Estação da CP (anos 20 do século XX)

Estação da CP (1931/1932)

Lagos e o Caminho-de-Ferro - uma relação centenária

Um dos meios de transporte e circulação mais importantes de pessoas e bens na História da Humanidade foi – e continua a ser – o comboio e a ferrovia por onde se desloca, ligando aldeias, vilas, campos, cidades, regiões, países e continentes.

Depois de um período da sua vida conturbado e fortemente agitado pelas Guerras Civis de 1832-34 e de 1846-47 (Patuleia), Portugal entrou, a partir de 1851, numa nova fase que ficou conhecida como a Regeneração, que se caracterizou por alguma estabilidade e desenvolvimento. Nos anos subsequentes, uma das inovações importantes que ocorreu foi a inauguração do caminho-de-ferro, que aconteceu no dia 28 de Outubro de 1856, ligando Lisboa ao Carregado. Inseriu-se nas medidas protagonizadas por Fontes Pereira de Melo e no meio do entusiasmo do jovem Rei D. Pedro V. Progressivamente, ao longo das décadas seguintes, até ao fim do Século XIX e entrando pelo Século XX, o caminho-de-ferro tornou-se numa realidade que uniu Portugal de Norte a Sul e, também, à Europa.

No caso que aqui nos interessa, de uma parte do nosso Algarve e de Lagos, em particular, o processo recua a esses mesmos anos de Oitocentos, terminado apenas em 1922.

O britânico Joseph William Bleck mostrou interesse em fazer a ligação ferroviária entre Lagos, Vila Nova de Portimão, Lagoa, Silves e Loulé; porém tal intenção não teve efeitos práticos. Seguiram-se os esforços dos Municípios de Lagos e de Vila do Bispo, num gesto que, de certo modo, antecede no tempo o espírito associativo das Terras do Infante. No dia 3 de Julho de 1899, o Presidente da Câmara Municipal de Lagos convidou, por ofício, a Câmara Municipal de Vila do Bispo a assinar uma representação endereçada aos Pares do Reino e aos Deputados, pedindo ao Governo o desencadeamento de um processo visando a construção de um porto de abrigo entre Lagos e a Ponta da Piedade e, também, uma linha ferroviária. Esta, deveria partir do referido porto, seguindo pelos vales de Bensafrim e de Aljezur, entroncando depois na Linha do Sul, perto de Garvão (Ourique), no Alentejo. A Câmara de Vila do Bispo juntou-se aos esforços, reconhecendo a grande utilidade pública dessas obras e, no dia 18 de Setembro, nomeou seu representante na comissão que, entretanto, se constituiu, Bartolomeu Salazar Moscozo. Contudo, se este plano jamais se realizou, as obras que deram origem ao que ficou conhecido como Ramal de Lagos ganharam uma dinâmica importante a partir desse mesmo ano.

No dia 10 de Outubro de 1899, foram concluídos os primeiros 4 quilómetros de via-férrea que ligaram Tunes a Algoz. Seguiu-se a sua extensão até Poço Barreto (19 de Março de 1900), depois a Silves (1 de Fevereiro de 1902) e daí a Portimão (15 de Fevereiro de 1903). Os últimos 17 quilómetros, que ligaram Portimão a Lagos foram concluídos apenas no dia 30 de Julho de 1922. Nesse mesmo dia, às 11h30m, chegou à Estação de Lagos o primeiro comboio, transportando importantes individualidades, como o Presidente do Ministério, os Ministros do Comércio e da Marinha, Senadores e Deputados da região e dirigentes dos Caminhos-de-Ferro, celebrando-se, assim, a obra da responsabilidade do Estado.

O Ramal de Lagos, com uma extensão de 45 quilómetros ligou a Linha do Sul à nossa cidade, dispondo de quinze estações e apeadeiros: Tunes, Alvalede, Algoz, Alcantarilha-Praia de Armação de Pêra, Poço Barreto, Silves, Estômbar-Lagoa, Ferragudo-Parchal, Portimão, Montes-Alvor, Figueira, Mexilhoeira Grande, Odeáxere, Meia Praia e Lagos. Nos nossos dias, os apeadeiros de Alvalede, Montes-Alvor, Figueira e Odeáxere encontram-se suprimidos (este último desde 2003). Porém, a sua existência no passado é bem reveladora da dinâmica populacional e social então existente nessas zonas rurais, que justificou o investimento na sua construção e ligando esses pontos às localidades circundantes, à região e, consequentemente, ao resto do país.

Além das referidas estações e apeadeiros, este troço de ferrovia foi possível com a construção de cinco pontes: Mesquita, Portimão, Ribeira da Torre, Ribeira do Farelo e Vale da Lama.

A Estação de Lagos foi projectada pelo Engenheiro António da Conceição Parreira, a 20 de Março do ano de 1900. Cinco anos depois, os estudos referentes à sua localização ficaram concluídos. Aquando da inauguração (30 de Julho de 1922), a estação era composta pelo edifício de passageiros, pela cocheira das locomotivas e por um bairro para o pessoal. Com o curso dos anos, além do edifício dos passageiros e da cocheira, surgiram as instalações sanitárias, os diversos cais de embarque e desembarque, uma placa giratória, duas casas, um dormitório para pessoal, entre outras estruturas e equipamentos, como um tanque e um reservatório, por exemplo. Depois da apresentação do Projecto de Remodelação (2001) e da conclusão da 1.ª fase do novo edifício (2003), com a abertura deste, em Agosto de 2006, o antigo edifício de passageiros foi encerrado, acabando por ser colocado para venda, juntamente com as instalações sanitárias e a área das antigas linhas em 2019.

Estação da CP (arquivo Nova Costa de Oiro - Setembro 2019)

A Velha Estação Ferroviária de Lagos (aspecto do antigo cais e linhas)

A velha Estação Ferroviária de Lagos é um notável edifício, que apesar do seu carácter funcional ainda apresenta nobreza, sobriedade e elegância, na sua volumetria, no seu enquadramento e no seu conjunto estrutural e decorativo. Todos esses elementos são visíveis na sua composição rectangular, no seu corpo central de dois pisos e onde sobressai um óculo, também nos seus corpos laterais de um único piso, nas suas portas, janelas e respectivas cercaduras, bem no seu telhado de duas águas.

A toda a volta do edifício sobressai a vasta cercadura de cor predominantemente verde dos seus painéis de Azulejos relevados, primorosamente executados pela Fábrica de Sacavém. Azulejaria da época da Arte Nova, de padrões vegetalistas. Quando nos aproximamos deles e os analisamos em pormenor, somos surpreendidos pela sua textura, pelas composições de flores e folhas que formam, pelos vários tons de verde que encontramos, pelas suas cercaduras com elementos geométricos e pelas suas linhas castanhas de enquadramento. Por outro lado, não menos notável é a cobertura de duas águas e a notável estrutura de ferro, com o seu travejamento e colunas que a sustentam, situada sobre o antigo cais de embarque e desembarque de passageiros (uma solução que, independentemente de outros locais, pode ser encontrada em algumas estações britânicas, como por exemplo, Chepstow, de 1850, Weston-super-Mare, Ross-on-Wye, ou Teignmouth, estas de um período situado entre 1860 e 1899). Por sua vez, nas vertentes exteriores laterais da nossa velha estação, encontram-se lápides de pedra com a designação “Lagos” em letra cursiva, enquanto na fachada interior, voltada às antigas linhas férreas, o nome da cidade permanece em letras maiúsculas relevadas.

Mesmo as velhas instalações sanitárias (muitas vezes designadas formalmente por retretes em diversas estações ferroviárias nacionais) apresentam, também, apesar da sua simplicidade, uma elegância estrutural e decorativa. São como que uma representação em escala reduzida do próprio edifício principal (passageiros). São igualmente percorridas, em três faces, por painéis de azulejaria com a mesma temática, obedecem a uma planimetria rectangular, apresentam telhado de quatro águas e janelas protegidas por gradeamentos.

Poucos de nós temos a noção de que as antigas cocheiras, albergam uma Secção Museológica dos Caminhos-de-Ferro Portugueses. Pois, por entre o edifício de planta trapezoidal e a sua notável cobertura, entre antigas peças, ferramentas e memórias, como por exemplo as dos barcos que fizeram a ligação entre o Barreiro e Lisboa, encontram-se, conforme informações constantes na obra “Os Comboios em Portugal”, duas locomotivas a vapor, de fabrico inglês, datadas de 1889 e 1891, que serviram na Alfândega do Porto, nas ligações entre Coimbra e a Figueira da Foz e entre Vila Nova de Gaia e Campanhã, respectivamente. Também um Salão Pagador, construído nas Oficinas do Barreiro, em 1929, e uma Carruagem e salão de madeira (para transporte de altas figuras dos Caminhos-de-Ferro) fazem parte do seu acervo. Aliás, a obra, refere-se a esta secção como “…a única memória algarvia da história dos caminhos-de-ferro…”.

Algum do material circulante mais emblemático na História da CP (actualmente, Comboios de Portugal) serviu neste troço da linha do Algarve, num período cronológico que podemos situar entre as décadas de 1980 e os anos de 2000. Referimo-nos, por exemplo, às locomotivas das Séries 1200 e 1400 e à automotora da Série 0600. Actualmente, na linha do Algarve, entre Vila Real de Santo António e Lagos prestam serviço automotoras da Série 0450, com a sua característica cor azul nas suas frentes e a coloração própria do metal no corpo da composição (motora e reboque).

Viajar de Comboio é uma das melhores formas de conhecer e penetrar no Portugal interior e profundo das Memórias, num Tempo que já não é Tempo e que apenas existe em alguns vestígios materiais, ou nas experiências e no imaginário de muitas pessoas. Testemunham-no as centenas de estações ferroviárias abandonadas ou encerradas, as linhas que já só conduzem às memórias distantes de um Passado perdido. Se essas estações foram antes pontos de movimento de pessoas, mercadorias, ideias e cultura, lugares de convívio, hoje, a maioria delas (como a velha Estação de Lagos) vive imersa na solidão de um imenso vazio. É importante recordar a importância do Café da Estação enquanto lugar de convívio, de compra de bens de apoio às viagens dos passageiros, como a comida, as bebidas, os jornais, as revistas, os postais, os livros e outros artigos. Importa, também, não esquecer todo o cenário movimentado com o Chefe de Estação com a sua bandeirola ou apito, o pessoal a trabalhar nas linhas, as máquinas em manobras, a chegada e a partida das composições com locomotivas a Diesel, ou das automotoras movidas pelo mesmo combustível.

As antigas instalações sanitárias da estação

Um pormenor da bela e expressiva azulejaria da velha estação

Uma automotora da Série 0450 a chegar a Lagos

Importa olhar, ainda, para estes espaços e recordar toda a azáfama dos passageiros a sair, ou a entrar nas carruagens, procurando os assentos, arrumando a bagagem, as conversas e o convívio, a apreciação da paisagem à medida que o comboio se movimentava no meio da trepidação e do matraquear do contacto dos rodados com os carris e as travessas. Tudo isso, felizmente, permanece bem vivo e pode ser experimentado ao longo de uma agradável viagem pela ferrovia que liga Lagos a Vila Real de Santo António, ou a Lisboa.

A Linha do Algarve e, particularmente, o troço entre Tunes e Lagos proporciona um percurso de grande beleza paisagística, entre a serra e o mar, entre a solidão dos campos e os pequenos aglomerados de casario. Sobretudo, quando deixamos Portimão e nos aproximamos da Ria de Alvor o cenário torna-se mais colorido e fascinante, com o enquadramento das terras baixas e do mar. Passando a Ponte do Vale da Lama, somos acompanhados pelo extenso areal da Meia Praia, pela vastidão das águas da Baía, pelo grande cordão de dunas e vegetação arbustiva, pelo velho Forte de São José e apeadeiro da Meia Praia, pelas colinas onde se destacam o casario, unidades hoteleiras, aldeamentos e o campo de Golfe, até que, reduzindo a velocidade, nos deparamos com o magnífico cenário das falésias douradas desde a Ponta da Piedade até à cidade, à sua avenida ribeirinha, aos estaleiros, à zona portuária e, finalmente, à nova Estação, às suas plataformas e a toda a sua cenografia estrutural contemporânea, verdadeiro palco de partidas e de chegadas e uma importante porta de entrada no extremo Sudoeste do Algarve, servindo os Concelhos de Lagos, de Vila do Bispo e de Aljezur.

A poucos metros de distância da nova estação, encontramos o espaço onde tudo começou há quase 100 anos, a 30 de Julho de 1922, hoje uma Estação de Memórias onde as portas e as janelas estão fechadas, onde do Tempo apenas resta a cercadura de um relógio vazio, onde já não é possível comprar um livro para tornar a viagem mais agradável, onde os poucos sinais informativos apontam para realidades inexistentes, onde ninguém pernoita no dormitório, onde não há passageiros para parte alguma, onde já não existem carris, nem locomotivas a manobrar. Realidades tão próximas e tão distantes, tão diferentes e tão complementares, simultaneamente. E tudo numa Estação que, em 1970, ganhou o 1.º Prémio da Região Sul no Concurso das Estações Bem Cuidadas e cuja dignidade histórica é bem maior do que a fragilidade do seu actual aspecto exterior.

O presente texto é dedicado à memória do meu saudoso pai, António Carlos de Jesus, com quem vivi momentos mágicos na Estação de Lagos e nas viagens de Comboio que fizemos juntos.

Artur Vieira de Jesus,

Licenciado em História

Fontes e Bibliografia:

- CÂMARA MUNICIPAL DE LAGOS – Placa Interpretativa/Informativa N.º 17, fronteira à Estação Ferroviária de Lagos (Antiga); - CRUMP, Amyas, “Great Western Railway Architectur in Colour2, Volume 1, Manchester, Crécy Publishing Limited, 2018; - GARCIA, José Manuel, “Dicionário Essencial de História de Portugal”, Lisboa, Editorial Presença, 2010; - JESUS, Artur Vieira de, “Vila do Bispo – Lugar de Encontros”, Volume II, Vila do Bispo, Câmara Municipal de Vila do Bispo, 2017; - PAULA, Rui M., “Lagos, Evolução Urbana e Património”, Lagos, Câmara Municipal de Lagos, 1992; - SILVA, José Ribeiro da e RIBEIRO, Manuel, “Os Comboios em Portugal”, Volume V, Lisboa, Terramar, 2008; - SILVA, José Ribeiro da e RIBEIRO, Manuel, “Os Comboios em Portugal”, Volume V, Lisboa, Terramar, 2009; - Sistema de Informação para o Património Arquitectónico/Forte de Sacavém Apeadeiro Ferroviário de Odeáxere: http://www.monumentos.gov.pt/site/app_pagesuser/SIPA.aspx?id=32371 Estação Ferroviária de Lagos: http://www.monumentos.gov.pt/site/app_pagesuser/SIPA.aspx?id=32370 - VELOSO, João, “Breve Dicionário da História de Lagos”, Lagos, Loja do Livro, 2006.