A Igreja e o Convento das Freiras

A Igreja e o Convento das Freiras

os espaços, as pessoas e as memórias na história de Lagos (1.ª Parte)

1. O Convento e a Igreja

Um dos espaços religiosos mais extraordinários da Cidade de Lagos é a antiga Igreja do Carmo (mais conhecida como Igreja das Freiras) e o Convento a que esteve associada. Situado entre a Rua João Bonança e a Rua Cardeal Neto, este edifício, cuja fachada olha para o Largo Dr. Vasco Gracias, é um dos mais imponentes, fascinantes e enigmáticos na nossa paisagem urbana, merecendo por isso aqui a nossa atenção, visando descobrir alguns aspectos da sua vida passada.

Antes da sua actual e elegante torre sineira e toda a sua estrutura edificada se terem imposto no meio de todo o aglomerado de construções, aqui se situou a velha Ermida de Nossa Senhora da Conceição, construída em 1463. O Convento da Ordem do Carmo de Lagos (de Freiras Carmelitas Calçadas) teve a sua origem no ano de 1557, com a vinda de 5 religiosas do Convento da Esperança da Cidade de Beja. Foi fundado a 9 de Outubro de 1558 sob a invocação de Nossa Senhora do Loreto, tendo a sua Igreja, contudo, a invocação de Nossa Senhora da Conceição (associada à ermida) e que acabou por prevalecer.

As obras de transformação da antiga ermida na imponente casa conventual iniciaram-se, assim, nesse ano de 1558, com a doação à Ordem do Carmo, por parte do Padre Cristóvão Dias e de familiares próximos, do Sítio da Pedra da Eira ou da Serra, onde tinham umas casas e um quintal. Sabemos que a construção durou vários anos. Em 1577, o cronista Frei João de S. José registou que existia em Lagos “…um mosteiro de freiras da ordem de Nossa Senhora do Carmo, que, em nossos dias, se começou e está já posto em bons termos, pela muita devoção da gente da terra…”. Já, por volta de 1600, Henrique Fernandes Sarrão, escrevendo também sobre a nossa cidade, destacou este mosteiro “…de freiras Carmelitas, de grande recolhimento, e virá a ser mui sumptuoso.” Anos depois, em 1604, o Bispo D. Fernando Martins Mascarenhas apelou com veemência aos fiéis locais que contribuíssem para o termo das obras. Por sua vez, em 1614, o corpo do Governador D. Manuel de Lencastre foi sepultado na sua Igreja, o que quer dizer que ela já se encontrava concluída e que o mosteiro gozava já de algum prestígio aos olhos da sociedade lacobrigense.

O acesso à Igreja faz-se através de uma porta lateral. Apresenta uma só nave abobadada e uma Capela-mor coberta por uma cúpula com lanternim, da autoria de Diogo de Campos. Na estrutura, situava-se a janela com gradeamento a partir da qual as religiosas assistiam aos ofícios litúrgicos (analisaremos este assunto mais adiante). O interior é iluminado por óculos. A talha dourada está presente no retábulo da Capela-mor (do 1.º quartel do Século XVIII), nos retábulos colaterais (do 2.º quartel do Século XVIII) e no púlpito. Aí é possível vislumbrar o esplendor de outrora, testemunhado pelos anjos atlantes que suportam estruturas da talha do altar principal, pelas flores e cachos de uvas, pelas colunas salomónicas e pelos anjos que se entrelaçam em folhas encaracoladas de acanto. Este edifício imponente alberga, ainda, notáveis exemplares de azulejaria setecentista, decorados com albarradas, com as suas cercaduras vegetalistas, pequenos anjos ao gosto da decoração barroca e cestos com motivos florais abundantes.

Esta Igreja das Freiras resistiu à acção devastadora do Terramoto de 1 de Novembro de 1755 em Lagos, o que não aconteceu com o mosteiro, que ficou arruinado. Porém, quer o templo, quer as velhas estruturas conventuais de que faziam parte não resistiram às investidas políticas da governação liberal, a partir da Década de 30 do Século XIX, contra as Ordens Religiosas. Na sequência das medidas políticas tomadas a esse respeito, o antigo espaço conventual foi vendido a um particular (dando origem, em 1862, ao Teatro Gil Vicente), sendo uma outra parte cedida à Câmara Municipal de Lagos, que aí instalou um Tribunal Judicial, que deu lugar mais tarde a uma Escola Industrial e depois à primeira Escola Secundária com a designação de Gil Eanes que existiu na cidade.

Depois deste enquadramento necessário no espaço e no tempo, debrucemo-nos em seguida sobre o lado mais importante deste antigo convento que marcou a vida da cidade e de toda a zona circundante entre os meados do Século XVI e os meados do XIX. Como nos temos esforçado por transmitir noutros trabalhos, analisar apenas os edifícios com importância histórica e cultural por si só, na sua mera frieza estrutural, conduz-nos a abordagens redutoras. Importa, sobretudo, saber quem foram as Pessoas que aqui viveram, o que fizeram e que impacto tiveram na sociedade local. E felizmente dispomos de preciosas informações que nos permitem traçar o perfil humano deste Convento do Carmo de Lagos e das suas religiosas Carmelitas.

A Igreja e o Convento das Freiras

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2. As Religiosas do Convento do Carmo

A Ordem do Carmo tem as suas origens na Palestina dos Séculos XI e XII, tendo sido organizada pelo Patriarca de Jerusalém Santo Alberto, que lhe definiu uma regra, entre 1205 e 1214. A regra reuniu as práticas espirituais até aí levadas a cabo pelos eremitas do Monte Carmelo, nomeadamente, a vivência solitária, a penitência, a oração e o trabalho. O seu carácter foi fortemente eremítico. Pelos meados do Século XIII, no meio das crescentes guerras naquela zona do Oriente, os religiosos Carmelitas deixaram a Terra Santa. Espalhando a sua influência no continente europeu, assumiram uma forma de estar cada vez maior associada à vida mendicante. Nos Séculos XIII e XIV surgiram os primeiros registos de mulheres ligadas a esta Ordem, vivendo individual ou comunitariamente nas imediações dos mosteiros masculinos, dando o seu apoio, na qualidade de sorores, beatas ou mantelatas.

Em Portugal, a Ordem do Carmo teve o seu primeiro mosteiro (masculino) em Moura, sendo este associado ou à presença dos Cavaleiros Hospitalários na localidade (a partir de 1251), que trouxeram consigo religiosos Carmelitas vindos de Jerusalém, ou à sua fundação por parte de D. Afonso de La Cerda, no Século XIV, com frades vindos de Espanha ou de França. Quanto ao ramo feminino, as Carmelitas, no nosso país, as suas origens remontam à fundação do já referido Convento de Nossa Senhora da Esperança, em Beja, por iniciativa de D. Leonor Colaça, no ano de 1541. Esta casa religiosa deu, seguidamente, origem aos mosteiros carmelitas de Lagos (o 2.º feminino da Ordem em Portugal), em 1558, e de Tentúgal, em 1565.

Consideremos, agora, quem foram algumas das mulheres que deram vida ao Convento de Nossa Senhora da Conceição de Lagos. Contudo, antes de mais, importa ter em conta que foram múltiplas as razões que, seguramente, as levaram a atravessar as portas deste e de outros mosteiros. Entre elas, as motivações espirituais e devocionais terão sido importantes. Podemos aqui apontar a procura de uma espiritualidade mais intensa, profunda, interior, consagrada (separada do mundo terreno e das suas misérias), mais próxima de Deus e da pureza do Cristianismo inicial. A procura de uma vida pautada pela oração, pela austeridade, pelo silêncio, pela meditação e pela intervenção social através do apoio aos mais desfavorecidos e fragilizados. Foi o que aconteceu nos casos da mendicidade e dos órfãos (sobretudo raparigas de importantes famílias locais, como veremos). Por outro lado, terão existido, igualmente, razões de ordem social, como aconteceu com os casos de jovens mulheres ou viúvas provenientes de grupos sociais privilegiados de raiz aristocrática. Vejamos, assim, alguns casos.

Na companhia do Padre Frei António Leal, Prior Geral do Convento da Ordem situado em Beja, entraram como fundadoras da casa religiosa de Lagos, a 9 de Outubro de 1558, as Madres Sorores Catarina da Cruz (1.ª Prioresa do mosteiro), Ana da Cruz, Jerónima de S. Bartolomeu, Catarina da Luz e Joana Baptista. A elas juntaram-se, nesse mesmo ano, Joana da Conceição, Brites dos Anjos e Isabel da Visitação sobrinhas do padre fundador (Cristóvão Dias) e filhas do seu irmão, Bartolomeu Dias e de Violante de Arez. Em períodos cronológicos difíceis de determinar, sabe-se que aqui professaram D. Leonor de Meneses e D. Ângela da Assunção (com ligações à Casa Real e filhas de Egas Moniz Telles e de D. Isabel de Meneses, Morgados de Boina e moradores na Cidade de Lagos), Madre Paula de Vasconcelos (filha de Bartolomeu Froes), uma filha de Manuel de Castello Branco e uma outra de Soeiro da Costa (todos eles destacados membros da fidalguia). Segundo sabemos, estas mulheres faleceram com fama de santidade.

No período de dominação filipina (1580-1640), o Convento do Carmo era composto por 60 religiosas (1606). Foram suas Prioresas, Madre Paula de Jesus (em 1600, natural de Alvor e conhecida como a Doutora e que faleceu com grande fama), Madre Soror Micaela de Santa Ana (pelo menos em 1627-1628) e (em data incerta) Soror Isabel de Assunção. Dentro desta moldura cronológica, aqui faleceram (a 27 de Fevereiro de 1612 e a 10 de Janeiro de 1628, respectivamente), as religiosas Isabel de Assunção (provavelmente a mesma a que nos referimos atrás) e Joana da Coluna. Ambas ficaram conhecidas pelas suas vidas exemplares. A primeira, destacou-se na direcção da comunidade por 5 vezes, pelo seu amor pela pobreza e pela caridade (tendo chegado a dar o seu hábito como esmola, por nada mais ter para dar), pela sua observância do silêncio, pela maneira como respeitou a Regra, por ser sofredora e pela forma como desprezou o seu corpo em favor do seu ser espiritual. Já a segunda, mostrou grande perfeição nas suas virtudes religiosas, sobretudo aos níveis da penitência e da oração fervorosa. Notabilizou-se, ainda, por, no termo dos seus dias, se ter abraçado a um Crucifixo, beijando as Chagas sem cessar e chorando. Faleceu após comungar, ficando o seu corpo a exalar um aroma a boninas e rosas. Ao longo destes anos, aqui professaram, também, Maria de Jesus (entre 1609 e 1611), Brites (antes de 1619) e Guiomar de S. Marcos (religiosa em 1620). Outros nomes notáveis foram os da Soror Isabel de Santa Teresa (natural de Vila do Conde, que deixou a casa da família para ingressar neste mosteiro, falecendo em 1628) e da Madre Madalena do Sepulcro, que recebeu sepultura no adro da Igreja de Santa Maria, tendo, segundo a tradição, nascido sobre a mesma uma roseira que, rapidamente, floresceu. Mantendo uma tradição de ligação de importantes famílias aristocráticas locais a este convento, temos conhecimento de 3 filhas de D. Brites do Rio aqui terão professado com os nomes de Isabel da Madre de Deus, Violante da Conceição e Maria da Apresentação. Por outro lado, também as 3 filhas de Rodrigo Rebello – D. Teresa, D. Brites e D. Joana – foram religiosas nesta casa carmelita de Lagos. Já na 2.ª metade do Século XVII, conhecemos os nomes de mais 4 freiras: Catarina dos Santos (1649), Madre Esperança dos Reis (1656), Madre D. Violante (1661) e Maria do Nascimento.

No Século seguinte, a catástrofe ocorrida a 1 de Novembro de 1755, tirou a vida a 22 freiras e feriu outras 43. No questionário enviado aos Párocos na sequência do Terramoto desse ano, o Pároco da Freguesia de Santa Maria de Lagos, Prior Lázaro Moreira Landeiro Corte Real, destacou algumas pessoas virtuosas da cidade. Entre elas, estava uma religiosa do Convento do Carmo, a Madre D. Teresa de Jesus, cuja vida fora exemplar, mas cuja morte fora prodigiosa, estando “…exposta tres dias sempre flesível, com os olhos claros e outros actos sobrenaturais. Depois de alguns annos emterrada se lhe achou a mão direita com as propriedades de viva. Atribuio-se este prodígio à virtude de ter sido muito esmoler.”

A Igreja e o Convento das Freiras

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Nos anos de 1776-1778, foi Madre deste convento D. Leonor Raimunda de Vasconcelos, sendo as suas irmãs, D. Ana Genoveva de Vasconcelos e D. Teresa Angélica de Vasconcelos, também religiosas na mesma casa. Por esses tempos, estas irmãs, juntamente com o seu irmão Fr. Álvaro da Conceição de Vasconcelos (religioso professo na Ordem de São João de Deus), por morte dos seus pais Álvaro Dias Gomes e D. Joana de Sobral e Vasconcelos (que falecera neste mesmo Convento do Carmo de Lagos), estiveram envolvidas numa cobrança judicial de dívida de Francisco Garcia do Amaral a seu pai (devida à compra de um engenho de açúcar no Brasil) e num processo para se habilitarem por herdeiras dos seus progenitores. Nos finais do Século XVIII, em 1790, encontravam-se neste mosteiro 34 freiras, 14 recolhidas e mais 20 criadas. Porém, nos alvores do Século XIX (em 1801), as religiosas eram apenas 26. Este Convento de Nossa Senhora da Conceição foi fechado no ano de 1833 por força do decreto governamental respeitante às Ordens Religiosas. As freiras Carmelitas de Lagos foram integradas no Convento de Nossa Senhora da Assunção de Faro (da mesma Ordem) e, posteriormente, no ano de 1836, rumaram a Tavira, entrando na casa da Ordem de Cister ali existente.

3. Formas de estar, de agir e de viver no Convento

Os mosteiros eram vistos como a imagem do paraíso terrestre, um lugar no mundo mas que estava além do próprio mundo e que se desejava bem afastado dele. As religiosas que os habitavam dedicavam-se à oração, à contemplação, à leitura e à meditação, actividades espirituais pautadas pelo silêncio. Sobretudo, as freiras oravam e liam, ou de forma individual, ou conjunta durante os actos litúrgicos. Estavam, igualmente, envolvidas no trabalho da terra, no cuidado dos seus jardins, pomares ou hortas, mas também se dedicavam a outras actividades práticas, como a fiação e a tecelagem, bem como aos bordados e remendos (especialmente dos paramentos associados às liturgias). Por outro lado, mereceu um destaque importante, a sua dedicação à doçaria, onde deixaram um precioso legado no cenário cultural do nosso país.

As freiras estiveram sujeitas a uma clausura mais rigorosa, o que significava que nem os estranhos ao convento tinham livre acesso e que nem as religiosas(os) podiam sair com liberdade e sem autorização. A clausura visava, assim, fomentar uma espiritualidade intensa, contemplativa, piedosa e transcendente, bem como uma forma de vida religiosa superior ao serviço de Deus, através da pobreza, da obediência e da castidade, liberta das mais diversas perturbações do mundo. Por esses motivos, os mosteiros foram espaços austeros, com as suas cercas de muros elevados a toda a sua volta, com poucas aberturas, sendo as existentes fechadas com gradeamentos de ferro e, em muitos casos, com espigões. Este sentido de afastamento estendeu-se, igualmente, ao espaço mais importante do mosteiro – a Igreja -, onde as religiosas estavam afastadas da área pública através dos referidos gradeamentos (que, como vimos, existiram também no Convento do Carmo de Lagos), divisórias e cortinados, que limitavam os contactos visuais ao longo dos actos litúrgicos. Contudo, apesar de todos os esforços no sentido da preservação da clausura, nos Séculos XVII e XVIII, particularmente, notou-se um relaxamento comportamental entre os membros das Ordens Religiosas, femininas e masculinas, reportando-se diversos casos de mundanização, indisciplina, violações da clausura, conflitos, prática de jogos de dados e cartas, uso de tabaco, sexualidade e de relações amorosas ilícitas, entre outras situações.

Ao nível dos espaços conventuais, refira-se que os únicos pontos de contacto com o mundo exterior ocorriam nos espaços da hospedaria (onde se acolhiam os visitantes), da portaria (aberta ao terreiro e ligada à porta principal da cerca) e do locutório (uma sala dividida por gradeamentos onde as freiras podiam receber os seus familiares e onde existia também uma roda giratória na parede, através da qual se podiam fazer chegar embrulhos).

Importa, ainda, referir que os conventos constituíram importantes realidades que fundiram aspectos espirituais, sociais, económicos, culturais e arquitectónicos. Formaram, também, focos de poder e de cultura e foram espaços monumentais e de aparato, muitas vezes graças às mulheres das elites sociais que neles ingressaram e que deles se serviram para demonstrar a sua influência e ostentação, através das artes e da arquitectura. Muitas das comunidades que se constituíram foram abastadas e muito procuradas e disputadas do ponto de vista social, tornando-se símbolos de uma elite aristocrática, que viu na entrada nesses mosteiros um sinal evidente de distinção e de prestígio social, não acessível a todos. Aliás, foi notória a ligação e interesse de altas personalidades femininas da Casa Real, da Corte ou de grandes casas nobres a diversas ordens e mosteiros femininos. Não podemos descurar o facto de que uma parte considerável das religiosas eram provenientes da aristocracia e de grupos sociais elevados, de círculos influentes com os quais nunca deixaram de manter ligações estreitas, construindo elas também as suas próprias influências (ser a madre, abadessa ou prioresa de uma destas casas religiosas constituía uma posição de grande prestígio) e que um número importante de mosteiros desempenhou um papel político e cultural da maior importância.

Não de menor importância foi o facto dos conventos terem sido, para diversas das mulheres que neles ingressaram, espaços de verdadeira mobilidade social e emancipação, onde se desenvolveram intelectual e culturalmente, alcançando um papel de influência no tempo, na cultura e na sociedade em que viveram, que de outra forma nunca teriam conseguido.

Sabemos que as religiosas deste Convento de Nossa Senhora da Conceição de Lagos viviam de forma simples e que costumavam assistir ao coro com muita regularidade, a ponto de terem que ser chamadas para irem comer. Ao nível da alimentação, por exemplo, o Rei Filipe II ordenou à Vereação e oficiais de Lagos que vendessem a esta casa religiosa a carne, o pescado e outras coisas necessárias à vida das religiosas e dos familiares que ali se encontravam.

Os mais antigos rendimentos deste convento lacobrigense advieram dos bens da Capela instituída pelo piloto João Ribeiro na Igreja de São Sebastião, do rendimento das Armações de Pesca do Reino do Algarve, de dotes diversos por ocasião das profissões de filhas de importantes famílias locais, da sisa das carnes de Lisboa, da imposição dos vinhos de Lisboa e depois no Almoxarifado de Lagos.

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Numa outra vertente, se verificámos que várias das religiosas se destacaram nas práticas e virtudes espirituais, por outro lado, os valores materiais e carnais do mundo secular também marcaram presença, pelo menos, em dado momento da história deste convento. No dia 3 de Junho de 1631, o Ermitão Gregório Dias, casado com Justa Cardosa e que habitava no mosteiro fez uma denúncia ao Bispo D. Francisco de Meneses, que estava em visitação a Lagos. Declarou que eram frequentadores do convento das religiosas do Carmo e que “…nelle tem amizade E continuão com ella…” o Prior Sebastião Pereira com uma filha de Diogo Rebelo, “O Alfaqueque” e o atalaia de uma armação de pesca, Pero Coelho, com uma filha de Rodrigo Rebelo, cujo nome era Leonor da Piedade. O denunciante salientou que os viu “…continuando a dita amizade ate ao prezente…”. Apesar da regulamentação episcopal rígida e da severidade da legislação régia respeitantes à presença de clérigos e leigos nos conventos de religiosas e acerca da inviolabilidade da sua clausura, não sabemos qual o desfecho desta situação embaraçosa e claramente demonstrativa que mais do que regras, muros ou grades que tentavam separar do mundo e dos seus valores, a verdadeira e mais importante clausura era a que cada religiosa deveria fazer espiritualmente no âmago da sua própria alma.

Além de todos os aspectos que já considerámos, existe um outro bastante merecedor de atenção e do qual conhecemos alguns exemplos com maior detalhe. Não podemos esquecer o importante papel assistencial protagonizado pelos conventos em Portugal ao longo dos tempos. Se ele foi efectivamente importante ao nível do apoio aos socialmente mais desfavorecidos, o papel desempenhado ao nível do recolhimento de órfãs oriundas dos meios aristocráticos não foi, seguramente, de menor relevância. Assim, conhecemos duas situações da 2.ª metade do Século XVIII, mais concretamente do reinado de D. Maria I e que aqui damos a conhecer.

No primeiro caso, estando desamparadas pela morte do seu pai (António Pimentel do Vado, Capitão-Mor da Vila de Alvor e netas do Governador de Albufeira, Luís Pimentel do Vado) e tendo já a sua mãe também falecida, as irmãs D. Victória Anaia Pimentel do Vado, D. Joaquina Anaia Pimentel do Vado e D. Bernarda Teresa Anaia Pimentel do Vado, sem terem ninguém que as acudisse, solicitaram à Monarca, em 1777, que as mandasse “…recolher por seu real decreto no Convento de N.ª S.ra do Carmo da Conceição de Lagos onde têm uma tia Religiosa…”. Pelos mesmos motivos, em 1798, Sebastião de Pina de Azevedo, Ajudante do Regimento de Infantaria da Praça de Lagos, tendo falecido o seu cunhado, Guilherme Coelho Ferreira, Tenente-Coronel de Artilharia, Lente de Aula do referido Regimento, Inspector das Obras de Fortificação da mesma Praça e Director do Trem, deixou 3 filhas menores (que também já não tinham viva a sua mãe) sem mais amparo do que aquele em que ele lhes podia valer. Apesar da pensão alimentar atribuída “…pela Real grandeza de Vossa Majestade…”, preocupava a Sebastião de Pina de Azevedo a situação de desamparo em que as crianças poderiam ficar na sua eventual ausência devida ao posto militar que ocupava e que o poderia conduzir a outras paragens. Por isso, requereu à Rainha que “…lhe faça a graça…”, em “...em atenção aos bons serviços de seu Pai…de as mandar recolher no Convento de nossa Senhora do Carmo da Cidade de Lagos…”.

Por fim, gostaríamos de destacar um episódio ocorrido também durante a realeza de D. Maria I, bem demonstrativo da capacidade cultural e social das religiosas deste convento na defesa dos interesses da sua comunidade face às ameaças do mundo exterior e dos abusos das autoridades locais, neste caso da Vereação e oficiais da Câmara de Lagos. A ocorrência é bem demonstrativa da sua coragem na denúncia de uma situação que consideravam perturbadora para a sua vida religiosa e social, mas evidencia, da mesma forma, a sua importante influência e capacidade de acção que ultrapassou (como veremos) os limites das autoridades lacobrigenses.

Tudo começou quando os oficiais da Câmara taparam uma travessa contígua à cerca do Convento do Carmo. A Prioresa e as restantes religiosas apresentaram o seu protesto, dirigindo-se à Rainha, através do Procurador-Geral dos Carmelitas Calçados, Frei Leonardo de Gouveia. Informaram da existência de uma porção de terreno junto à sua cerca murada para servir de logradouro do mosteiro e cuja posse vinha de tempos muito antigos. Até esse momento, as religiosas Carmelitas não tinham consentido a construção de casas próximas e encostadas ao referido muro, para não ocorrer nenhum tipo de devassa à sua clausura (como era proibido por lei). Queixaram-se que os Vereadores da Câmara de Lagos se tinham esquecido da obrigação que tinham de evitarem todos os males e vexações que se faziam ao povo e muito mais aos conventos das religiosas. Acusaram-nos, assim, da maior violência por taparem a dita travessa e por lhes tirarem o terreno fazendo nele aforamentos. Reprovaram, sobretudo, a conduta do Vereador mais velho, que levara à construção de edifícios encostados ao referido muro, com gravíssimo prejuízo de ser devassada e violada a sua clausura. Referiram que tinham um Breve pontifício que proibia a autorização de construções juntas ao convento “…pellas desordens q se podem seguir…”, destacando, ainda, a irregularidade dos aforamentos realizados. Recorreram, assim, à “…Soberana e Protectora dos Sagrados Cânones…” no sentido de as livrar da violência e dos males a que tinham sido submetidas e dos que dali poderiam advir, pedindo a intervenção do Corregedor da Comarca para verificação da verdade, restituição da travessa à sua posse, demolição dos edifícios construídos e advertência aos Vereadores para não se voltarem a intrometer num terreno que não lhes pertencia, declarando nulos todos os contratos que tivessem efectuado contra a lei. O assunto avançou para o Tribunal.

A Câmara alegou que “…por causa das desgraças e prejuízos acontecidos em a mesma Travessa se determinara manda-la tapar, e aforara parte do seu terreno…”. Segundo o Corregedor da Comarca, a Câmara ao tapar a travessa que era nociva para o povo, agiu com jurisdição e motivo, porém, quantos aos aforamentos “…teve uma crassíssima ignorância do Alvará de 23 de Julho de 1766, que a inibia de todos os aforamentos…”. Tais aforamentos eram, portanto, “…contrários ao disposto em o referido Alvará”. Perante toda a situação, o Corregedor defendeu que as religiosas deviam aguardar a decisão da causa pendente (que caso fosse contrária ao pretendido, poderiam intentar a do domínio que alegavam), não lhes sendo lícito o recurso a meios extraordinários. Quanto aos foreiros, deviam assinar um termo comprometendo-se a não levantarem mais muros divisórios, isto se a Rainha não determinasse a sua demolição imediata, “…por serem injustos aforamentos.”. A Câmara, por sua vez, devia ser advertida a não fazer novos aforamentos. Terminou a sua exposição à Monarca, redigida em Lagos a 19 de Dezembro de 1785, com a seguinte ressalva: “Sobre tudo V. Mag.e determinará o q for da Sua Real Vontade.” O assunto, entretanto, tinha chegado a outras pessoas e organismos influentes em Lisboa. É o que podemos depreender do documento assinado, na mesma data, pelo Corregedor da Comarca de Lagos, João José da Silva dirigido ao Visconde de Vila Nova de Cerveira, nada menos que o responsável pelos Negócios do Reino onde o informa que além do aviso que dele recebera a respeito do requerimento das freiras de Lagos, tinha recebido outro, sobre o mesmo assunto, da parte da Mesa do Desembargo do Paço (que viera igualmente por força de um aviso daquele governante). Informou-o acerca do que transmitira àquele Tribunal, entendendo que se deveria consultar Sua Majestade, uma vez que as representações eram idênticas, deveriam ser idênticos os seus informes, pelo que remetia ao Visconde cópia do que fora transmitido ao Tribunal de modo a que ele pudesse informar a Rainha.

Os casos que analisámos permitiram-nos mergulhar na esfera de uma comunidade religiosa que foi muito importante, espiritual e socialmente activa e com influência na vida de Lagos. No próximo trabalho aprofundaremos outros aspectos de relevo respeitantes a estas freiras Carmelitas e ao seu Convento de Nossa Senhora da Conceição, procurando conhecer, compreender e valorizar de forma mais adequada o papel das mulheres que o habitaram ao longo dos séculos e a sua importância ao nível local e regional.

Este trabalho é dedicado à Câmara Municipal de Lagos e à amiga Ana Cláudia Tempera.

Artur Vieira de Jesus,

Licenciado em História

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