Uma evolução laboral não antecipada: Trabalho à distância

Esta edição assinala o Dia do Trabalhador que se celebra a 1 de Maio. Esta é uma efeméride que remonta a 1886, ano em que se realizou uma greve em Chicago, cidade norte-americana, com o intuito de conquistar melhores condições laborais. O principal foco era a redução da carga horária diária para oito horas, quando, até à data, chegavam a ser dezassete. A manifestação fora atribulada, marcada por confrontos policiais e resultando até em mortes e detenções de trabalhadores; uma verdadeira luta para esta classe, que vislumbrava já a mudança. 

A iniciativa serve, até hoje, de inspiração, em inúmeros protestos em todo o mundo. Em Portugal continua-se a lutar por diversos direitos, alguns já consagrados, mas não cumpridos, e outros a consagrar na Constituição da República Portuguesa, sendo este um tema em constante actualização. Tem-se também vindo a assistir a alterações inimagináveis em diferentes profissões, o que se traduziu em novas preocupações por parte dos funcionários.

Inevitavelmente, a pandemia que se alastrou no mundo veio acompanhada de transformações a nível laboral que antes não existiam; apreensões consequentes do trabalho à distância, longe do local físico destinado à actividade. Vive-se uma evolução exponencial do uso de tecnologia, capaz de alterar a necessidade dos indivíduos trabalharem lado a lado. Devido aos riscos de contágio de um vírus universal, as empresas viram-se obrigadas à adaptação e criação de novas e inovadoras formas de trabalho. A saúde e protecção individual estiveram na base da criação do regime de teletrabalho, a Organização Mundial da Saúde (OMS) informou os países de que seria necessário impor medidas drásticas para lidar com a emergência de saúde pública.

Visto que as restrições de confinamento resultaram em trabalho remoto por parte da maioria da população activa, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) disponibilizou um Guia prático online apelidado de: “Teletrabalho durante e depois da pandemia da COVID-19” (hiperligação disponível no final da Reportagem), com o objectivo de proporcionar recomendações de boas práticas neste novo regime laboral, tanto aos colaboradores como às empresas.

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, promulgou, no dia 29 de Março, o diploma do Governo que prorroga o teletrabalho até ao final do ano, a fim de diminuir a propagação do coronavírus. Na Página Oficial da Presidência da República Portuguesa pode ler-se «Atendendo aos motivos sanitários invocados, apesar das óbvias limitações que podem resultar para entidades colectivas de trabalhadores e empresários, o Presidente da República promulgou o diploma do Governo que prorroga até 31 de Dezembro de 2021 o regime excepcional e transitório de reorganização do trabalho e de minimização de riscos de transmissão da infecção da doença Covid-19 no âmbito das relações laborais».

No Decreto-Lei consta ainda que: «O trabalhador em regime de teletrabalho tem os mesmos direitos e deveres dos demais trabalhadores, sem redução de retribuição, nos termos previstos no Código do Trabalho ou em instrumento de regulamentação colectiva aplicável, nomeadamente no que se refere a limites do período normal de trabalho e outras condições de trabalho, segurança e saúde no trabalho e reparação de danos emergentes de acidente de trabalho ou doença profissional, mantendo ainda o direito a receber o subsídio de refeição que já lhe fosse devido».

Assim, três profissionais de diversas áreas laborais dão o seu testemunho, de forma a partilhar como têm experienciado a situação, como lidam com esta nova realidade e que obstáculos surgem como consequência.

Bruno Duarte

Bruno Duarte

Bruno Duarte, Agente Financeiro

Lacobrigense de 25 anos, é licenciado em Relações Internacionais e está neste momento a terminar o Mestrado em Estudos Internacionais no Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa – Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE). Interessa-se por Economia Internacional, História e Política; ler faz parte dos seus passatempos, assim como videojogos. Gosta de viajar, conhecer novos lugares e é adepto de Desporto.

Durante o período de Verão, e de regresso a casa, trabalhou em diversos restaurantes em Lagos. Em 2020, decidiu procurar um emprego em que fosse possível conciliar os estudos com uma experiência num ambiente laboral internacional. Candidatou-se ao BNP Paribas – um banco com alcance em todos os continentes, com presença em 75 países –, pela oportunidade de ingressar «num ambiente multicultural» onde tem a possibilidade de «interagir diariamente com colegas e clientes das mais diversas zonas do mundo».

Trabalhar a partir de casa era uma hipótese que Bruno previa para o futuro, devido ao avanço das tecnologias. Não esperava que fosse «desta forma tão radical», mas acreditava que poderia vir a ocorrer cada vez com mais frequência. No entanto, acrescenta que «a pandemia veio mudar por completo a forma como trabalhamos». Há já um ano que está em regime de teletrabalho, mas sente-se como se já estivesse «há anos». Após o término do primeiro Estado de Emergência declarado pelo Governo, deslocou-se ao escritório apenas durante algumas semanas no Verão de 2020, contudo em horários distintos dos colegas para diminuir o risco de contágio do coronavírus.  

«Todo o cuidado é pouco nesta pandemia»

Mesmo tendo sido cuidadoso com a saúde e ter respeitado sempre as normas de segurança, limitando as saídas de casa ao essencial, Bruno esteve infectado com Covid-19. O vírus foi-lhe transmitido por um membro da família que estava mais exposto ao contacto com os outros. Embora todos tenham recuperado na totalidade, não tendo sofrido problemas mais graves, este foi o momento que mais o marcou, servindo assim como alerta para os impactos que esta doença pode ter na saúde.

Antes do contexto pandémico nacional, o Agente Financeiro nunca pensou que o mercado português fosse sofrer esta drástica mudança, que classifica como «imediata». Previa que daqui a uma década ou mais, áreas que recorrem às tecnologias pudessem investir num regime misto – conjugando trabalho presencial e à distância – ou totalmente remoto, agora defende que estará para breve em profissões que assim o permitam. Sente que «esta transformação aconteceu de uma forma demasiado rápida» e que prevalecerá no futuro, mesmo após o término da crise sanitária.

No seu caso, afirma que o Banco proporcionou o apoio requerido, assim como a tecnologia necessária para trabalhar a partir de casa. Outro aspecto que realça são as iniciativas promovidas, no sentido de salvaguardar o bem-estar, tanto físico como emocional, dos funcionários, algo que considera «muito importante» tanto para a integração, como para os resultados obtidos.

«Nem tudo é fácil. Pessoalmente, a maior desvantagem é o facto de não estar junto dos colegas»

Mesmo com as tecnologias e a possibilidade de nos conectarmos através de inúmeros websites e aplicações, o distanciamento dos colegas de trabalho é sentido por todos. Bruno reconhece que as plataformas Skype e Teams ajudam na comunicação para as tarefas de trabalho, mas não substituem a partilha de momentos de convívio que, na sua óptica, fortalecem as relações entre os membros de uma equipa. Constata que «existe uma propensão para o desgaste dos trabalhadores neste regime», no sentido em que pode deixar de existir uma separação entre o espaço de casa e o espaço da entidade empregadora, que se confundem.

Esta é uma situação complexa para famílias numerosas que têm que conciliar trabalho remoto e funções profissionais com filhos em telescola, tudo no mesmo espaço. Algo que o Agente Financeiro acredita ser merecedor de compreensão por parte das empresas e por quem elabora as leis laborais, visto ser um desafio a adaptação entre o ambiente profissional e caseiro, o que «condiciona alguns aspectos do quotidiano» e pode “quebrar” a divisão entre o tempo de trabalho e de descanso, problema apontado por vários que experienciam este regime. Como Bruno é o único a trabalhar a partir de casa não passou pela necessidade de conciliar os seus horários ou espaço com quem vive.

«Estaria a mentir se não dissesse que estou a adorar»

No seu caso, como lacobrigense apreciador de passeios pela praia, tem aproveitado para recuperar a proximidade com a natureza que Lagos oferece, sendo que desde 2015, ano em que ingressou no Ensino Superior, não passava tanto tempo ininterrupto em casa. Apesar de ter ambicionado experienciar a vida noutros locais, reconhece o ambiente agradável que agora presencia junto da família e a qualidade de vida que a cidade possibilita: «Seria impossível em Lisboa sair do trabalho às 18:00 horas e ainda ir à praia, algo que fiz com bastante regularidade no Verão passado». A tranquilidade que uma caminhada à beira-mar lhe transmite depois de um dia de trabalho stressante e o facto de não perder tempo em deslocações em transportes públicos são exemplos de vantagens de trabalhar a partir de casa.

Alcance de metas profissionais

O jovem acredita que, com o avanço da tecnologia e a ascensão de profissões digitais, tal como a sua, não existe uma diferença acentuada entre alcançar objectivos profissionais em regime presencial ou remoto. Embora pense que, na sua área profissional, as metas podem ser atingidas de igual forma, admite que poderá haver outras profissões onde se torne mais difícil, sendo a detecção de falhas e a sua correcção mais «rápida e eficiente» presencialmente, visto existir um contacto permanente entre colaboradores. Assim, apontou as tecnologias e a autonomia de cada um como factores fundamentais na progressão da carreira.

Inicialmente deparou-se com alguns obstáculos, sentiu-se apreensivo devido ao facto de ter sido contratado apenas em Fevereiro, pouco tempo antes de se suceder o surto de Covid-19. Estava ainda em formação profissional quando o alastramento dos casos activos não o permitiu concluir a mesma presencialmente, tal como desejava. Ainda que, numa fase inicial, o primeiro Estado de Emergência não o tenha permitido trabalhar no escritório por mais do que um mês, a sua integração correu da melhor forma possível e tanto ele como os colegas tiveram uma adaptação rápida e total ao «novo regime 100% digital».

Ana Sofia Ferreira

Ana Sofia Ferreira

Ana Sofia Ferreira,  Administrativa de Propriedades

Natural de Lagos, aos 36 anos já passou por várias profissões, desde Recepcionista a Administrativa em diversas áreas, trabalhando actualmente como Administrativa de Propriedades. Tem interesse por áreas como Saúde e Beleza, gosta de ler, fazer trabalhos manuais e actividades com os filhos. Há um ano, altura em que nos deparamos com o primeiro confinamento, focou-se em praticar desporto regularmente e em ter uma alimentação mais saudável.

Vários foram os motivos que a fizeram mudar de profissão e aceitar o cargo que agora desempenha. Para além de ser uma nova oportunidade, a vontade de fazer algo diferente e de mudar de ambiente juntaram-se ao horário favorável e aos fins-de-semana livres, o que a permite estar mais presente na vida dos filhos e conciliar o seu tempo livre com o deles.

Nunca se imaginou a trabalhar a partir de casa. Tal como para a maioria dos portugueses, também para Ana esta realidade foi inesperada. Assim como Bruno, teve a primeira experiência de teletrabalho no início da pandemia, em 2020, também quando foi decretado o Estado de Emergência. Voltou a trabalhar presencialmente quando foi autorizada a reabertura dos estabelecimentos, contudo, no final do ano voltou a trabalhar remotamente, mas apenas de forma parcial. Em Janeiro de 2021, com o agravamento da situação epidemiológica em Portugal, tem estado sempre em teletrabalho.

«O maior [desafio] é sem dúvida o facto dos meus filhos terem aulas em casa e ter que interromper o meu trabalho para lhes prestar auxílio»

Reconhece que trabalhar em casa com a presença dos filhos tem sido o maior desafio com que se depara, por acarretar já algumas adversidades, que, com a presença de três crianças com idades inferiores a 12 anos, em anos escolares diferentes, são acrescidas. As aulas online exigem que as crianças realizem trabalhos em que muitas vezes precisam de auxílio, o que leva a que a mãe se veja obrigada a parar a sua actividade profissional de forma a ajudar nas tarefas.

A falta dos amigos e do convívio fora do ambiente familiar foi algo sentido por todos. Ana admite ter sentido mais dificuldade em conciliar o trabalho e a constante vivência com a família no confinamento do ano passado, primeiro contacto com esta experiência que todos tiveram. «Neste segundo [confinamento] já organizei espaços de trabalho e estudo de maneira a que todos conseguíssemos ter alguma organização sem nos atrapalharmos», menciona ao longo da entrevista. A adaptação a esta nova realidade ajudou a que se tornasse cada vez mais acessível dividir o espaço de trabalho com a família, porém continua a existir sempre «refeições para fazer» e «dúvidas para esclarecer», além de uma casa «muito mais desarrumada».

«A falta de espírito de equipa ou de socialização também é algo desafiante»

Vários são os obstáculos no regime de trabalho à distância; a socialização e o trabalho de equipa sofreram mudanças drásticas. A relação entre a empresa e os funcionários tem agora características distintas das anteriores à pandemia, pelo que, para Ana, a empresa deve confiar nos empregados para que estes se sintam confiantes no seu desempenho profissional. Acredita que liberdade de gestão de tempo é importante – desde que as tarefas impostas sejam cumpridas, assim como os prazos delineados pelo empregador –, pois permite ao empregado trabalhar em condições confortáveis e favoráveis. Porém, aponta o maior gasto nos serviços de electricidade e água em casa como desvantagem de trabalhar remotamente.

Do ponto de vista dos empregadores vê como vantagem a redução de despesas, visto deixar de ser essencial, em várias profissões, financiar espaços físicos para os funcionários desenvolverem a sua actividade. No entanto, reconhece que é fundamental existir apoio e acessibilidade por parte da empresa, tanto a nível de organização como de disponibilidade de recursos. Após reflectir sobre os prós e contras desta nova forma de trabalhar, faz um balanço positivo, tanto para os trabalhadores como para as empresas.

«Um bom profissional remotamente, não terá dificuldade em alcançar objectivos»

Os objectivos profissionais de diversas áreas passam agora a necessitar de uma abordagem diferente para ser atingidos. É possível que trabalhadores da mesma empresa não se conheçam ou apenas se tenham reunido presencialmente um par de vezes, o que exige que novos empregados demonstrem o seu trabalho e eficiência à distância. A entrevistada acredita que não será mais difícil alcançar metas com este novo regime. Na sua perspectiva, apesar de depender da área e empresa, assim como do esforço demonstrado pelo trabalhador, um profissional que cumpra com o que é estipulado e comprove que concretiza o trabalho da melhor forma que lhe é possível, continua a ter a mesma possibilidade que tinha anteriormente para progredir na carreira.

Por fim, a durabilidade do teletrabalho é questionada por muitos, embora não seja ainda possível antecipar se este regime irá perdurar. Na opinião de Ana, o que tem de menos bom pode ser contornado facilmente: «Por exemplo, relativamente à falta de socialização, de um ambiente/espaço diferente ou falta de alguns recursos, há uma crescente nos espaços de cowork [espaços que recebem trabalhadores de várias empresas] em todo o mundo, tendência que ajuda a eliminar estes obstáculos. Nós no Algarve somos de certa forma privilegiados pois podemos sempre almoçar numa esplanada à beira-mar e adiantar algum trabalho sem estarmos confinados a quatro paredes».

Maria Clara Rato

Maria Clara Rato

Maria Clara Rato, Professora Natural de Lisboa,

mudou-se para Lagos em Dezembro de 1995. Tem 53 anos, é Licenciada em Línguas e Literaturas Modernas – Variante Estudos Portugueses e Franceses e Mestre em Didáctica da Literatura. Começou a dar aulas em 1989 em Lisboa e arredores e, em 1993, foi colocada na Escola Secundária Poeta António Aleixo, em Portimão. Há 23 anos que é Professora na Escola Secundária Júlio Dantas.

Os seus passatempos passam por Pilates, Ioga, leitura, Dança (Sociais e Tango), Canto e viagens. Tem interesse na área da Cultura, Política e Associativismo. Sempre gostou de Línguas e tinha até exemplos na família de pessoas nesta área profissional. A possibilidade de trabalhar com jovens em formação e de acompanhar a educação escolar dos filhos foram factores que a cativaram na escolha da profissão a exercer.

«Nunca me imaginei a trabalhar exclusivamente de casa»

Como professora, a sua actividade profissional nunca passou apenas pela presença na Escola, levar trabalho para casa era já habitual, mas trabalhar exclusivamente a partir de casa foi algo que nunca pensou vir a acontecer. Para Clara, o Ensino à Distância teve início a 16 de Março do ano passado.

Posteriormente, de dia 18 de Maio a 26 de Junho de 2020, esteve em regime misto: os alunos do 12.º ano estavam no regime presencial, enquanto que os do 11.º ano continuavam a ter aulas a partir de casa. Em Janeiro voltou ao Ensino à Distância, até à retoma das aulas que se sucedeu a 19 de Abril.

Na sua opinião, esta nova forma de trabalho «não é fácil, pois o lugar dos alunos é na escola e todas as actividades e/ou tarefas são mais morosas». Contudo, como lecciona os anos terminais do Ensino Secundário, acredita que os alunos «já adquiriram um ritmo de trabalho e são mais autónomos», reconhecendo que no 1.º ciclo será «certamente mais difícil».

Este novo regime, proveniente da situação pandémica em que vivemos, apresenta vantagens e desvantagens. Clara aponta como aspectos positivos «a aprendizagem muito rápida de app’s [aplicações móveis] e plataformas através das quais o Ensino à Distância se desenvolve, quer da parte dos professores quer da parte dos alunos» e afirma que acarreta desvantagens como «a distância, a falta de proximidade física e a morosidade das actividades».

«A cobertura de rede de internet (…) dificulta a comunicação»

Trabalhar com o Google Classroom tem sido um desafio para todos. A Professora crê que colocar actividades nesta plataforma por escrito requer mais exigência do que presencialmente, que apenas seriam explicadas rapidamente em sala de aula. A ligação à Internet é, frequentemente, um obstáculo consoante o local onde os docentes e discentes se encontram, sendo que a rede é mais fraca em Aljezur e Vila do Bispo do que em Lagos, o que dificulta a comunicação.

A distância não a impede de cumprir atribuições profissionais: tem um Programa a seguir e alunos, que irão realizar o Exame de Português do 12.º ano, à sua responsabilidade. Destaca ainda a «capacidade de auto-regulação» do sistema de Ensino que possui «determinados timings como as avaliações intercalares no meio dos períodos e as finais de período». Não considera existir diferença em alcançar objectivos profissionais por parte de professores ou alunos, sendo que o Agrupamento e a Direcção se mantêm a par de todos os desenvolvimentos de ambos. Mencionou que, durante o confinamento deste ano, três alunos participaram na Sessão Distrital do Projecto Parlamento Dos Jovens online.

Este novo método requer um ajuste de todos, desde alunos, professores até ao Ministério de Educação. Clara partilhou com a Revista que, desde que teve início o Ensino Remoto, a Escola proporciona acções de formação práticas aos professores para lidar com todas plataformas e app’s essenciais. O Ministério da Educação enviou também orientações relativas aos procedimentos desta nova forma de Ensino, tanto a nível do uso e recurso às Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC), como da Segurança. No entanto, acrescenta que «só com a prática foi possível adquirir a tranquilidade (possível) neste regime».

«Não me parece que seja para ficar, pois nada substitui o regime presencial»

No seu ponto de vista, esta é uma tendência que não irá permanecer porque não acredita na possibilidade de substituição do regime presencial. Contudo, para o futuro, aborda-se já «ambientes híbridos», a coexistência entre digital e clássico em sala de aula de «forma natural». No que diz respeito a outras profissões, prevê que haverá uma adaptação das empresas a este novo paradigma, «principalmente para aqueles trabalhadores que estão, normalmente, no escritório, numa secretária em frente a um computador».

Este ano de pandemia tem sido acompanhado por momentos marcantes para todos. Clara destaca as notícias constantes com relatos de mortes, provenientes da Covid-19, em países como Espanha, Itália e Brasil, o que, para si, aumentou o medo de contrair a doença. Assinala também a necessidade de reorganização da família e adaptação, dado que em sua casa vivem dois professores e dois alunos. Assim, tiveram que recorrer a uma selecção de espaços para não colidirem uns com os outros, o que tem sido possível de conciliar.

Serão a produtividade e profissionalismo afectados por este regime de trabalho?

As opiniões dispersam quando se questiona o empenho e aproveitamento de cada um, há quem considere o tempo mais rentável em casa e quem prefira trabalhar num local definido com horários estabelecidos.

Bruno vê-se «bastante mais produtivo» actualmente do que quando se deslocava ao escritório. Na sua opinião, a qualidade de vida é superior, dado que se experiencia «muito menos stress no dia-a-dia», o que contribui para a sua concentração. O profissionalismo é também alvo de debate e, frequentemente, posto em causa neste novo regime. O Agente Financeiro afirma ter conhecimento de relatos, por parte de funcionários de diversas empresas, sobre a existência de tentativas de intromissão na vida privada do trabalhador, com o intuito de averiguar se os colaboradores estão de facto a exercer as suas funções. No seu caso, nunca experienciou este problema.

Neste sentido, mencionou necessária a criação de legislação adequada para colmatar esta situação, assegurar os direitos dos trabalhadores e protegê-los de eventuais «abusos de privacidade» por parte das empresas, uma vez que reconhece que poderão surgir «constrangimentos» derivados do teletrabalho, como por exemplo, despesas acrescidas de electricidade, que numa situação de trabalho normal seriam suportadas pela entidade patronal. Nas suas palavras «as empresas já entenderam que existem muitos benefícios» provenientes desta modernização laboral e que esta tendência pode originar «maior rentabilidade fruto dos menores custos com os escritórios».

Ana considera que a possibilidade de organizar o seu dia tem como consequência uma maior motivação e eficiência: «Acho que o trabalho a partir de casa é bastante mais produtivo, pois consegues gerir o teu tempo e conciliar com outras actividades de que gostas. Consequentemente és uma pessoa mais satisfeita, feliz logo, mais produtiva». Sente-se também mais autónoma e capaz de trabalhar a partir de qualquer lugar em que tenha acesso à Internet. Acredita que em alguns casos o profissionalismo é posto em causa neste regime de trabalho, «algumas vezes por parte dos empregadores e colegas». A seu ver, o desempenho profissional de cada um tem influência na forma como a execução do trabalho é apreciada por parte da equipa e superiores, contudo, pensa que esta questão «é uma tendência que deverá diminuir com o tempo».

Na opinião de Clara, a produtividade é, muitas vezes, afectada pelas mudanças a que este período obriga. A Professora reconhece que há alunos que «não se enquadram» e acabam por perder a motivação, mas em contrapartida, o contrário também se verifica, alunos que em sala de aula estão sem motivação e à distância «são mais cumpridores e autónomos». No seu caso, admite trabalhar mais horas neste regime, «ultrapassando as horas semanais estipuladas», está sempre no computador, de forma a manter contacto permanente com todos os elementos que compõem a comunidade escolar. Já em relação ao profissionalismo defende que «depende de como se trabalha e com quem se trabalha», na capacidade de organização e cumprimento de prazos.

Um ano atípico sentido por muitos como uma eternidade, onde mudanças radicais deram lugar ao “novo normal”. A esperança de que tudo volte a ser como antes é partilhada e comum, são diversos os aspectos indicados como positivos e negativos, cada profissional faz o seu balanço. Muitos são os que vivem esta realidade e se deparam com desafios todos dias, nas mais variadas áreas profissionais.

A adopção do regime de teletrabalho é agora «obrigatória», não existindo necessidade de um acordo escrito entre o empregador e o trabalhador. Contudo, é necessário que as funções do trabalhador assim o permitam e que este disponha de condições para as exercer. Caso não seja possível, a empresa deve comunicar por escrito a decisão de revogar o trabalho remoto, esclarecendo que as funções da competência do funcionário não são compatíveis com este regime.

Guia prático “Teletrabalho durante e depois da pandemia da COVID-19” https://www.dgert.gov.pt/oit-practical-guide-on-teleworking-during-the-covid-19-pandemic-and-beyond

Beatriz Maio