A descer a Ribeira de Bensafrim, rumo à Baía de Lagos e à pesca à sardinha, a bordo do «Flor de Burgau»

António Mateus, 57 anos, é Mestre da embarcação «Flor de Burgau»

Fábio Mateus, de 33 anos, é natural de Burgau e Contra-mestre

Pesca à sardinha, em Lagos

Depois de cerca de sete meses de proibição (o «defeso») da pesca da sardinha, as embarcações portuguesas voltaram ao mar para a captura desta espécie muito apreciada nas mesas nacionais. Por essa razão, decidimos acompanhar o primeiro dia de faina a esta «arte do cerco», na Baía de Lagos.

Pouco passa das 23 horas quando embarcamos na lancha auxiliar e nos dirigimos ao «Flor de Burgau», embarcação de 12,5 metros, que se encontra fundeado no Porto de Pesca de Lagos.

É dai que rumamos e acostamos no cais da Docapesca, onde será embarcado o gelo que irá garantir a frescura do peixe que irá ser capturado neste dia de trabalho. É Fábio Mateus, de 33 anos e Contra-mestre do barco quem irá manobrar habilidosamente a grua, de forma a que os contentores plásticos que contêm o gelo sejam colocados no convés da embarcação.

Feita esta tarefa, é tempo de dormir um pouco.

Só sairemos para o mar depois das 02:30 e há uma boa razão para que assim aconteça: se o peixe for capturado muito tempo antes da abertura das lotas, terá menos qualidade devido ao contacto com o gelo.

A tripulação recolhe aos seus beliches e eu, bem agasalhado, deito-me no convés, numas mantas. Há muitos, muitos anos que não o fazia. Recordo-me que a última tinha sido em pleno Rio Guadiana, entre Alcoutim e San Lucar.

Gostava de ver as estrelas e as constelações, mas o céu está muito nublado para mo permitir. Só horas mais tarde, quando navegarmos em plena Baía de Lagos e com o céu descoberto irei ver a galáxia Via Láctea em todo o seu esplendor. E, também, reconhecer na cauda da constelação da Ursa Menor a Estrela Polar (Polaris), que indica o Norte no nosso Hemisfério. Antes de existirem sofisticados dispositivos electrónicos de geo-localização era por ela que se guiavam viajantes e marinheiros. Curiosamente, no Hemisfério Sul, a constelação Cruzeiro do Sul é usada na navegação da mesma forma que a Polaris e a Ursa Menor no nosso, estando representada nas bandeiras da Nova Zelândia e da Austrália.

Cerca das 02:30 há agitação a bordo. A tripulação apresta-se para esta jornada de trabalho, o motor do «Flor de Burgau» é ligado e a embarcação é solta da amarração ao cais. Tranquilamente, descemos a Ribeira de Bensafrim. Olho para as luzes da cidade onde muitos descansam a esta hora. Não os pescadores. Para eles, o seu dia de trabalho começa agora.

«Flor de Burgau», embarcação de 12,5 metros, construída em 1962, no Porto de Pesca de Lagos

A embarcar o gelo, no Porto de Pesca de Lagos

A rede da «arte do cerco» está preparada na popa da embarcação

O equipamento electrónico é essencial na detecção e na percepção da dimensão dos cardumes

O cardume de sardinhas já foi «cercado»

Saímos a barra de Lagos com o mar calmo, calmíssimo. Quando está assim, diz-se que é um «Mar de Senhoras». Vejo que navegamos rumo a 132º a seis nós (pouco mais de 11 quilómetros por hora).

Na ponte, António e Fábio Mateus estão atentos aos sofisticados e modernos instrumentos de navegação: sonar, sonda, radar, três GPS, piloto automático, computador Maxsea e quatro rádios de VHF. É da leitura correcta e precisa dos dados fornecidos por estes equipamentos electrónicos que se fará a detecção e se irá perceber não só a dimensão dos cardumes, como também em que direcção ou direcções se dirigem.

Acompanho o trabalho de Mestre e de Contra-mestre na ponte. Pelo radar, vejo quais são os barcos que trabalham perto de nós e quais os seus rumos. Sempre que arranja uns breves instantes, atento e concentrado nos painéis luminosos e à navegação, Fábio Mateus explica-me o funcionamento do sonar e a dimensão do cardume que perseguimos.

O «Flor de Burgau» muda de trajectória frequentemente, procurando cercar o peixe, para a captura eminente.

Estando a mais na ponte de comando e não pretendendo atrapalhar neste momento crucial, procuro um local apropriado para prosseguir esta reportagem. Como se processa esta «arte» de pesca à sardinha? Já em terra, numa esplanada perto da Docapesca, depois de eu ter bebido um reconfortante café, Fábio Mateus, explica-nos, em vídeo que a Nova Costa de Oiro partilha com os seus leitores nesta ligação, a importância da pesca à sardinha:

https://youtu.be/PnoYa3YtIJM

«A pesca à sardinha é a nossa maior fonte de captura. É a espécie que abunda mais na nossa costa e à que dirigimos cerca de 90% da pesca que fazemos.

A pesca da sardinha é essencial para a “arte do cerco». Além de ser a espécie mais abundante, é a que tem o valor comercial mais elevado do que as outras e é a espécie de que todas as empresas e embarcações conseguem subsistir».

Mas, como é que se pratica? O que acontece desde que saímos do Porto de Pesca de Lagos e chegámos ao de Portimão? «Assim que saímos à barra de Lagos, nós procuramos aqueles sítios onde achamos que a sardinha se junta em cardume, os sítios onde a sardinha se está a alimentar.

Fomos onde sabemos e que achamos serem os adequados para pescar [a sardinha], com fundos de areia, com boa visibilidade, com boas condições metereológicas, com águas calmas e efectuámos uma pesca de cerco.

Procuramos o maior cardume, aquele que podemos capturar para garantir logo a quota necessária. [Hoje] Fizemos um lance, tendo conseguido capturar a quota diária e rumámos a Portimão para fazer a vendagem».

Como é que se encontra a sardinha dentro de água? Está no fundo, a meia-água, ou ao cimo?

«Isso vai depender muito do fundo. Normalmente, está a meia-água. Com o Sol, tem tendência para ir para o cimo da água. Quando encontramos em mares mais baixos do que aqueles em que pescámos hoje, a sardinha “cola-se” mais ao fundo. Hoje pescámos a uma profundidade de 15 braças, sensivelmente 30 metros».

A companha ala a retenida (que fecha a rede por baixo) para bordo

A rede a ser alada

A rede a ser alada

A sardinha, já capturada, será em breve transbordada para o «Flor de Burgau»

A tripulação prepara-se para transbordar a sardinha

Segundo a informação disponibilizada pela Direcção-Geral de Recursos Naturais, Segurança e Serviços Marítimos, «Por pesca por arte de cerco entende-se qualquer método de pesca que utiliza uma parede de rede sempre longa e alta, que é largada de modo a cercar as presas e a reduzir a sua capacidade de fuga. É um método utilizado na captura de espécies pelágicas.

O processo de captura consiste em envolver o peixe pelos lados [neste caso foi utilizada uma embarcação auxiliar, que “fechou” o cerco] e por baixo, impedindo a sua fuga pela parte inferior da rede, mesmo quando operada em águas profundas [usou-se uma fonte luminosa dentro de água para evitar que a sardinha escapasse debaixo do costado da embarcação principal].

A rede de cerco usada no Continente é caracterizada pelo uso de uma retenida na parte inferior da rede, esta permite fechar a rede como uma bolsa de forma a reter a captura.».

Não obstante eu já ter tido oportunidade de acompanhar por várias vezes pescadores locais na sua faina na costa Sul, entre Lagos e Lagoa, esta foi a primeira vez em que tive a oportunidade de assistir à pesca da sardinha.

Em relação a outras que vi (alcatruzes, redes e aparelho) houve dois aspectos que me chamaram particular atenção: em primeiro lugar, a «adrenalina» provocada pela perseguição e cerco da sardinha. Não foram poucas as vezes em que o «Flor de Burgau» mudou de rumo, para garantir que a rede iria capturar o cardume. A segunda, não se saber o volume do pescado. Só quando este se encontra perto do costado da embarcação (neste caso a bombordo - esquerdo) e depois de ser transbordado com o xalavar (um “camaroeiro”) para as dornas (que são os contentores plásticos, ou de fibra), é que a tripulação irá saber se o lance que acabou de fazer terá compensado, ou não.

O «Flor de Burgau» é uma embarcação de 12,5 metros de comprimento, com casco de madeira e cabine ao meio, estilo antigo. Foi construída em Peniche, em 1962 e, em 2000, foi praticamente reconstruída nos Estaleiros Rosa Cabral e Soares, em Portimão. Dispõe de um motor General Electric, de cerca de 120 cavalos, que Fábio Mateus considera ser «inadequado para a embarcação que é, pois a velocidade de cruzeiro é muito reduzida».

Usando um xalavar, a partir da embarcação auxiliar, a sardinha é colocada nas dornas do «Flor de Burgau»

A partir da embarcação auxiliar, com um xalavar, a sardinha será depositada nas dornas do «Flor de Burgau»

Uma das treze dornas do «Flor de Burgau»

Peixe prestes a ser colocado nas dornas (contentores)

Esta dorna (contentor) irá acomodar 150 quilogramas de sardinha preservada em gelo

A quota atribuída para a pesca à sardinha a este barco é, em 2021, de 13 dornas, o que equivale a 1.950 quilos.

Neste momento, é muita a azáfama para colocar a sardinha a bordo. A partir da lancha auxiliar, com o xalavar, o peixe é levado até ao convés do principal. Aí, à dorna que já tem gelo no fundo, é colocada uma camada de peixe, a que se segue mais uma de gelo e outra de peixe e mais uma de gelo, até a encher por completo.

Metodicamente, com toda a tripulação perfeitamente sincronizada, esta tarefa é executada caixa após caixa, até não haver mais peixe no mar, nem dornas para serem cheias. Neste dia, a quota da pesca da sardinha foi cumprida e irá ser devidamente registada no Diário de Pesca Electrónico, de acordo com os requisitos legais.

Já nasce o Sol e é um privilégio vê-lo surgir aqui e hoje, em todo o seu esplendor, por cima de água. A proa aponta para Portimão, pois é lá que a captura irá ser descarregada. Por momentos, olho em direcção à popa e vejo a cidade de Lagos, lá ao fundo, com os primeiros raios a iluminarem as casas da nossa cidade.

Em rumo oposto ao nosso passam outras embarcações. Também as vejo no radar e identifico os seus nomes. Maravilhosa tecnologia, penso.

De repente... Percebo que há algo que não está bem. Com efeito, a rede acabou de se enrolar no hélice.

Não obstante este percalço, constato que o profissionalismo e a tranquilidade reinam a bordo. Ao ver a tripulação, assim, não deixo de me sentir calmo.

Penso que o pior que nos poderá acontecer neste dia de calmaria será sermos rebocados até Portimão e, aí, com a ajuda de mergulhador a rede vir a ser retirada do hélice ou do veio.

Agora, é a embarcação auxiliar que reboca a principal, lentamente. E, passados alguns minutos, surge a boa notícia: a rede soltou-se e já conseguimos navegar pelos nossos meios.

Rumamos a Portimão. Recordo neste momento um saudoso amigo, o Francisco “Malagueiro” Barreto, e um dia, melhor, uma noite há muitos anos, em que nos refugiámos neste Porto em busca de abrigo, quando as condições climatéricas se alteraram repentinamente na Baía de Lagos e fomos surpreendidos pela borrasca. Não havia, então, os dispositivos de meteorologia que existem hoje...

Passa pouco das 08 da manhã quando acostamos ao costado do «Mário Luís», uma embarcação registada em Sagres. Por cima da amurada, vejo que há sarrajão em caixas que se encontram no seu convés. Só espero que a sua captura também tenha sido tão boa como a nossa foi...

A manobrar a grua, no cais, está Fábio Mateus. Será ele quem irá colocar aí as 13 dornas que serão vendidas brevemente. E, assim foi: a um euro ao quilo, irei comprá-las, amanhã, a seis euros.

Com o auxílio de uma grau, as dornas são colocadas no cais do Porto de Portimão

O Sol já está a «nascer» (rumo ao Porto de Pesca de Portimão)

Prestes a fazer subir uma das 13 dornas para o cais do Porto de Portimão

Enquanto o pescado é descarregado, a bordo do «Flor de Burgau», o Mestre António Mateus repara a rede

Descarga da sardinha para o Porto de Pesca de Portimão

A terminar esta reportagem perguntámos o seguinte a Fábio Mateus: Está a pensar fazer melhoramentos na sua embarcação? Se sim, quais?

Por outro lado, como encara o “estado das pescas” nos concelhos de Lagos, de Vila do Bispo e de Portimão, que são onde operam com mais regularidade?

«Em termos de modernização da minha embarcação, eu quero modernizá-la, com investimento próprio, o que neste momento não estou a conseguir.

A minha embarcação tem 9,5 TABs [Tonelagem de Arqueação Bruta, ou seja, o seu peso]. Se eu for comprar uma embarcação em fibra-de-vidro, nova, com as mesmas dimensões da minha, ela tem 12 TABs. Teria que igualar... Se vou investir do meu bolso, numa embarcação com as mesmas medidas só para aumentar a tonelagem, isto não tem grande sentido...».

Que explicação encontra para o que acaba de relatar?

«Não consigo encontrar. Acho-a de uma injustiça total. Se não vou aumentar o esforço de pesca, se não vou aumentar a rede, se não vou aumentar a capacidade, mas sim a segurança a bordo, logo, eu devia ser automaticamente até beneficiado por isso.

Não estou a ser beneficiado, mas sim prejudicado. Ando com uma embarcação desactualizada [...]».

Há falta de apoio à pesca e aos pescadores? «Sim, exactamente, exactamente. Há alguma falta de apoio aos pescadores e há uma falta de apoio grande à pesca.

A pesca precisa urgentemente de ajudas. E, quando digo ajudas, não são em termos de benefícios e de valores, mas sim em termos de “rigidez”».

Em relação ao preço de comercialização do pescado, crê que haverá uma discrepância entre o preço a que o pescador o vende em Lota e o que chega ao consumidor nos mercados? «Claro que sim! Essa é mesmo muito grande! Ainda hoje vendemos a sardinha a um euro. E a sardinha na praça está a sete e oito. São 70 vezes o valor pelo qual a vendemos».

Para além do vídeo cuja ligação deixámos em parte anterior deste texto, gostaria de partilhar um outro, mais curto, em que se mostra parte da faina na «arte do cerco» à sardinha. Para tal, basta clicar nesta ligação:

https://youtu.be/Dw72FH038uk

Por último, gostaria de deixar os meus agradecimentos públicos a toda a tripulação do «Flor de Burgau» pela simpatia e paciência com que fui acolhido a bordo.

Carlos Mesquita