-se em aulas. Foi em Portimão que uma professora de referência lhe ensinou as bases, tendo começado pela música ligeira. Da sua juventude fez também parte a aprendizagem de viola clássica, acordeão e outros instrumentos, mas neste momento é no canto que se foca.

«Cheguei a fazer muitos bailaricos e festas. Eu não cantava, tinha vergonha», revelou. Curiosamente, a coragem de encarar o público não a acompanha desde cedo. Já o perfeccionismo sempre fez parte de si: «Nunca gostei de falhar, até mesmo quando me dizem que está bem estou sempre a apontar alguma coisa que está menos bem». Admitiu que, por vezes, falta-lhe o conhecimento musical suficiente para identificar exactamente onde sente a falha, mas sabe que está lá.

Acredita que a formação é muito importante, mas «o ouvido é fundamental». Na sua óptica, um músico, para além de ter conhecimento da parte técnica, não pode ter em falta a sensibilidade: «Pode-se saber tudo de música, mas falta a outra parte que é improvisarmos quando a pauta não está lá. Se a pauta voar um bom músico consegue continuar e manter a música».

O fado entrou na sua vida de forma inesperada, Ana não se tinha ainda apercebido que era um amor que tinha dentro de si. Aventurou-se numa primeira actuação como fadista sem nunca ter cantado esse estilo. Interpretava já algumas canções com o marido e foram essas que utilizou como repertório. Foi um ponto de partida na carreira da artista: «Passei de uma pessoa incógnita na música, que ninguém conhecia, para alguém que todos queriam contratar para cantar fado».

Sem ter noção do impacto que estaria a causar, desde logo recebeu uma enorme aceitação por parte de quem a ouve. Com palavras sinceras, confessou que até hoje não sabe o que o público viu em si, colocou como possibilidade a forma genuína de como transmite o que sente: «É algo que me sai tão naturalmente que acho que é o que, às vezes, leva a que as pessoas sintam o mesmo que eu sinto, através das palavras». Chega até a questionar a reacção de quem a aplaude de pé, mas reconhece que o que faz é especial.

Reflectiu na importância de considerar que, por vezes, «as vozes que são escolhidas não são as mais bonitas nem as que soam melhor, são as que têm as imperfeições e as quebras porque às vezes a beleza está justamente nessas pequenas falhas».

De desconhecida passou a ser um êxito. Participou em concursos de fado amador, chegando a ganhar o que se realiza em Vila do Bispo, bem como o que tem lugar no Centro Cultural de Lagos. Desde então que a sua vida profissional tem passado pelo mundo da música, cantou com diversos artistas de renome e participou em diferentes projectos, sempre como voz principal. Da música pop ao jazz, de artista a solo a vocalista de banda, da música portuguesa à internacional, Ana Marques abraça todos os géneros sem se limitar a seguir um padrão específico.

Com dois CD’s já gravados, prepara--se agora para o terceiro, sendo a própria a comercializá-los pelos locais onde actua. Em mente tem algumas ideias, entre elas «gostava de fazer um estudo de algumas músicas, incorporar algumas músicas da Beira Baixa, do nosso folclore… Gostava de passar um bocadinho também por aí». Embora pareça que se distancia do fado, na opinião da fadista cada artista faz a sua interpretação. Sugere até que se podem utilizar instrumentos à escolha, acreditando que é possível adaptá-los ao estilo musical que se pretende seguir.

Considera-se uma privilegiada porque mesmo com as dificuldades sentidas nos últimos tempos por todos os músicos divulgou que: «Quando há uma possibilidade as pessoas telefonam-me, o que me deixa extremamente feliz. O que eu faço está a ser de alguma maneira reconhecido». Mesmo perante as circunstâncias, a restauração e hotelaria têm-na permitido trabalhar todos dias, ocupando o fim-de-semana com o marido a actuar em eventos. Por fim, deixou uma palavra de esperança: «Não acredito que seja para breve, mas acredito que tudo vai melhorar, certamente».

Beatriz Maio