José Francisco Rosa

A Nova Costa de Oiro tem o grato prazer e a honra de publicar em exclusivo algumas memórias de um lacobrigense de 96 anos, compiladas em trabalho de circulação restrita.

Este é um revisitar de Lagos em décadas passadas, de traquinices e tropelias. Mas, e acima de tudo, é um importante registo hisórico, que pode e deve servir para memória futura.

O seu autor é José Francisco Rosa, nascido em Lagos, a 21 de Fevereiro de 1924 e que completou os seus estudos em Lisboa, tendo ingressado no ensino aos 20 anos, como Mestre do Ensino Técnico Profissional.

Alvor antigo

A Igreja de Alvor

Festa em Alvor

... O imprevisto aconteceu... quando os alvoreiros não gostando do repertório musical e, em alta gritaria...

Alvor, nos anos 36, era uma pequena vila do barlavento algarvio, situada no concelho de Portimão, distrito de Faro.

Reza a história que em 716 foi conquistada pelos muçulmanos, que lhe deram o nome de Al-our, ou Alvor.

Em 1189 foi reconquistada por D. Sancho I, mas voltou novamente para a posse dos mouros e, em 1250, aquando da conquista do Algarve, por D. Afonso III, volta a ser portuguesa.

Mais tarde, D. Manuel I eleva Alvor a vila.

Em 25 de Outubro de 1495 faleceu nesta terra el-rei de Portugal D. João II, sendo sepultado na Sé de Silves e, em 1499, por ordem de D. Manuel I, os seus restos mortais foram transladados. Actualmente, jazem no Mosteiro de Santa Maria de Vitória, na Batalha.

Possui Alvor uma belíssima igreja, com 3 naves, denominada Igreja do Divino Salvador.

Resolvendo os alvoreiros festejar o Santo Salvador, Padroeiro da Vila de Alvor, fizeram um convite à direcção da Filarmónica Lacobrigense 1º de Maio, de Lagos, para que esta abrilhantasse os festejos: Procissão e Arraial nocturno com concerto, havendo ainda fogo-de-artifício.

Anuindo ao convite, a Banda deslocou-se de comboio até Alvor. Houve o cortejo religioso na parte da manhã, que foi acompanhado pela Banda, tocando as músicas cadenciadas e próprias do evento.

Correu tudo lindamente, sem percalços. Os músicos foram almoçar e, às tantas, chegou a hora do concerto, que seria apresentado pela Filarmónica.

Então, maestro e músicos foram subindo por uma escada, para um palanque de madeira, construído pelos alvoreiros. No cimo do palanque, os músicos ocuparam os seus lugares e o mestre distribuía as partituras, dando início ao concerto, com os instrumentos musicais afinadinhos, todos compenetrados na execução do repertório escolhido pelo maestro.

Só que... aqui o imprevisto aconteceu e... Ao silêncio que se manteve durante as primeiras músicas tocadas, seguiu-se um vozear cada vez mais exaltado, com protestos em alta gritaria. «Fora, fora», gritavam os alvoreiros, bastante indignados com os componentes da Banda e o alarido era tamanho, que o trombonista , já amedontrado, gritou para o maestro: «Ó... maestro, vamos tocar marchas e pasodobles, senão ainda vamos parar ao hospital!...».

O maestro, então, distribuiu novas partituras com música popular e o efeito foi surpreendente. A calma voltou ao terreiro. É que a música clássica não era adequada para um arraial e os alvoreiros queriam era música que os fizesse vibrar: marchas, corridinhos, pasodobles, etc. e estas caíram no goto que nem ginjas.

Eles já dançavam e batiam palmas de satisfação a cada música que iam ouvindo.

Às tantas, terminou o concerto, o fogo-de-artifício foi bonito de se ver, os músicos regressaram a Lagos, bem dispostos, mas nunca mais se esqueceram da cagufa que apanharam no alto daquele palanque, devido à imprevista gritaria de protestos dos alvoreiros.

José Francisco Rosa

(memória dos anos 36)