José Francisco Rosa

A Nova Costa de Oiro tem o grato prazer e a honra de publicar em exclusivo algumas memórias de um lacobrigense de 96 anos, compiladas em trabalho de circulação restrita.

Este é um revisitar de Lagos em décadas passadas, de traquinices e tropelias. Mas, e acima de tudo, é um importante registo hisórico, que pode e deve servir para memória futura.

O seu autor é José Francisco Rosa, nascido em Lagos, a 21 de Fevereiro de 1924 e que completou os seus estudos em Lisboa, tendo ingressado no ensino aos 20 anos, como Mestre do Ensino Técnico Profissional.

Praia da Rocha (Portimão)

Praia da Rocha (Portimão)

Enchente inesperada

...O imprevisto aconteceu... quando a maré subia, a tenda quase invadia e a onda surgiu...

O agrupamento nº 65 dos Escoteiros de Portugal, cuja sede funcionava na Rua Lançarote de Freitas, em Lagos, resolveu fazer um acampamento fora da cidade.

Depois de uma reunião, numa das noites, na sede, ficou resolvido que o acampamento seria na Praia da Rocha, em Portimão.

O chefe do agrupamento, sargento do exército no Regimento de Infantaria de n.º 15, aquartelado em Lagos, providenciou o empréstimo de duas tendas pequenas do exército, porque a tenda do grupo, embora grande, não comportava todos os participantes.

Alguns escoteiros, já homens feitos, como tinham emprego, só ao domingo estavam livres para acamparem e, por esse motivo, eram necessárias mais tendas.

E, lá foram de comboio até Portimão.

Assim que saíram da estação, pernas para que vos quero... começaram a marchar, ao mesmo tempo que iam cantando a canção preferida para aquelas andanças, que era assim:

Quem passeia aquece

O ar purifica

Quem na cama fica

Dará cabo do colchão

O nosso coração

Pula de contente

Vamos de repente

Outras vistas desfrutar

É tão bom andar

Por montes e vales

Espantar os males

E cantar com alegria

Quem no mundo fia

Os seus dissabores

Vê crescer as dores

Sem nenhuma precisão Etc... etc... etc...

Chegados ao seu destino, a Praia da Rocha, sob as ordens do chefe e sub-chefe, as tarefas foram divididas e, enquanto as tendas eram erguidas por uns, outros foram buscar água ao casino que ficava perto, mesmo sobranceiro à praia.

Os escoteiros andavam numa roda-viva, era uma azáfama na montagem das tendas, pois a noite já se aproximava e, ainda tinham de ir jantar e fazer o serão ao redor da fogueira, antes de se irem deitar.

Finalmente, essa hora chegou e, depois de se distribuírem pelas três tendas, caíram nos braços de Morfeu, adormencendo.

Só que, numa das tendas, às tantas da madrugada, o imprevisto aconteceu e... uma das tendas tinha sido montada muito perto da arrebentação das ondas e, quando a maré encheu, galgou a praia, entrando pela tenda dentro, encharcando quem lá se encontrava.

O rebuliço foi de tal maneira que acabaram por acordar todos os outros escoteiros e, então, era vê-los todos a desmontar a tenda e a montá-la, novamente, junto das outras.

A paz chegou, finalmente, mas já não dormiram, pois as mantas encontravam-se molhadas e o Sol estava a querer despontar no horizonte.

O domingo apareceu com um belo Sol, que aqueceu toda aquela malta que tomou banho, antes de se levantarem para desfrutarem o lazer de um dia de domingo na Praia da Rocha.

Nota final: Naquela época, existia o Casino da Praia da Rocha, sobranceiro à praia e que foi remodelado, sendo actualmente conhecido por Hotel Oriental.

José Francisco Rosa

(memória dos anos 36)