João Cutileiro e a estátua de D. Sebastião (Praça Gil Eanes, Lagos, 1973)

João Cutileiro (Lisboa, 26 de Junho de 1937 - Lisboa, 5 de Janeiro de 2021)

João Cutileiro:

Lagos, Arte Pública e Leituras da História de Portugal

Como é do conhecimento geral, partiu há poucos dias o escultor João Cutileiro, um dos nomes mais importantes da Arte Contemporânea em Portugal. Revela-se, assim, oportuno recordar a sua personalidade, a sua obra e, muito particularmente, as marcas culturais e artísticas que deixou na paisagem da nossa cidade e, também, no território vicentino.

João Cutileiro nasceu em Lisboa, em 1937, e morreu este ano na mesma cidade. Foi um homem marcante, um escultor e ceramista arrojado que desafiou os cânones e parâmetros definidos e aceites no mundo artístico do seu tempo. O seu percurso pessoal e artístico levou-o a Évora, aos Açores, à Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa, à Slade School de Londres e à nossa cidade de Lagos.

Na opinião do Historiador de Arte Paulo Pereira, Cutileiro empreendeu um percurso independente em relação ao ensino oficial, rompendo com uma abordagem académica obsoleta, fora de tempo e árida.

Sem qualquer dúvida, João Cutileiro foi um inovador, debruçando-se sobre novas temáticas, recriando-as sempre. Na sua abordagem artística tratou os temas da natureza dando-lhes uma conotação humana, os pares de apaixonados, os guerreiros e a versatilidade dos corpos femininos. Justapôs e integrou diversos elementos nos trabalhos de grande porte que executou e, sobretudo, utilizou os conhecimentos de cantaria, as máquinas de corte e de perfuração na elaboração das suas obras, revolucionando as técnicas da arte escultórica em Portugal. Além disso, chegou inclusivamente a aproveitar os desperdícios da pedra utilizada nos seus trabalhos, desenvolvendo para tal a técnica do mosaico.

No processo da sua construção e amadurecimento artístico, a passagem de João Cutileiro por Londres foi determinante. Na sua passagem pela Slade School (a que já nos referimos acima), que ocorreu entre 1955 e 1959, recebeu o prémio que ostentava o nome da escola. Os anos de 1963 e 1965 foram importantes no seu percurso técnico e criativo. Permaneceu na capital inglesa até ao ano de 1970. E nesse mesmo ano, chegou à nossa cidade de Lagos, onde passou a residir e a trabalhar.

Em Lagos, além de ter levado a cabo uma actividade pedagógica na área da pedra, aqui deixou a sua obra mais conhecida, notável e polémica, o D. Sebastião. A obra, que se destaca na Praça Gil Eanes, em pleno centro da cidade, foi realizada entre 1970 e 1973, sendo inaugurada neste último ano. De forma significativa, nela vemos todo o arrojo, toda a audácia, toda uma expressão e manifestação de crítica e ruptura em relação a conceitos e formas de pensar e de estar que Cutileiro, seguramente, considerou cristalizadas, estagnadas, paralisadas noutros tempos. Se, por um lado, a estátua evoca a elevação de Lagos a cidade (o que aconteceu em 1573, durante a visita do Monarca), por outro, evoca a partida do jovem Rei de Lagos para Marrocos, onde acabou por perder a vida, a 4 de Agosto de 1578.

O D. Sebastião de Cutileiro celebra o D. Sebastião homem e mito numa arrojada simbiose, numa representação onde o jovem aparece envolto no aparato militar de uma armadura composta por elementos desproporcionados, que lhe conferem um aspecto de irregularidade burlesca e de excesso. É o jovem Rei Encoberto, heróico e visionário que, de Lagos, parte para a Alcácer-Quibir, onde desaparece no meio dos seus sonhos de glória, permanecendo amado pelo povo que o espera numa manhã de nevoeiro.

O interesse do escultor e ceramista pelo Rei Desejado não se esgotou, porém, no monumento da Praça Gil Eanes. Um pouco mais adiante, junto às antigas muralhas, ao antigo Castelo dos Governadores, à famosa Janela Manuelina onde o Monarca terá assistido a uma missa antes de partir para África, no Jardim da Constituição, encontramos um interessante Tríptico, onde Cutileiro voltou a abordar D. Sebastião, a Batalha de Alcácer-Quibir e o tema da sua morte ou desaparecimento.

A estátua de D. Sebastião (Praça Gil Eanes, Lagos

A estátua de D. Sebastião (Praça Gil Eanes, Lagos - 1973)

Vénus Deitada (Rua da Porta de Portugal, Lagos)

O tríptico evocativo de Alcácer-Quibir (Jardim da Constituição, Lagos)

Além da estátua e do Tríptico que mencionámos, podemos admirar outra obra da autoria do escultor que temos vindo a abordar e que se encontra, também, no centro da cidade. Trata-se da Vénus Deitada, uma obra dos Anos 80 do Século passado e que se encontra na Rua das Portas de Portugal. Aqui o visitante poderá sentir a versatilidade de Cutileiro no tratamento do tema do corpo feminino, que abordou em, praticamente, todas as variações possíveis. Esta obra, em concreto, é um bom exemplo na contextualização de um admirador em relação à obra deste autor em particular.

O nosso percurso pela produção artística deste importante artista plástico, que nos deixou tão recentemente, transporta-nos, agora, à vizinha Vila de Sagres, no Concelho de Vila do Bispo. E em Sagres, este texto, convida agora o leitor a entrar na magnífica obra arquitectónica, também ela um símbolo de uma época e dos seus valores, a Pousada de Sagres, inaugurada no âmbito das Comemorações do V Centenário da Morte do Infante D. Henrique, ocorridas em 1960, que, como se sabe, produziram mudanças significativas, também, na nossa cidade de Lagos.

Ora, na Pousada de Sagres (projectada por um dos mais notáveis arquitectos do Século XX em Portugal, Jorge de Almeida Segurado), no meio de todo um importante e fabuloso acervo artístico que inclui as soberbas tapeçarias de Portalegre “Epopeia Marítima” e “A Fé o Império” (da autoria de Cândido Costa Pinto, em 1960) e uma notável escultura de São Vicente (da autoria de Álvaro de Breé), no átrio da recepção da unidade hoteleira, como que a desafiar o retrato canónico do Infante D. Henrique, da autoria de Cândida Costa, destaca-se um admirável busto da autoria de João Cutileiro, talhado a pedra negra, com o típico chapeirão, olhos destacados, diversos elementos justapostos e com a mão direita a sobressair da composição na direcção do espectador, segurando um pequeno globo terrestre de pedra em tons amarelos-laranja. Um busto sóbrio, cheio de dinamismo, evocativo do grande impulsionador dos Descobrimentos Marítimos Portugueses, durante parte do Século XV e uma obra de arte bem demonstrativa da capacidade criativa audaz que caracterizou João Cutileiro ao longo dos anos que viveu.

Aqui ficam algumas notas para que possamos valorizar mais um dos muitos aspectos importantes que podemos encontrar nas ruas de Lagos e até mesmo, aqui bem perto de nós, em Sagres, associados à vida e à obra de um dos mais importantes impulsionadores da escultura moderna em Portugal, um vulto cimeiro da nossa Cultura que ousou rasgar novos horizontes criativos e técnicos, rompendo com um imobilismo e com as ilusões conformistas da convencionalidade e do conformismo da mera formalidade.

Artur Vieira de Jesus

Licenciado em História

Fontes e Bibliografia - JESUS, Artur Vieira de, “Vila do Bispo – Lugar de Encontros”, Volume II, Vila do Bispo, Câmara Municipal de Vila do Bispo, 2017. - “O Grande Livros dos Portugueses”, s.l., Círculo de Leitores, Lda., 1990. - PEREIRA, Paulo, “Decifrar a Arte em Portugal – Arte Contemporânea”, Volume VI, s.l., Círculo de Leitores e Autor, 2014. - Site Institucional da Câmara Municipal de Lagos www.cm-lagos.pt na secção “Arte Pública”.