José Vila

«Coisas da Terra e do Mar - sabores da cozinha algarvia»

Em memória de José Vila

Faleceu no passado dia 29 de Março, aos 77 anos, José Vila (José Duarte Martins da Silva, mais conhecido pelo nome que adoptou em homenagem ao poeta colombiano Vargas Vila -1860-1933).

Vila, que foi uma figura única e emblemática não só na Restauração algarvia, como na nacional, teve na Gastronomia e na Pintura as suas grandes paixões.

Na gastronomia recordava as refeições ao colo do avô e, mais tarde, em cima de caixas de figos.

Viveu na Mexilhoeira Grande, em Castro Marim, em Vila Real de Santo António, em Faro, na Fuseta, em Olhão e em Lagos, onde ganhou amizade e respeito pelos mais velhos, com eles aprendendo as «artes da cozinha».

Naturalmente, apaixonou-se pela comida algarvia ou pela «cozinha de carência», como costumava dizer. Para ele, a sua terra era o Algarve da Terra e do Mar. Foi por essa razão que deu o nome de «Coisas da Terra e do Mar - sabores da cozinha algarvia» ao seu livro de gastronomia algarvia, com excelentes fotografias do aljezurense João Mariano, editado em 2001.

Conheci-o na década de 80, na adega que abriu com o seu amigo, José Lisa, na Mexilhoeira Grande (uma das freguesias do concelho de Portimão), de onde era natural. Nessa altura, este restaurante em casa térrea, de paredes caiadas, de barras azuis e porta e janelas amarelas, sem placa na porta, com os seu bancos corridos, só estava aberto na época estival. Como funcionava por um curto período de tempo, eu, os meus familiares e amigos, agendávamos e reservávamos as nossas idas a este retiro do bem comer com antecipado prazer, como até de uma «romaria» se tratasse. Como esquecer os maravilhosos «caldo grão com rabo de boi», as «papas de milho» - o xarém, como é mais conhecido no Sotavento Algarvio, com lingueirão, ou o «pernil assado no forno», acompanhados por vinho ou água, pois nem sumos de lata, cerveja ou ice teas eram servidos?

Encontrávamo-nos muitas vezes no restaurante «Arribalé», do José António Arez, na Rua da Barroca, em Lagos. Aí, sentados ao balcão, entre «imperiais» servidas em copos nunca lavados com detergente e para nós reservados, falávamos horas a fio. Vila era um excelente conversador e comunicador, mas não nos centravámos única e exclusivamente na gastronomia e na pintura: em liberdade, «navegávamos mar fora». E eu aprendia, aprendia, escutando-o...

O meu amigo, colega de Universidade e de profissão Paulo Salvador, trouxe o José Vila à sua rubrica Mesa Nacional, na TVI, visionamento que recomendo.

Sobre o José Vila, Sandra Nobre, jornalista do Público, escreveu este texto, que cito: «O artista que faz lembrar Hemingway está sentado junto à janela, a meio da tarde de um dia quente, com o sol a espreitar entre as portadas, donde avista o homem que dormita na esplanada em frente, o charuto a meio fumado, o copo já vazio, a música a varrer a casa, ar sereno. Uma certeza: "Gosto da minha vida."».

O Vila partiu. Restam-me as boas memórias de um longo convívio, ameno, prazenteiro embora não muito regular e o muito que me ensinou.

Carlos Mesquita