Farol da Ponta da Piedade - Lagos

Cabo da Roca

Cada terra com seu uso, cada “Roca” com seu fuso

«Valeu a pena? Tudo vale a pena se a alma não é pequena» - Fernando Pessoa - A Mensagem

EMBORA por motivos diferentes, o Cabo da Roca e a Ponta da Piedade são dois locais notáveis: este, por ser o lugar mais belo do mundo; aquele, porque é «Onde a terra se acaba e o mar começa» — nas palavras do épico que, n’ «Os Lusíadas», assim imortalizou o ponto mais ocidental do continente europeu.

Curiosamente, tanto um como a outra tem em comum a existência de faróis de ajuda à navegação, e também o facto de, em 2013, terem ambos sido brindados com torres metálicas pertencentes ao SIVICC da GNR — o que, no caso da nossa cidade, ocorreu precisamente no ano do centenário da sua construção — um presente de muito mau-gosto, mas que, tanto quanto se sabe, foi recebido com a santa passividade com que a maioria dos lacobrigenses encara as agressões ao seu património, seja ele natural ou edificado.

Ao invés, no caso do Cabo da Roca não faltaram os protestos cívicos contra a localização do trambolho — protestos esses que, embora na altura não tenham impedido a referida implantação, ficaram, pelo menos, nos anais de Sintra — de tal forma que ainda hoje se pode ler o relato da manifestação que lá teve lugar, a moção aprovada na Assembleia Municipal e a posição pública assumida por Basílio Horta, à época recém-eleito Presidente da Câmara.

Curiosamente, também, e ao contrário do que se chegou a pensar, essa saga ainda teve mais dois desenvolvimentos:

O primeiro (e mais importante) deu-se no dia 11 de Dezembro de 2017, quando a Mãe Natureza resolveu intervir e, com a ajuda de uma tal Ana (assim se chamava a tempestade que, nesse dia, assolou a zona), fez o que uma das imagens mostra. Nesse seguimento, e tanto quanto se sabe, o Governo ainda quis ressuscitar o cadáver, mas acabou por desistir, perante o reacender dos protestos.

O segundo foi quando, já recentemente, foi tornado público que a “Parques de Sintra — Monte da Lua, S.A.”, encomendou à Eratel a “Elaboração de um projecto para deslocalização da antena SIVICC do Cabo da Roca”.

Tudo indica, portanto, que estão de parabéns os sintrenses, que se podem orgulhar de que a sua luta “valeu a pena” — pelo que as palavras de Camões, que figuram numa lápide existente no local, ficariam muito bem acompanhadas com as do outro grande vate, que escolhi para epígrafe. E isso não seria de todo impossível, pois as letras que as formam até já existem: são as famigeradas letras metálicas que chegaram a figurar em lugar de destaque na Praça do Infante, mas que agora devem estar disponíveis — dado que, como se sabe, foram prontamente removidas, por ter sido considerado que, apesar de dedicadas aos Descobrimentos, constituíam, na forma e no conteúdo, uma “mensagem” inapropriada... numa cidade que dá pelo nome de “Lagos dos Descobrimentos”!

Carlos Medina Ribeiro