José Francisco Rosa

A Nova Costa de Oiro tem o grato prazer e a honra de publicar em exclusivo algumas memórias de um lacobrigense de 97 anos, compiladas em trabalho de circulação restrita.

Este é um revisitar de Lagos em décadas passadas, de traquinices e tropelias. Mas, e acima de tudo, é um importante registo hisórico, que pode e deve servir para memória futura.

O seu autor é José Francisco Rosa, nascido em Lagos, a 21 de Fevereiro de 1924 e que completou os seus estudos em Lisboa, tendo ingressado no ensino aos 20 anos, como Mestre do Ensino Técnico Profissional.

Largo da Senhora da Glória

Descendo a rua dos Moinhos e virando a esquina, à esquerda, estamos no Largo da Senhora da Glória, onde no lado direito existe uma parede bem alta, que separa o largo de uma propriedade privada.

Do lado esquerdo, descendo, a primeira casa térrea era ocupada por um Guarda Nacional Republicano, seguindo-se uma fábrica de conservas de peixe, sardinha, a funcionar e, ao lado, a casa onde os soldadores soldavam as latas de conserva. Logo a seguir, outro rés-do-chão, onde moravam os avós do Romeu e, por fim, as ruínas da Fábrica do Convento da Senhora da Glória, propriedade da firma «Borba» Brandeiro Correa e Cª Lda, já sem telhado e com os vidros das janelas partidas.

Mesmo no fim do largo existia a Igreja de Nossa Senhora da Glória, também em ruínas, sem tecto e com um taipal para impedir a entrada de intrusos, servindo de depósito a material militar obsoleto, pertencente ao Regimento de Infantaria 15.

Esta igreja fazia parte do Convento de Nossa Senhora do Loreto ou dos Capuchos e que mais tarde, em 1560, foi reedificada, passando a denominar-se Convento de São Francisco ou dos Capuchos, mas que em 1716 é dedicado a Nossa Senhora da Glória.

Precisamente ao lado da Igreja estava um aquartelamento da Guarda Nacional Republicana que ocupava várias salas do rés-do-chão e do 1º andar, dependências do casarão enorme que foi o Convento do Loreto.

Nos anos 30 do século XX era seu comandante o Sargento de Cavalaria Freitas Júnior, casado com D.ª Isaura. O casal tinha 4 filhos: a Benedita, depois o Mateus, a Ivone e, por fim, a mais novinha, a Amália. O casal ocupava o 1º andar do quartel, vendo-se na foto as duas janelas pertencentes aos seus aposentos.

Começando pelas duas portas que se vêem na foto, a da esquerda sempre aberta era a entrada para o quartel e a da direita estava sempre fechada. Entrava-se numa ampla sala ladrilhada, tendo como mobiliário uma secretária, uma cadeira e, no lado oposto, um banco corrido. Ao fundo havia uma porta larga que dava acesso à escada para os aposentos do comandante e para um corredor que nos levava ao gabinete do sargento, a uma arrecadação onde se encontravam umas pasteleiras (bicicletas) que serviam para os guardas se deslocarem nas patrulhas que faziam de dois dias.

Por este corredor podia-se seguir para a cavalariça e para o dormitório (caserna) dos guardas.

Este corredor possuía uma porta que dava acesso a um quintal amplo e onde o filho do sargento e os filhos dos guardas brincavam.

A caserna era ampla, repleta de janelas, várias camas de ferro, bem compostas e tendo por baixo uma mala, onde os guardas guardavam os seus pertences: capote, bivaque, botas, etc., etc.

Como mesa de cabeceira lá estava o armeiro, com a respectiva Mauser.

Antes de entrar na caserna passava-se por um cubículo com um chuveiro rústico (um balde zinco) cheio de água que se esvaziava por meio de uma corrente, puxando-o.

Junto, outro cubículo, era o calabouço escuro, com uma tarimba e uma porta gradeada mas, felizmente, sempre aberta.

Na sala de entrada encontrava-se o plantão (guarda de serviço) que atendia o público, recebia a correspondência, levando-a ao comandante e, bem assim, as queixas recebidas.

José Francisco Rosa

(continua na próxima edição)