Capa da edição do 26 aniversário

Estudo gráfico prévio para a capa comemorativa do 26ª aniversário

Todos os colaboradores, desde 1995

1 - 27 de Outubro de 1995: nasce a Nova Costa de Oiro

A revista «Nova Costa de Oiro» foi apresentada publicamente em 27 de Outubro de 1995, dia da Cidade de Lagos, no «Amuras», na Marina da nossa terra.

Nasceu pela vontade e pela persistência do Hélio José, conforme se recorda no editorial que publicou nessa data: «Sobretudo a Revista “Nova Costa de Oiro” é um projecto para intervenção e opinião da sociedade civil, será um veiculo de culturas e tendo como principal objectivo servir e defender os lacobrigenses», escreveu.

O lacobrigense Hélio José viveu parte da sua vida em África, mais concretamente em Moçambique. Foi aí que se apaixonou pela Comunicação Social, com especial destaque para a rádio.

Regressado a Lagos, após a Revolução de 25 de Abril de 1974, veio a integrar a equipa das duas rádios locais legalizadas que existiram em Lagos: a Rádio Clube Lacobrigense e a Rádio Atlântico Sul. Foi nesta última que os nossos caminhos e as nossas vidas se cruzaram, primeiro no seu programa «Entre bicas... Entre bocas» e, mais tarde, no programa «Café Costa d’Oiro», que era emitido nas noites de quinta-feira, em directo, a partir do bar / centro de convívio da Cooperativa de Habitação 30 de Junho, no Chinicato. Aí, recebiam-se os convidados que falavam sobre os mais variados temas locais, em animadas e inesquecíveis tertúlias. Este programa radiofónico também contava com a colaboração de Fátima Peres e a de Ricardo Soares, este nas operações técnicas.

Hélio Custódio do Carmo José, fundador da revista Nova Costa de Oiro

A capa da primeira edição da Nova Costa é da autoria da lacobrigense Lucinda Correia (hoje, arquitecta)

Creio que esta experiência terá levado o Hélio a considerar a possibilidade de criar uma revista local ou, pelo menos, das Terras do Infante. Na sua mente, estaria, igualmente, a memória da revista Costa de Oiro, que foi publicada entre Janeiro de 1935 e Junho de 1940. Embora visada pela censura do regime salazarista, nela colaboraram os grandes vultos da intelectualidade lacobrigense e algarvia, tendo sido uma das grandes referências da imprensa regional. Nota: a revista Costa de Oiro pode e merece ser lida através do site da Hemeroteca Digital do Algarve, nesta ligação: http://hemeroteca.ualg.pt/

Em meados de Agosto de 1995, encontrámo-nos, por acaso, perto da sua casa, na Rua Infante de Sagres, em Lagos. Foi então que me contou a sua intenção de vir a fazer uma revista local, projecto que iria arrancar em breve, de forma a ser apresentada no Dia da Cidade de Lagos. Sabendo que então eu trabalhava na minha área de formação académica, a gestão, lamentou-o, pois gostaria de vir a construir este projecto comigo. Mal sabia o Hélio José que eu me tinha despedido uma hora antes desta conversa... Escusado será dizer que aceitei imediatamente esta oferta. E foi nesse dia que a minha vida iria mudar de rumo: da especialidade em Planeamento e Controlo de Gestão, para jornalista.

Ora, acontece que de jornalismo eu sabia muito pouco, ou quase nada. Nem a leitura diária de jornais e de revistas, a escuta da TSF/Rádio Jornal, nem o convívio diário com os meus colegas de Universidade (Universidade Técnica de Lisboa) do Curso de Comunicação Social faria de mim a pessoa mais apta para exercer essa profissão. Mas, como a vida é feita de desafios... Aceitei este.

Começámos a preparar a primeira edição da Nova Costa de Oiro, em Setembro de 1995, cerca de mês e meio do lançamento anunciado para 27 de Outubro. Recordo que os meios informáticos disponíveis à época eram muito diferentes do actuais: a empresa norte-americana tinha Microsoft tinha lançado poucos meses antes o Sistema Operativo Windows 95, que veio «revolucionar» o relacionamento dos utilizadores com os seus computadores pessoais. Até poucos dias antes, quando se ligava um PC, o ecrãn ficava todo negro, com uma letra a piscar. Assim, era preciso dominar-se o MS-DOS (Microsoft Disk Operating System) para se conseguirem realizar algumas tarefas, tal como processamento de texto, paginação electrónica, ou manipulação de imagem. Foram o Luís e o Freitas, da já extinta empresa Informédia quem preparou a «máquina» que usámos até ao término da edição em papel da nossa revista, em Dezembro de 1999.

A nossa primeira edição foi impressa na empresa Litográfica do Sul, em Vila Real de Santo António. Foi aí, na companhia do Engenheiro Belizário Correia, que tivemos uma reunião com um experiente tipógrafo e que eu percebi imediatamente que não sabia nada de nada de artes gráficas: ele falava-me de «planos», de «separações» cromáticas em CMYK e eu não fazia a mínima ideia do ele dizia. Como compreendeu imediatamente que eu estava «à nora», deve a gentileza de me explicar e de me dar uma lição que ainda recordo.

De volta a Lagos, pedi ajuda a amigo de longa data, que me ensinou a paginar e a digitalizar imagens. Na escrita, tivemos ajuda de outros colaboradores na revisão dos textos, prática que se mantém até hoje.

A 1ª edição da Nova Costa de Oiro foi apresentada no «Amuras», culminar de um mês e meio de muita tensão e de extrema ansiedade. Resta dizer que estas nunca desapareceram até ao presente, nos dias que antecedem o lançamento de uma nova edição. Ficam sempre as perguntas: estará boa? Terá erros?

2 - O primeiro ano:

De 27 de Outubro de 1995 até ao nosso ao mesmo mês de 1996 publicámos 12 números, impressos na empresa Grafistudios, de Portimão:

Em Novembro de 1995, estivemos com Dom Duarte de Bragança e entrevistámos José Manuel Freire.

Em Dezembro, Carlos Matos foi o nosso entrevistado no «Entre bicas... Entre bocas». Em Janeiro, acompanhámos o arranque da campanha eleitoral à Presidência da República Portuguesa, Eu acompanhei o candidato Cavaco Silva, enquanto o resto da equipa esteve com Jorge Sampaio, que acabou por ser o eleito dos portugueses. Por ocasião das comemorações do 10 de Junho, que se realizaram em Lagos, oferecemos-lhe um exemplar da revista (imagem que ilustra estas páginas) e tivemos uma agradável conversa, momento que registei para a posteridade em fotografia.

Em Fevereiro, José Veloso publicou o texto «Estratégia Urbana para Lagos», tão actual hoje como então.

Em Março, entrevistámos o Engenheiro João Pimenta e anunciámos, em primeira mão, que Lagos seria a sede das comemorações do Dia de Portugal.

Em Abril, Rui Mateus, presidente da Comissão Política do PSD de Lagos foi o nosso convidado e em Maio, Ana Balmori. Em Junho/Julho José Alberto Baptista, antigo presidente da Câmara Municipal eleito pelo PS, concedeu-nos uma entrevista e, em Agosto foi a vez de Maria Luísa Teixeira, da CDU.

Em Setembro falámos de uma situação que se arrasta até hoje: a do Hospital de Lagos. Em Outubro, soprámos as velas do bola: tínhamos um ano.

3 - O segundo ano:

Não imaginava eu que, no segundo ano da Nova Costa de Oiro, iria abandonar este projecto editorial.

Minha mãe tinha sido diagnosticada com doença grave, da qual veio a falecer, em Maio de 1998, e eu acompanhei--a no último ano da sua vida. Por essa razão, nesse período, a minha colaboração resumiu-se a textos esporádicos, de opinião política.

Também não acompanhei as alterações a nível administrativo: a administração da revista ficou a cargo de José Joaquim Lopes Figueiredo Luís, conhecido e respeitado empresário lacobrigense.

Analisando os conteúdos e as capas da publicação, constato que houve uma alteração profunda da sua linha editorial: falou-se do «Algarve À Conquista do Oriente - Macau na rota de Autarcas e Empresários da Região». O apresentador de televisão João Baião falou do programa Big Show» e a socialite Margarida Prieto dizia que «Não somos o “sexo fraco”».

O já falecido Engenheiro Nuno Mergulhão, presidente da Câmara Municipal de Portimão falava do seu concelho e Sir Cliff Richard tinha sido galardoado com uma Medalha de Ouro de Mérito Turístico. No entanto, ressalve-se que os temas jornalísticos relacionados com Lagos nunca foram esquecidos e foram tratados com o máximo rigor nas páginas desta revista lacobrigense.

4 - O primeiro regresso:

Em resposta a amável e generoso convite de Figueiredo Luís, proprietário da Nova Costa de Oiro, aceitei voltar «à minha casa» de sempre, desta feita com a função de Director Adjunto.

A nossa primeira edição saiu em Julho de 1998 e a última foi publicada em Dezembro de 1999.

Olhando para trás, confesso que este foi um dos períodos da minha carreira profissional de jornalista que recordo com mais prazer. Figueiredo Luís era exigente, mas também era justo. Nesse período fui sempre tratado com o mais profundo carinho e respeito por si e sua família.

Trabalhámos com afinco, mas também tínhamos momentos de grato convívio. Fizemos reportagens sobre o regresso às aulas, acompanhámos os nossos Bombeiros durante 24 horas e fizemos uma análise profunda às pescas, em Lagos, entre muitos outras temas.

Infelizmente, em Agosto de 1999, Figueiredo Luís falece em Espanha e este capítulo da Nova Costa de Oiro encerra-se em Dezembro desse ano. Eu segui para Aljezur, para o jornal e mais tarde a rádio «Maré Alta».

5 - O segundo regresso

Por razões de ordem pessoal, estive afastado da Comunicação Social durante 14 anos.

Foi em finais de 2018, quando estava internado num hospital da maior das ilhas das Caraíbas, que pensei em regressar à profissão que tinha abraçado em 1995. Contudo, nestes anos, muito se tinha alterado na Comunicação Social: por um lado, os jornais e as revistas tinham vindo a perder milhares de leitores ao longo do tempo e, por outro, os custos de produção e distribuição de uma revista em papel tinha aumentado substancialmente. Logo, se a Nova Costa de Oiro voltasse a ser publicada, teria de o ser num suporte que permitisse chegar a outros públicos, de forma mais moderna e apelativa.

A escolha pelo formato em suporte digital em que estamos hoje foi muito pensada e terá sido, salvo melhor opinião, a mais acertada.

De Julho de 2019 até ao presente, fizemos reportagens que não nos poderiam ter dado mais prazer realizar. Para mais, começámos a usar o vídeo, tendo tido reacções muito positivas e encorajadoras de quem nos segue.

No início deste ano, a Nova Costa de Oiro ficou mais rica, com a entrada para a equipa da jornalista Beatriz Maio, Licenciada e Mestre em Comunicação Social. Pela sua iniciativa e rigoroso trabalho, foram produzidos conteúdos que muito nos honram não só pela sua qualidade, como também pelo seu rigor, pertinência e actualidade.

6 - O futuro é uma página em branco, à espera de vir a ser escrita

Segundo os dados mais recentes do site «Repórteres Sem Fronteiras», em 2021, foram assassinados 23 jornalistas e quatro colaboradores. Há 349 jornalistas presos e 98 jornalistas cidadãos nesta mesma condição. De acordo com o site, estes dados contabilizam «unicamente os casos de profissionais da mídia em que Repórteres sem Fronteiras conseguiu comprovar que foram assassinados ou presos devido a sua atividade jornalística. Não inclui aqueles que foram assassinados ou presos por motivos não relacionados com sua profissão ou aqueles em que não foi possível confirmar um nexo com seu trabalho».

Analisemos esta notícia publicada pelo jornal Correio da Manhã, de 22 de Setembro último: «Entre os vários grupos de comunicação social de referência em Portugal que não são cotados em Bolsa foram poucos aqueles que não registaram perdas em 2020. No caso da Global Media, que detém o ‘Jornal de Notícias’, ‘Diário de Notícias’ e TSF, as perdas agravaram-se de forma significativa, com a empresa a registar prejuízos de 17,7 milhões de euros, de acordo com o Portal da Transparência da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC). Em 2019, o grupo presidido por Marco Galinha obteve prejuízos de 7,6 milhões de euros.

Em segundo lugar no ranking das maiores perdas está a Renascença. Pela primeira vez, a dona da Rádio Renascença, RFM e Mega Hits apresentou resultados líquidos negativos: 2,9 milhões de euros. Já o ‘Público’ continua a dar prejuízo. Em 2019 perdeu 3,3 milhões. Em 2020, o prejuízo foi de 2,6 milhões de euros. O mesmo aconteceu com o ‘Observador’, que passou de prejuízos de 1,3 milhões (2019) para 767 mil euros; o ECO, que registou perdas de 656 mil (847 mil em 2019) e a Newsplex, dona do ‘Inevitável’ e do ‘Nascer do Sol’, que perdeu 103 mil euros (410 mil em 2019)».

A Impresa Regional ou Local passa por tantas ou por mais dificuldades do que a Nacional: as empresas vivem momentos difíceis, não investindo por essa razão em publicidade, principal fonte de receita dos órgãos de Comunicação Social locais. Por outro lado, os leitores recorrem cada vez mais às redes sociais para se manterem informados, preterindo a leitura dos jornais e revistas locais.

O futuro? É uma página em branco (não será antes negra?), à espera de vir a ser escrita.

Carlos Mesquita