José Francisco Rosa

A Nova Costa de Oiro tem o grato prazer e a honra de publicar em exclusivo algumas memórias de um lacobrigense de 96 anos, compiladas em trabalho de circulação restrita.

Este é um revisitar de Lagos em décadas passadas, de traquinices e tropelias. Mas, e acima de tudo, é um importante registo hisórico, que pode e deve servir para memória futura.

O seu autor é José Francisco Rosa, nascido em Lagos, a 21 de Fevereiro de 1924 e que completou os seus estudos em Lisboa, tendo ingressado no ensino aos 20 anos, como Mestre do Ensino Técnico Profissional.

É com profunda satisfação e em exclusivo da revista Nova Costa de Oiro, que damos início nesta edição à publicação de alguns textos que integram o mais recente livro do nosso colaborador José Francisco Rosa, intitulado «Quando eu era Criança».

Neste trabalho de 124 páginas, o autor retrata-nos algumas ruas da cidade de Lagos (com destaque para as localizadas próximas da sua residência, na Rua da Senhora da Glória), como a conheceu entre os anos de 1930 e 1937 e de algumas pessoas que lá residiam.

«A Rua», não obstante a ausência de saneamento básico era, então, o enorme pátio de recreio da criançada. Da Rua da Barreira à do Cemitério, do Largo da Henriqueta à Rua Nova da Aldeia, passando pela dos Moinhos, ou pelo Largo e Rua da Senhora da Glória até ao Cerro das Mós, são muitas as brincadeiras que aí tiveram lugar e relatadas neste livro.

Ao autor, o nosso agradecimento pela oferta deste livro e a sua autorização para dele publicarmos alguns textos, que irão enriquecer a Nova Costa de Oiro.

A Rua da Barreira

Algumas ruas e suas gentes - Rua da Barreira

Era eu criança, residia nos limites da parte norte da cidade de Lagos, fora das muralhas e bem junto ao campo, num 1º andar da Rua da Barreira, paralela à Rua do Cemitério, próximo das ruas: Nova, Moinhos, Largo e Rua da Senhora da Glória e de um monte, conhecido por Cerro das Mós.

A Rua da Barreira

Esta rua era um pouco inclinada, começando junto à Rua do Cemitério, apenas separada, até uma pequena distância por um muro, indo desembocar na Rua da Aldeia, ou rua da ladeira, como os miúdos a conheciam. Ao chegar à residência dos Santarém, fazia um desvio para a direita, que terminava mesmo ao cimo da Rua dos Burros, ou da Capelinha, indo entroncar-se novamente com a Rua do Cemitério.

Nesta rua residiam o sr. João Pedro, dono do andar onde eu morava no 1º andar e no r/c um sapateiro. Seguia-se a fábrica de conservas do Pagarete e várias casas térreas, entre elas a dos Santarém. Este Santarém possuía um carro de bestas, com o qual governava a vida.

Os outros moradores, geralmente trabalhavam na construção civil e as mulheres nas várias fábricas de conserva de peixe que existiam na zona. Tudo gente de condição humilde.

Jogo do lenço

A cena passa-se no mesmo local das cantigas, pois aí há espaço suficiente para a miudagem fazer uma roda, mas com as mãos descaídas.

Seguidamente, um dos componentes do grupo fica de fora e, com um lenço na mão, contorna os colegas, dizendo uma lenga-lenga, assim: [Aqui vai o lenço [Aqui fica o lenço [Aqui vai o lenço [Aqui fica o lenço

A determinada altura, discretamente, deixa cair o lenço junto dos calcanhares de um dos membros do grupo.

Este, de costas, tem de se aperceber que o lenço está por trás de si e, agarrando-o, corre para apanhar o que deixou cair o lenço.

Se o apanhar, ocupa o seu lugar; não conseguindo apanhá-lo, será ele a andar à volta do grupo para deixá-lo cair atrás de outro miúdo ou miúda.

José Francisco Rosa