Igreja das Freiras

Igreja das Freiras

A Igreja e o Convento das Freiras

os espaços, as pessoas e as memórias na história de Lagos (2.ª Parte)

4. O sustento da Comunidade Carmelita de Lagos

Foram diversas e abrangentes, como veremos, as formas de sustentação económica e social deste mosteiro carmelita. Na primeira parte deste trabalho, já nos referimos aos bens da capela instituída pelo piloto João Ribeiro na Igreja de São Sebastião, aos rendimentos advindos das armações de pesca, aos dos dotes, de sisas e imposições em Lisboa e em Lagos. Além destes rendimentos, as freiras lacobrigenses usufruíram, ainda, dos que vinham de padrões de juro e de terras que eram arrendadas.

Em relação a dotes, temos conhecimento de alguns, respeitantes a Isabel Coutinha, Dona Paula, Guiomar do Espírito Santo, Isabel da Madre de Deus, Violante da Conceição e Maria da Apresentação. No caso de Isabel Coutinha, filha de Pero da Silva e de Guiomar Silveira, o dote começou a ser pago a 1 de Janeiro de 1573, data em que professou neste convento. Por sua vez, no caso de D. Paula, que professou entre 19 de Julho e o fim do ano de 1578, quando esta faleceu, o seu dote passou para a Prioresa e restantes freiras. Outra religiosa que aqui professou e que contribuiu para vida desta comunidade religiosa foi Guiomar do Espírito Santo, com um dote pago a partir da imposição dos vinhos de Lisboa e, depois, a partir do Almoxarifado de Lagos. Conhecemos, ainda, os casos de Isabel da Madre de Deus, Violante da Conceição e Maria da Apresentação (a que também nos referimos na primeira parte deste trabalho), freiras cujos dotes advieram dos rendimentos das armações de pesca.

O grande abalo na vida deste importante convento da nossa cidade ocorreu em 1833, ano em que a Guerra Civil continuava a marcar a vida portuguesa. Com o fim do conflito e o triunfo da ideologia e da governação Liberal, os mosteiros conheceram novas vicissitudes. Os encerramentos levaram à execução dos inventários patrimoniais. No caso do Convento de Nossa Senhora da Conceição de Lagos, o Inventário, Livro com o número 191, com um corpo cronológico que se situa entre os meses de Maio e de Agosto de 1834, permite-nos conhecer com maior profundidade a vida desta comunidade, não apenas no seu espaço na cidade, mas ao nível de toda a sua influência numa parte muito expressiva da região algarvia, como veremos em seguida.

O processo de inventariação identificou a existência de 3 dívidas activas e 5 passivas neste Convento. Ao nível dos rendimentos, identificou-se 1 padrão de juro com data de 1 de Janeiro de 1539, 11 juros com título e 10 sem título, 266 foros pagos a dinheiro e 141 foros pagos com trigo, cevada, cargas de palha, nozes, figos, galinhas e frangos. Aparece-nos, neste contexto, também, uma Capela e respectivo rendimento associado ao Convento e administrada pelos seus padres confessores.

4.1. Os Foros do Convento (1799 – 1833)

Antes de prosseguirmos, é conveniente um pequeno esclarecimento sobre o que são os Foros. Com uma origem antiquíssima, filiável nos tempos medievais, os Foros eram prestações definidas (certas ou variáveis), com um sentido de prestação ou tributo, em dinheiro ou géneros, que deviam ser pagas a um senhorio ou detentor directo da propriedade. O pagamento era feito numa forma, num tempo e num lugar devidamente convencionados. Podia ser efectuado no local de residência do senhorio/proprietário, ou junto do seu representante no local da propriedade. Um Foro implicava, assim, a existência de um Foreiro, que trabalhava a terra e pagava a renda pela mesma. Como veremos foram muitas as propriedades deste Convento e muitos os foreiros que efectuaram pagamentos às suas religiosas.

A parte do Inventário referente aos foros é da maior relevância, sendo bem demonstrativa da amplitude da área de abrangência social, económica e geográfica desta comunidade religiosa, quer na Cidade de Lagos, na sua área circundante e na região do Algarve. Analisemos, agora, mais detalhadamente cada caso específico.

Os 50 foros pagos a dinheiro que tinham escrituras em Lagos e nas suas imediações, situam-se no tempo entre os anos de 1818 e 1833. Reportaram-se a fazendas (de vinhas, figueiras e terras de semear), vinhas, casas, cercas, hortas e courelas de terra. Dentro da cidade, estiveram associados a casas situadas nos seguintes espaços: junto à Capela do Espírito Santo, Rua Triste, junto à Igreja de São Sebastião, Praça do Poço, Praça do Cano, Botica, Rossio de São João, junto a São João, Rua do Passo de D. Joana, Rua da Amendoeira, Rua da Oliveira, Rua Direita, Rua de São Sebastião, Rua de D. Laurência, Rua Augusta e Rua do Canal. Fora da cidade, os foros ficavam em Matos Mouriscos, Meia Praia, Monte Alto, Sítio do Chão Queimado, Atalaia, Porto de Mós, Sargaçal, Torre Alta, Ameijeira, Maranhão, Vale de Coitos, Albardeira, Caliças e Sítio da Caldeira.

Existiam, ainda, 16 foros pagos a dinheiro sem títulos em Lagos, respeitantes a fazendas de vinha e figueiras, terras, casas, uma vinha, um moinho de vento e casas com quintal, com datas entre 1828 e 1833. Na cidade, situavam-se na Rua dos Marreiros, no adro da Igreja do Convento e no Hospício dos seus Padres Confessores. Fora da cidade, encontravam-se estes foros no Sargaçal, Falfeira, Caliças, junto ao Convento dos Capuchos, Torre Alta, Vale de Bensafrim e no Colejo (Colégio).

Nas freguesias do Termo de Lagos e outras partes, as Religiosas deste Convento dispunham, também, de 31 aforamentos a dinheiro, com títulos. Datados de um período situado entre 1821 e 1832, reportavam-se a fazendas com vinhas, figueiras, oliveiras, árvores de fruto e casas, a cercas, a courelas de terras, a terras, a terras de pão, a terras lavradias e courelas de pão. Nalguns casos, os foreiros, além do dinheiro, pagavam igualmente em galinhas e azeite. Do ponto de vista geográfico, estes casos estenderam-se a uma parte bastante significativa da região do Algarve, nomeadamente de Odemira, Aljezur, Vila do Bispo até Faro. Mais concretamente, encontravam-se em Espiche, Matos Brancos, Sítios das Areias, Sítio dos Francos, Budens, Sítio da Pedra Branca, Vila do Bispo, Vale de Marreiros, Barros, Vale da Telha (Odemira), Vargem de Aljezur, Marmelete, Mexilhoeira Grande, Sítio do Farelo, Margem do Rio, Alcantarilha, Vale de Gralha, Albufeira, Sítio da Farrobeira, Pêra, Sítio do Cerro Alto, Loulé, Sítio da Bemposta, Sítio da Castelhana, Rua do Monte Seco (Loulé), Faro, Rua de Lopes Dias (Faro), Rua do Rego (Faro), Aldeia da Pouca Farinha (Santa Bárbara de Nexe), Estoi, Sítio do Telheiro e Vale de Parra (Santa Bárbara de Nexe).

Os foros a dinheiro que o Convento detinha no Algarve e que não tinham título eram bastante numerosos. Temos conhecimento de 169 casos, referentes a terras com casas, terra e courela, fazendas de vinhas, amendoeiras, figueiras, oliveiras, árvores de fruto, sobreiras, matos, terras lavradias, courelas de terra, herdades (totais ou parcelas), fazenda e casas, courelas de pão, quarteirões de terra ou de fazenda, casas com quintal, courela de terra e pardieiro, chãos, quintas (com e sem casas), casas com grande quintal, casas nobres, areias, casas, cercados, quinhões, terras de pão, armazéns, hortas de regadio e pomar, terras com matos e quintais. Nalguns casos, ao dinheiro, o pagamento acrescia galinhas, figos, trigo, azeite e frangos. Fixados entre as datas de 1799 e 1833, abarcavam uma vastíssima área geográfica dispersa entre Espiche (Colégio), Raposeira, Montes de Alvor (Sítios do Carvalhinho, Eira, Mortuorio, Montes de Baixo, Bemposta), Alvor (Sítios do Facho, Vale da Nora, Canafrexal), Mexilhoeira Grande (Horta, Sobral, Sítio do Canal), Vila Nova de Portimão (Bemposta, Vale de França, Maraxique, Pontal, Rua de Manuel Dias Barão, Rua dos Arcos, junto ao Nicolau, fora da Porta da Serra, Rua da Misericórdia em frente ao Colégio, Rua da Ribeira, Rua da Porta da Serra, Rua da Senhora da Tocha), Sítio do Leão (nos arredores de Alvor), Sítio do João das Donas (Chão das Donas?), Donalda – Sesmarias, Sítio do Vau, Porto de Lagos, Vale da Horta, Vale da Assumada, Faranhão, Sítio de São Sebastião, Vale da Promessa, Sítio da Rocha, Pedreira), Faro (Quelfes, Areia Velha), Barranco do Rodrigo, Paderne, Mexilhoeira da Carregação, Estômbar (Vale Formoso e Vales, Bemposta e perto de São João), Lagoa (Bem-Parece, Vale de Engenho, Caramujeira, Vale de El-Rei ou Vale de Buraco, Estrecadas, Sítio do Poço dos Lombos, Vales, Carrascais, Vale de Galegos, Monte dos Botos, Vale do Milho – Carvoeiro, Alporchinhos, Rua das Tendas, junto à Igreja da Misericórdia, Rua da Igreja, Lobite, Bemposta, Sítio de Gil Gomes – limites de Porches e Sítio da Cova Redonda), Ferragudo (Rua do Padre Manuel Vieira Marreiros e uma quinta), Porches (Sítio das Raposeiras, Alporchinhos, Vale de Olival, Sítio da Marinha, Poço Santo, Rasmalheiro, Muxocas, Quintão Grande, Crastos e Sítio da Torre), Vala (Vala dos Apóstolos e Ferreiras), Silves (Sítio da Barradinha, Odelouca, Lagoa do Navarro – Algoz, Vila Fria, Rua da Misericórdia), Pedreira (Sítio da Vala), Poço Dião, Figueirinha – Sítio da Franqueira, Alcantarilha (Vale de Orcas, Sítio das Areias – Porches, Sítio das Alcarias – Monte Raposo, Vale de Lousa, Serra Nova, Sítio das Areias, Montes do Raposo, Sítio da Torre, Sítio do Boleirão e Rua da Misericórdia), Pêra (Mata Ladrões, Coutadas, Areal, Ribeiro dos Funchos, Sítio da Vargem, Sítio de Joana Anes ou Joanal d’ Anes, Sítio das Areias e Sítio da Torre), Freguesia de Alfontes de Nossa Senhora da Guia, Armação (Sítio das Eiras – Porches), Algoz (Sítios da Arencada, Carrasqueira e Benagaia), Cerro de Águia, Tunes, Vala (arredores de Paderne), Pedreiras, Albufeira (Sítio das Pedreiras, Barrada da Mouraria, Mouraria, Vale de Pedra e Caliços), Patã, Faro (Quelfes), e Estoi.

Igreja das Freiras

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Por último, o segundo grande conjunto de foros identificados pelo inventário – 141 casos – reportou-se aos foros pagos com trigo e, nalgumas situações, além deste cereal, com cargas de palha, frangos, galinhas, figos, cevada, nozes e dinheiro. Com datas limites situadas entre os anos de 1806 e 1833, dispersaram-se por um vasto espaço territorial (como no caso anterior): Lagos (Sítio da Farrobeira – Odiáxere, Pedra Alçada, Vale de Amoreira, Sítio da Caxôa, Fonte Coberta, junto a São Pedro (Ermida), Corral Alto, Estrada Velha, Poço, Sítio da Casa ou do Casarão do Villa Lobos, Torre, Ribeira de Odiáxere, Sítio do Boleirão, Monte Alto, Ferrel, Monte Ruivo), Almádena, Monte do Cirurgião (junto à Fonte do Carapito, Freguesia de Odiáxere), Bensafrim, Portelas, Caliças, Ribeira de Almádena, Vargens de Almádena, Cerro do Moinho (Freguesia da Senhora da Luz), Vale da Lama (Quarteirão do Asno), Barão de São João (Monte da Charneca), Sargaçal, Maranhão, Espiche (Cerro dos Mercadores, Monte do Colejo, Terra do Carpinteiro), Odiáxere e Vale da Igreja, Sítio do Chocalho, Quinta Queimada, Serra, Figueira (Fontainhas, Amendoeira e Junqueira), Herdade do Zebro, Ribeira de Santa Maria (Freguesia de Marmelete), Vale de Boi e Sítio das Areias, Monchique (Monte do Asperregal), Odeceixe e Vale de Cachopos, Mexilhoeira Grande e Ribeira de Arão, Vila Nova de Portimão (Poço Fureiro – Vale da Lama), Fonte da Pedra, Valerinha (Vilarinha), Carrapateira (Almorração ou Murração, Vargem do Amado, Vale de Figueiras, Sítio da Maria Gil e outro difícil de identificar), Raposeira e Sítio de Maria Gonçalves, Bordeira (Sítio de Joana Anes), Vila do Bispo (Sítio do Outeiro-Raposeira, Alcarias, Berberias?, Sítio das Hortas, Fonte do Passarinho, junto à Ermida do Amparo, Sítio das Eiras, Sertão, Fonte do Rato – Vale do Cascalhal Alto, arredores da Raposeira, Atabual (Hortas), Sítio da Preguiça, Cabeço da Moita e outro difícil de identificar), Budens, Senhora do Verde (Almarjão, Monchique), Bordoal – Senhora de Aguadelupe, Barão de São Miguel, Vila de Cuba, Mexilhoeira da Carregação (Estômbar, Vale de Pereiros), Lagoa (Mato Serrão, Vale de Milho, Vala – Barreto, Cabeços – Silves, Sítio das Courelas, Sítio das Sincas e Sítio dos Carrascais), Porches (Sítio da Norinha, Vale das Fontes, Caramujeira, Poço de Gil Gonçalves, Vala e Alqueves), Silves (Vale de Rendufe, Vala, Barradinha, Poço Barreto, Vale da Lama, Porto de Lagos e Ribeira de Odelouca), São Bartolomeu (Messines), Vila Nova de Portimão (Vale de França, Sítio de Nossa Senhora da Saúde e Barranco do Vau), Ribeiro (Silves), Vale de Hortas (Torre, Alcantarilha), Montes Raposos (Sítio do Cónego), Vale de Orcas e, por fim, Albufeira (Cerro de Águia e Poço de Bois).

No entanto, apesar de todas estas preciosas informações, este assunto nunca ficará totalmente esclarecido. E porquê? Poderemos perguntar. Porque muita documentação se perdeu. Foi o que conseguimos, precisamente, depreender a partir de outras fontes documentais respeitantes a esta casa religiosa e que fazem parte do acervo do Arquivo Distrital de Faro. Numa delas, sobre os foros deste convento, somos advertidos que “…hum grande numero d’ Escripturas faltão, que forão roubadas pelos Guerrilhas, em 1834 da caza d’ Antonio Teixeira Braga de Lagôa, onde estavão por ser Procuradôr do Convento, e m.tas por isto não pagão por falta de Titulo e outros por não saberem as confrontações por serem antiquissimas…”. Ou seja, as vicissitudes da Guerra Civil e, neste caso, das Guerrilhas às ordens de José Joaquim de Sousa Reis, o célebre Remexido, conduziram à perda de informações importantes que, seguramente, permitiriam uma compreensão ainda mais detalhada e aprofundada da influência sócio-económica desta comunidade religiosa no Algarve. Contudo, a análise dos documentos que consultámos permitiu-nos verificar que os foros respeitantes ao Convento das Carmelitas Calçadas de Lagos continuaram a ser pagos num período de tempo entre o ano da sua extinção e o de 1861. Tal ocorreu, pelo menos, nalguns casos referentes a Lagos, Vila do Bispo, Espiche, Barão de São Miguel, Budens e Raposeira.

4.2 O perfil dos Foreiros e as responsabilidades para com o Convento

Depois de verificarmos a grande amplitude geográfica dos foros associados ao Convento das Carmelitas Calçadas de Lagos, podemos legitimamente interrogar-nos quem eram estes foreiros? Qual a sua origem social? Qual o seu papel no tecido social da sua época? E podemos também questionar-nos sobre quanto pagavam estes foreiros às religiosas pelo usufruto das casas ou das terras? Quais os aforamentos mais rentáveis, em dinheiro, ou em géneros, para as freiras do Carmo de Lagos?

A análise das informações dos diversos e muitos foros inventariados permite concluir que existiu um grupo de foreiros socialmente heterogéneo. Eram gentes da Cidade de Lagos, membros de famílias locais de referência (como as Mascarenhas, ou as Camillas), gentes dos campos, de Vilas e Aldeias de diversos pontos do Algarve. Foram também herdeiros, viúvas, tenentes-coronéis, senhoras, majores, alfaiates, marítimos, barbeiros, calafates, capitães, tenentes, capitães-mores, alferes, artilheiros, ferradores, doutores, coronéis, cadetes, ourives, serralheiros e carpinteiros. Ou seja, desde membros das aristocracias locais, a camponeses, pescadores, até aos oficiais mecânicos e especialistas.

Em relação à rentabilidade dos foros pagos a dinheiro, os de menor valor foram de 150 e 175 reis, respectivamente. Os foros mais rentáveis, situavam-se nos actuais Concelhos de Lagoa, Silves e Albufeira. Podemos, por exemplo, apontar os casos dos foros do Capitão António Soares de Carvalho, respeitantes a uma quinta em Lobite (Lagoa), sobre a qual pagava 12$000 reis e 1 alqueire de azeite; de Gregório Cabrita, com uma fazenda em Vale de Milho (Carvoeiro, Lagoa), pela qual tinha que pagar 15$000 reis e 16 alqueires de trigo; de António Gonçalves Valença, com uma quinta e casas em Vale de Lousas (Alcantarilha), que rendiam às freiras 14$000 reis, 2 galinhas e 1 arroba de figos; ou do Capitão Joaquim Romão Gomes, com uma fazenda em Paderne, pela qual pagava 18$000 reis e 1 arroba de figos. Porém, o aforamento mais rentável para as religiosas, ao nível pecuniário, foi o referente a uns armazéns na “Amexeloeirinha” (Mexilhoeira da Carregação), no valor de 40$000 reis, sendo os foreiros os herdeiros do Capitão-Mor Gregório Nunes. Por ordem, a ele se seguiu o foro da Quinta de São Pedro, em Ferragudo, no valor de 20$000 reis.

Já no que se refere aos foros pagos com trigo (acrescidos muitas vezes de outros produtos agrícolas, como já vimos), podemos citar o exemplo de um dos mais baixos, em Bensafrim, no valor de 1 alqueire. Os mais rentáveis, em termos de quantidades, situavam-se na Mexilhoeira da Carregação (Estômbar), num valor de 60 alqueires de trigo, sendo foreiro António Goriz Alves; o aforamento a Afonso Dias Leal (Vila do Bispo) referente a 21 courelas de terra entre Vila do Bispo e a Carrapateira e que rendia 48 alqueires de trigo e 5 de cevada; o foro respeitante a uma herdade no Vale da Lama (Silves), de Manuel Cabrita, num valor de 38 alqueires de trigo e 7 alqueires e meio de cevada; o aforamento de courelas de terra a José Cabrita (Barradas, São Bartolomeu de Messines), rendendo 35 alqueires de trigo e 3 galinhas; o foro respeitante a uma metade de herdade em Vale Cachopos e 4 courelas em Odeceixe, do Capitão-Mor Pedro José de Oliveira, rendendo 30 alqueires de trigo para o mosteiro e o aforamento a Manuel Fernandes Cató de 4 courelas de Pão (Mexilhoeira da Carregação, Estômbar), num valor de 28 alqueires de trigo. No mesmo valor deste último, acrescendo 10 alqueires de cevada, destacamos o caso das 10 courelas de terra em vários locais do aforamento a Francisco António Silva. Por fim, em Budens (Vila do Bispo), o aforamento feito a João Baptista era pago em 27 alqueires de trigo, 10 de cevada e 1 carga de palha.

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5. O Património Artístico do Convento do Carmo

O Inventário patrimonial deste Convento permitiu-nos aferir que a Igreja das Freiras dispunha de 2 Coros, um Alto e um Baixo. Sabemos que no Coro de Cima se encontrava um Órgão em muito bom estado, que era amovível e que tinha uma cadeira. No Coro Baixo, estavam 2 confessionários em madeira. No Coro, estavam, também, 1 estante grande e, provavelmente, 1 pequena de pé alto, em madeira.

O Inventário especifica, igualmente, os conteúdos imagéticos e sacros dos Coros da Igreja. Assim, no Coro Alto, encontravam-se painéis: da Santíssima Trindade, de Nossa Senhora da Graça, de Nossa Senhora de Belém, do Anjo São Miguel, de São João Baptista, de Nossa Senhora do Carmo (2), da Senhora da Boa Morte, de Santa Ana, de São José (2), de Santa Teresa e do Patriarca Santo Elias, do Senhor no Orto, da Senhora da Piedade, de Santo António, do Senhor Preso, do Anjo São Rafael e de São Matias. Já no Coro Baixo, estavam os seguintes painéis: de Nossa Senhora do Carmo, da Sagrada Família, do Senhor Sentado na Pedra fria, do Senhor Preso à Coluna, do Santíssimo Coração de Jesus, do Senhor Ecce Homo, de São João Baptista, do Refeitório, da Senhora dos Remédios e de São José.

Entre as peças preciosas de ouro e de prata existentes no Convento, referenciaram-se: 1 turíbulo, 1 naveta, 2 galhetas com os seus 2 pratos, 1 caixa de Hóstias, 1 salguinha de pé com o seu purificador de prata, 2 purificadores, 1 caldeirinha, 4 coroas, 1 Cruz pequena, 7 resplandores, 3 diademas, 1 coroa de espinhos, 1 lâmpada, 6 coroas pequenas, 1 pena e 1 coração, 1 ceptro (ouro e pedras preciosas) do Menino Rei (que não se podia pesar), 2 bentinhos, 2 pedaços de cordões desses bentinhos, 1 resplandor pequeno, 1 Hábito de Cristo com o seu cordão e uma outra peça (esta em ouro).

Além de todo o Património Cultural, artístico e decorativo, que tivemos oportunidade de destacar tanto aqui como no nosso trabalho anterior, na Igreja de Santa Maria guardava-se, há alguns anos, um conjunto de interessantes peças de arte sacra provenientes, ou de provável proveniência, do antigo Convento do Carmo da Lagos. Tratam-se de elementos de imaginária, de madeira, datados do Século XVIII, tais como: 2 imagens de Nossa Senhora do Carmo, 4 representações escultóricas de diversos momentos da Paixão do Senhor Jesus Cristo, 1 imagem de São José e 1 imagem de Santo Elias.

6. O fim e o Legado

O processo de inventariação dos bens deste mosteiro, cuja contextualização fizemos atrás, começou a 9 de Abril de 1834, quando o Duque de Bragança, Regente em nome da Rainha, ordenou que o Corregedor da Cidade de Lagos, conjuntamente com o seu Escrivão e o Fiscal da Fazenda Pública se dirigissem, imediatamente, ao mosteiro das religiosas Carmelitas Calçadas para procederem ao inventário de todos os seus bens. Ordenou-se o levantamento dos seus objectos, fontes de rendimento, dívidas, quadros e pinturas. Num processo que se estendeu de 22 de Maio a 13 de Agosto desse ano, realizaram-se o inventário, as avaliações e editais associados. A documentação foi, finalmente, remetida para Lisboa, em 7 e 8 de Agosto, à Junta responsável pelas Ordens Religiosas e Reforma Eclesiástica. Presente nos momentos mais relevantes de um processo que lhe terá sido particularmente penoso, esteve a última Prioresa do Convento de Lagos, Soror Maria Antónia Benedicta d’ Almeida.

O Inventário referente a este mosteiro revela-nos informações de grande importância que nos ajudam a compreender o espaço físico, as práticas quotidianas, as vivências das religiosas, a sua subsistência material e, finalmente, a sua importância social e económica em Lagos e no Algarve em geral.

Se, ao nível dos livros, ficamos a saber que, além de toda uma “…grande multidão de Escripturas velhas conjuntamente com outros mais varios papeis…”, existiam vários livros de receita e de despesa, tombos, forais velhos, já ao nível dos objectos (fulcrais para a compreensão das Pessoas nos seus contextos espaciais e temporais específicos), foram referenciadas as cadeiras de assento (3), cadeiras de assento em couro (7), os chaveiros grandes e pequenos (4), 1 relógio de parede em muito bom estado, as bancas grandes e pequenas (9), 1 caixão velho, os confessionários (2), os potes de barro de azeite (2), os 4 lampiões de vidro dos dormitórios, 1 sino pequeno na torre da Igreja e 1 sineta na Portaria do Convento (estes, mereceram a nota de que “Não há quem os avali1”).

Se a “Relação dos Bens Nacionaes situados no Algarve, suas avaliações, e preço dos que tem sido arrematados até ao fim de Novembro de 1840”, publicada por João Baptista da Silva Lopes, na sua Corografia de 1841, mostram que o este mosteiro foi avaliado em 800$000 e a sua cerca em 170$000, neste Inventário encontramos outros detalhes e informações importantes. A comunidade religiosa dispunha do seu Convento, da sua Cerca e de um Hospício. O Convento era formado por áreas altas, baixas, pela sua torre e Igreja. Ao Norte confrontava com a sua Cerca, a Sul com a Rua das Freiras, a Nascente com a “rua d’ amargura” e a Poente com casas também pertencentes à Ordem do Carmo. A avaliação feita foi em 7 contos e 600 mil reis (7:600$000). Quanto ao Hospício, onde viviam os padres confessores e capelães do Convento (que confrontava a Sul com os herdeiros de D. Nicoláo Moral, a Norte e a Nascente com a Rua das Freiras e a Poente com o Largo do Adro da Igreja), aparece-nos uma avaliação de 192 mil reis (192$000). Finalmente, a Cerca conventual, tinha grandes muros na parte Norte, a Sul confrontava com ruas, a Nascente com os herdeiros de Domingos da Nóbrega e José Joaquim Franco e outros e a Poente com o Convento, a Casa da Ordem Terceira e ruas das Freiras que seguiam para a Porta dos Quartos. Foi avaliada em 500 mil reis (500$000).

No final do processo de inventariação, foi registado que a Prioresa desta comunidade religiosa feminina – Soror Maria Antónia Benedicta d’ Almeida, a última Prioresa desta casa inaugurada em 1558 – não assinou o Termo de declaração, o que causou estranheza nas autoridades, que registaram: “…sendo notável tal omissão”. E assim terminou, de facto, uma existência espiritual, social, cultural e económica verdadeiramente importante em todos os seus dinamismos.

Como vimos, o antigo Convento teve dois destinos diferentes e, simultaneamente, paralelos. Se a parte vendida a um particular deu origem a um teatro, a parte cedida à edilidade foi um Tribunal, uma Escola Industrial e uma Escola Secundária. Na sua Igreja, apesar de tudo, continuaram a realizar-se serviços religiosos até que, no ano de 1969, sofrendo danos por ocasião do sismo ocorrido em Fevereiro, foi encerrada. Das antigas estruturas conventuais, pouco ou nada resta, fruto das diversas utilizações e alterações que conheceram na sequência do seu enceramento. Hoje, a Igreja e a zona do velho mosteiro estão associadas a actividades culturais nos domínios do canto coral e da música erudita.

Se vimos que a influência e a dinâmica social e económica deste Convento foi importante, abrangendo gentes de diversas categorias sociais, ligadas à exploração agrária, em territórios como Odemira, Aljezur, Vila do Bispo, Lagos, Monchique, Vila Nova de Portimão, Lagoa, Silves, Albufeira, Loulé, Faro e Cuba, estas Freiras de Lagos, devido às suas virtudes no domínio da arte doceira, deixaram um legado cultural na cidade e na região algarvia que perdura até aos nossos dias. Segundo a tradição, o famoso doce Dom Rodrigo terá tido a sua origem neste Convento do Carmo de Lagos. Composto por fios de ovos, ovos moles, amêndoas da região e canela, este doce lacobrigense terá sido feito em honra de um dos Governadores e Capitães-Generais do Reino do Algarve, D. Rodrigo António de Noronha e Meneses, que exerceu as suas funções em meados do Século XVIII. Outro doce local, não menos conhecido e que pertenceu ao receituário deste Convento de Nossa Senhora da Conceição de Lagos, foi o Morgado, feito com açúcar, fios de ovos, doce de chila, ovos moles e pequenos pedaços de cidrão.

Se hoje a Igreja das Freiras está enquadrada pelo acolhedor Largo Dr. Vasco Gracias, pelos seus notáveis edifícios, pelas sombras das frondosas árvores e pelas velhas muralhas da cidade, atrás do silêncio da antiga clausura conventual das Freiras do Carmo está toda uma história e uma herança seculares que merecem a nossa melhor atenção e respeito e que aqui nos aprouve recordar.

Este trabalho é dedicado à Câmara Municipal de Lagos e à amiga Ana Cláudia Tempera.

Artur Vieira de Jesus,

Licenciado em História

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Fontes e Bibliografia: - Arquivo Distrital de Faro – “Cópias dos Inventários dos extintos Conventos”. - Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Ministério das Finanças, Convento de Nossa Senhora da Conceição de Lagos, cx. 2221. - “Dicionário de História de Portugal”, Direcção de Joel Serrão, Volume III, Porto, Livraria Figueirinhas, 1989. - “Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura”, Volume VIII, Lisboa, Editorial Verbo, 1969. - LAMEIRA, Francisco I.C., “Inventário Artístico do Algarve – A Talha e a Imaginária – XI – Concelho de Lagos”, Faro, Secretaria de Estado da Cultura/Delegação Regional do Algarve, 1994. - LOPES, João Baptista da Silva, “ Corografia ou Memoria Economica, Estadistica, e Topografica do Reino do Algarve”, Lisboa, Tipografia da Academia das Ciências de Lisboa, 1841. - MARADO, Catarina Almeida, “Antigos Conventos do Algarve – Um Percurso pelo Património da Região”, Lisboa, Edições Colibri, 2006. - SARAMAGO, Alfredo e CARDOSO, Homem, “Para a História da Doçaria Conventual Portuguesa”, s.l., CTT Correios de Portugal, 2000. - https://www.cm-lagos.pt/municipio/noticias/6947-dom-rodrigo-de-lagos-nomeado-as-7-maravilhas-doces-de-portugal